Festival de Gramado | Duas mulheres, dois mitos celebrados nos dois primeiros dias

Fotos: Paula Cristina Cagnani Fernandes

Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.
Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.

Começou na sexta-feira, 26, a 44ª edição do Festival de Cinema de Gramado. Chegamos à cidade gaúcha, eu e Paula, fotógrafa, na tarde do dia em questão. Não deu tempo de conferir o lançamento do Museu do Cinema. Seguimos direto para a Livraria Café Conceito, um charmoso espaço que mistura a parte literária, cafeteria, bistrô e é ponto de encontro cultural no município. Lá, lanço na terça, dia 30, o livro “Histórias: Batman e Superman no Cinema”. Em outro post falaremos mais do espaço. Em seguida, fomos à Sociedade Recreio Gramadense, para pegar as credenciais. Nosso foco é cobrir os principais filmes e algumas oficinas.

Sonia surgiu no tapete vermelho, localizado na Rua Coberta, um bulevar repleto de lojas e restaurantes chiques e descolados, por volta das 19h45. O início do evento estava programado para 19h. Faz parte do show e deixa um gostinho de ansiedade no público. Nesse tempo, as laterais da passarela já estavam tomadas. Segundo o amigo e curador do festival, conterrâneo santista Rubens Ewald Filho, é a maior plateia desde que foi convidado há cinco anos, junto do falecido ator José Wilker, para fazer a curadoria do festival. A recuperação do prestígio do festival após a chegada de Rubens e Marcos Santuário é inquestionável e Gramado voltou a ter a relevância merecida no cenário nacional.

Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.
Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.

Junto a Sonia, estavam o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho e o elenco do filme. Simpáticos e empolgados com a repercussão que “Aquarius” tem alcançado desde sua estreia em Cannes, posaram para fotos, conversaram com fãs. Dentro do Palácio dos Festivais, já após as 20h, Sonia recebeu o Troféu Oscarito das mãos do diretor Bruno Barreto, com quem trabalhou em duas produções: “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), e “Gabriela, Cravo e Canela” (1982). Bruno brincou com Kleber. “Eu tento convidá-la para fazer um terceiro filme comigo há tempos. Tenho inveja de você”, disse.

Kleber e o elenco subiram ao palco. Algumas espectadores embalaram um “Fora Temer!”. Esperava um manifesto maior tendo em vista a repercussão da classificação indicativa que o filme recebeu do Ministério da Justiça: 18 anos. O que, para parte da mídia, é uma retaliação ao protesto que Kleber, Sonia e companhia fizeram no Festival de Cannes contra o processo de impeachment sofrido por Dilma Rousseff. Kleber discursou de forma moderada e falou que sua obra é sobre o amor. Sobre buscarmos o que achamos certo. Referência à jornada da personagem Clara, última moradora de um antigo edifício de Recife e que é pressionada e ameaçada por uma construtora a vender seu apartamento. Os demais já foram comprados. Momentos rápidos, belos e merecidos. Que celebram a maior estrela do cinema brasileiro, nossa Marilyn Monroe, única atriz brasileira que, pela simples presença, levou multidões aos cinemas do país.

Antes do filme, no mezanino, enquanto os gritos de “Fora Temer” eram entoados, alguém pediu para que se falasse mais sobre cinema e menos sobre política. O que não deu muito certo e empolgou ainda mais os manifestantes.

Os mestres de cerimônia da noite anunciaram a sessão de “Aquarius” como a primeira no Brasil. Rapidamente corrigiram o erro, pois o filme foi exibido em Recife e Niterói. O longa foi mostrado e premiado na Austrália e na Polônia, entre outros países. E foi ovacionado em Gramado. Praticamente todo o público o aplaudiu em pé. Raras pessoas saíram durante o filme criticando as cenas de sexo. Sério? Em pleno 2016 deixar-se incomodar por algo retratado de forma natural numa história que tem muito mais a dizer soa de uma caretice tamanha. A mesma que levou o Ministério da Justiça a dar a classificação indicativa de 18 anos. Muitas novelas e filmes cheios de violência, física e psicológica, ganham classificações mais baixas.

Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.
Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.

Durante a exibição do filme, deu para perceber um probleminha no som. Algo da acústica ou do sistema de projeção. E que foi repetido no dia seguinte, durante o curta “Black Out” e o lançamento da cinebiografia “Elis”, sobre a grande cantora Elis Regina. Nada que tenha apagado o brilho do festival. Mas algo a ser pensado pelos produtores.

Na manhã de sábado, 27, aconteceu a coletiva de imprensa com Sonia e o time de “Aquarius”. Novamente ensaiaram um “Fora Temer”. A sala ficou abarrotada e mal dava para fechar a porta. Vozes do lado de foram podiam ser ouvidas e houve alguma reclamação. Depois ficou tudo na paz.

Solícitos, todos à mesa responderam as perguntas, Sonia demonstrou humor. Ela e os colegas abordaram o protesto em Cannes e deram uma lição de simplicidade e humildade.

À noite, acompanhei o curta “Black Out”, sobre os quilombolas no interior de Pernambuco. Os diretores se manifestaram contra o governo de Temer e insuflaram algumas pessoas. Falaram do monopólio, criticando um dos apoiadores oficiais do evento. Instante que deve ter deixado constrangidos os responsáveis. O curioso é que fora anunciado o esgotamento dos ingressos para a noite, que ainda teria a avant-première nacional de “Elis”. Mas muitos lugares estavam disponíveis.

Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.
Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.

O elenco de “Elis” subiu ao palco do Palácio dos Festivais para uma rápida fala. O filme foi exibido e teve reação menos empolgada em relação ao dia anterior. A crítica será publicada em breve. Porém, é importantíssimo ressaltar que há uma qualidade nos dois filmes brasileiros que deram início ao Festival de Gramado. E que trazem, de diferentes maneiras, dois mitos da nossa cultura. Duas mulheres talentosas, fortes, importantíssimas, à frente de suas épocas. Sonia atuando. Elis interpretada magistralmente por Andreia Horta.

Não deu para ficar na homenagem a Tony Ramos. No entanto, nesses dois primeiros dias em Gramado, deu para sentir a vibração desta linda cidade.

E tem sido muito agradável dividir esses momentos ao lado de Paula, que me acompanha na cobertura, dos amigos santistas e cinéfilos Waldemar Lopes e Roberto Lobo, e do amigo crítico também santista Rubens Ewald Filho. Em uma das conversas, Rubens abordou a questão da humildade. Em “Elis” o tema também é discutido. Papo para outras ocasiões, mas que merece sempre ser lembrado.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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