Crítica | X-Men: Apocalipse

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Quando foram criados por Stan Lee e Jack Kirby em 1963, os X-Men surgiram como metáfora das pessoas que não se sentiam aceitas pela sociedade. Eram tempos de lutas pelos direitos civis. Professor Xavier e Magneto representam respectivamente, nos quadrinhos, o que Martin Luther King e Malcoln X significavam na vida real. O primeiro buscava o entendimento entre negros e brancos de forma pacífica. O segundo entendia ser necessário o confronto.

Ao longo dos anos, as histórias dos mutantes da Marvel abordaram temas relevantes: racismo, antissemitismo, homofobia, puberdade, aceitação (pela sociedade ou dentro da própria família), conflitos de gerações, entre outros. Apesar de diversas conquistas durante as décadas, partes consideráveis do mundo continuam cheias de preconceito, discriminação e intolerância. Ou seja, os X-Men possuem assuntos para gerar histórias complexas até hoje. São superseres, mas com angústias e necessidades bem humanas. Ao mesmo tempo, suas figuras não são oriundas só da América: há europeus, africanos, asiáticos, latinos. Daí a nossa identificação com eles.

Em 2000, com um orçamento apertado e em época que os super-heróis não eram bem quistos no cinema, muito em parte aos dois longas do Batman dirigidos por Joel Schumacher, Bryan Singer deu vida ao primeiro longa dos Mutantes. Sem trajes coloridos, sem manter-se fiel às origens de alguns personagens nas HQs. Mas mantendo a sua essência. Sucesso de público e bilheteria, “X-Men: O Filme” abriu caminho para a retomada dos heróis nas telonas. E deu início à franquia que completa 16 anos e nove filmes em 2016: três com a primeira geração de atores, três com a segunda – sendo que “Dias de um Futuro Esquecido” mescla intérpretes das duas fases -, dois solos de Wolverine e “Deadpool”.

x-men2Nesse ínterim, muita coisa mudou na indústria. Os efeitos visuais evoluíram, Christopher Nolan com sua trilogia do Batman e o Marvel Studios com seu niverso compartilhado definiram padrões de excelência para filmes baseados em gibis. Enquanto o primeiro, inspirado em parte nos primeiros filmes dos mutantes, buscou aproximar o homem-morcego de uma possível realidade, o estúdio da Marvel mostrou que o público estava preparado para encarar um universo mais colorido como ocorre nas páginas dos quadrinhos. E “X-Men: Apocalipse”, dirigido pelo próprio Singer, é o longa da franquia que mais se permite ser “super-heroico”. O debate recorrente sobre aceitação está lá. No entanto, não faltam uniformes repletos de cores, mais humor, efeitos visuais mirabolantes e um vilão megalomaníaco.

A trama se passa dez anos após os acontecimentos de “Dias de um Futuro Esquecido” (2014). Mística (Jennifer Lawrence), que salvou o mundo naquela ocasião, é admirada pelos mais jovens de sua espécie. E continua a busca por mutantes ao redor do globo. No Cairo, Apocalipse (Oscar Isaac), considerado o primeiro e mais poderoso mutante da Terra, ressuscita depois de milênios adormecido e encontra um mundo diferente: com os humanos à frente. Decide reconquistar seu lugar de divindade no planeta. Para tanto, convoca Magneto (Michael Fassbender), cujo drama pessoal é intensificado, Psylocke (Olivia Munn), Anjo (Ben Hardy) e Tempestade (Alexandra Shipp). Do outro lado, jovens mutantes chegam à Escola Para Jovens Superdotados do Professor Xavier (James McAvoy). Quando o vilão sequestra o líder dos X-Men, o grupo – que inclui os recém-chegados Ciclope (Tye Sheridan), Jean Grey (Sophie Turner), Noturno (Kodi Smit-McPhee), os veteranos Fera (Nicholas Hoult), Mercúrio (Evan Peters) e a própria Mística, mais a agenda da CIA Moira Mactaggert (Rose Byrne) – precisa resgatar seu mentor e salvar a humanidade.

São vários personagens e, em alguns momentos, a trama parece pular aos solavancos. Nem todos têm sua chance. Psylocke e Anjo, por exemplo, praticamente entram e saem calados. Não há o desenvolvimento certeiro como em “Capitão América: Guerra Civil”, que reúne 12 heróis ao menos. Ainda assim torcemos e vibramos por vários deles. Especialmente Ciclope e Jean Grey, agora mostrados na adolescência e interpretados com energia por Sheridan e Turner (ela, egressa de “Game of Thrones”). Dessa vez, por sinal, os fãs não têm o que reclamar: Ciclope tem atitude, diferente da versão de James Marsden, que pouco tinha a fazer na primeira trilogia.

