Crítica | Aquarius

Sonia Braga em "Aquarius".
Sonia Braga em “Aquarius”.

A Era de Aquarius é a fase da fraternidade. É a canção que abre “Hair”. Em 1969, Sonia Braga estreava na montagem brasileira do musical. Aquarius é o nome do prédio que dá título ao filme estrelado pela atriz.

Ela interpreta Clara, jornalista, crítica musical,  última moradora do edifício. Todos os demais já venderam seus apartamentos para uma construtora. Que deseja derrubar o local e construir um novo. Clara mantém-se irredutível. Viveu sua vida ali. Criou seus filhos. Suas melhores lembranças vêm do lugar.

O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho volta a abordar o conflito desigual entre quem detém certo poder e possui muito no sentido material da coisa. E quem cuja maior riqueza  é a memória, a história, as relações humanas.

Em “O Som ao Redor” (2012), dois jovens buscavam vingança pela morte do pai e do tio, assassinados por um coronel que depois virou empresário de sucesso no ramo imobiliário.

AquariusAgora, denuncia a maneira avassaladora como empreiteiros e construtores tomam cidades a reboque visando “empreender”. O argumento é que vão gerar empregos, os donos dos antigos apartamentos receberão valores polpudos.

Alguns moradores defendem essa ideia. Compreensível ante as dificuldades do dia a dia. Mas Clara defende com unhas e dentes a visão de que devemos preservar o que temos de mais íntimo e importante: a maneira como construímos nossas vidas. E que os momentos bons e ruins são igualmente importantes para nosso crescimento individual e em sociedade.

Ao nos apresentar à protagonista e às situações retratadas na história, Kleber discute questões contemporâneas. Podemos falar dos interesses e vontades dos dois lados da trama. Do empoderamento feminino. Da trilha sonora pontuadas por canções que valorizam e trazem à tona grandes momentos da música popular brasileira. De pessoas que chegam a determinada idade e não se entregam: saem, se divertem, fazem sexo, amor. E de uma juventude que se revela extremamente conservadora, no papel muito bem defendido por Humberto Carrão.  No quesito cinematográfico, ainda podemos celebrar os movimentos de câmera, a fotografia e tudo que remete aos clássicos do cinema, de Stanley Kubrick à nouvelle vague, o neorrealismo italiano, Sergei Eisenstein e até ao cinema brasileiro dos anos 60, 70 e 80.

Porém, mais que tudo, presta homenagem a um mito dos filmes nacionais: Clara protege momentos que lhe foram tão relevantes ao recusar as propostas milionárias. Na vida real Kleber resguarda momentos que foram relevantes a quem ama cinema ao trazer de volta para o topo do audiovisual Sonia Braga.

Estrela de duas das maiores bilheterias brasileiras de todos os tempos, “Dona Flor e Seus Dois Maridos’ e “A Dama do Lotação”, a atriz andava distante de trabalhos feitos por aqui. Não que fosse culpa dela. Faltavam propostas. No Brasil há certa mania em esquecermos os ídolos, quem abre portas e leva o nome do país ao exterior. Em “Aquarius”, Kleber é Clara, Sonia é o edifício, e a trama é o cinema nacional, vítima tantas vezes de superproduções de fora que mal deixam espaço para pérolas como essa. Ou o próprio ser humano, que se deixa levar pelas tecnologias e esquece do essencial, a fraternidade. Quem sabe a Era de Aquarius mude isso.

Obs: Filme visto na abertura do 44º Festival de Gramado.


André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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