James McAvoy e Michael Fassbender, dois dos melhores atores de sua geração, voltam a encarnar com extrema competência Professor Xavier e Magneto. Este, por sinal, tem um dos arcos mais dramáticos de toda a série e momentos comoventes.

x-men4Já a Mística de Jennifer Lawrence vira a líder da equipe na ausência de Xavier. Mística é vilã nos quadrinhos e foi assim nos três primeiros longas (quando foi encarnada por Rebecca Romijn). Só que Lawrence ganhou o Oscar, virou a maior estrela do cinema norte-americano e os produtores não poderiam fazer dela a inimiga. Os mais aficionados torcem o nariz. Mas é Hollywood, baby. Tanto que Mística aparece em sua forma original (azul) menos tempo em que o rostinho bonito da atriz dá as caras. Ela só não domina o filme, ainda bem, justamente pela energia dos demais atores. Especialmente Evan Peters, cujo Mercúrio é um dos personagens mais divertidos dos últimos anos. Sabe aquela cena que todo o mundo adorou em “Dias de um Futuro Esquecido”? Pois bem: aqui ela surge maior e igualmente envolvente.

Oscar Isaac, que vem em ascensão na carreira com papeis de destaque em “Ex Machina”, “O Ano Mais Violento” e “Star Wars: O Despertar da Força”, entrega um Apocalipse caricato, exagerado. Aí está uma grande diferença entre esse e os vilões dos filmes anteriores da franquia. Antes, os mutantes encaravam figuras que estão em nosso cotidiano: senadores ambiciosos, políticos intolerantes, cientistas sem ética, pessoas que temem o que não entendem. Apocalipse possui um pouco de cada uma dessas características, é o mal pelo mal, quer impor sua “superioridade” tal qual Adolf Hitler tentou. Só que soa mais fanfarrão. Tipo vilão de desenho animado.

Desta forma, o filme ganha contornos de cartum. A essência dos mutantes está lá. Magneto perde a família. Os X-Men adolescentes não se encaixam na turma. Mercúrio quer encontrar o pai. Mortes acontecem durante a jornada. Mas ao conceber um inimigo caricato e aproveitar a ambientação nos anos 80 (e tudo o que aquela década teve de bom e ruim no quesito figurino e penteado), o novo “X-Men” abraça seu lado gibi sem medo de ser feliz. Basta conferir as cenas espetaculares de ação, que só não são 100% por que o uso exagerado de computação gráfica salta aos olhos e parece estarmos diante, por alguns instantes, de um videogame.

x-men6Há outros momentos que fogem à lógica. Mas lógica é algo que não dá para esperar muito da Fox, principalmente na continuidade – tão polêmica e debatida na internet – da franquia. Em “X-Men: Primeira Classe (2011)” a possibilidade do Professor Xavier ficar careca foi levemente comentada em virtude do uso do capacete do Cérebro (o supercomputador utilizado para que ele encontro mutantes pelo mundo). Fato completamente esquecido ou ignorado aqui, já que ele perde os cabelos de outra maneira.

Particularmente, adoraria ver mais de interação entre os adolescentes. Foi divulgada uma foto que mostrava Jean e Ciclope fazendo compras em uma loja de discos no shopping. O disco, em questão, possui referência à personagem Cristal dos quadrinhos. Coisa de fã e leitor de gibis. A cena, porém, não entrou no filme e o passeio deles se resume à saída do cinema, em uma sessão de “Star Wars: O Retorno de Jedi”, quando Jean brinca que o “terceiro filme é sempre o pior”. A brincadeira seria com “X-Men: O Confronto Final”, de 2006, que encerrou a primeira trilogia dos heróis no cinema e não teve direção de Singer (que foi meter os pés pelas mãos em “Superman, O Retorno”, do mesmo ano). Para alguns, é o pior filme da trilogia. Não acho. Colegas, no entanto, aproveitaram para desancar esta mais recente produção, citando-a como a mais fraca da nova trilogia. Bobagem. “X-Men: Apocalipse” não é contundente como os melhores filmes da série. Mas personagens como os X-Men sempre são interessantes.

Observação: Não é a primeira vez que Bryan Singer divulga uma cena que deixa os fãs sedentos por vê-la no filme e depois a tira no corte final. Em “Superman, o Retorno” ele gastou US$ 10 milhões com a sequência em que o herói está no espaço em busca do que poderia ter restado de seu planeta-natal, Krypton. Megaproduzida, ela apareceu apenas nos extras do DVD duplo. Um prejuízo e tanto para a Warner. Em “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido”, o cineasta cortou toda a participação de Vampira (Anna Paquin), personagem que depois seria recolocada na versão especial em Blu-ray. Agora eis a cena dos X-Men adolescentes na loja que é retirada com a desculpa de que o filme estava longo demais (realmente, tem duas horas e meia de duração. Por que não cortaram um pouco da ação?)… Os fãs reclamam. O estúdio gasta. Ou o diretor não se prepara adequadamente, ou é um marqueteiro de marca maior. Os produtores precisam ficar de olho.

Observação 2: Há uma cena pós-créditos que só os fãs entenderão e que se refere a um famoso vilão dos quadrinhos.



 

X-MEN: APOCALIPSE (X-Men: Apocalypse).
EUA. 2016.
Direção: Bryan Singer.
Com James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Oscar Isaac, Evan Peters, Sophie Turner, Nicholas Hoult, Rose Byrne, Josh Helman, Tye Sheridan, Kodi Smit-McPhee, Alexandre Shipp.
144 minutos.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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