Quadrinista brasileiro prepara versão para o cinema de sua própria HQ

Emílio HQ Anarquia - foto de Alice Baraçal

A relação entre cinema e histórias em quadrinhos e vice-versa por vezes pode ser bem íntima e ter o mesmo profissional envolvido em ambas as pontas: Frank Miller, por exemplo, codirigiu a versão cinematográfica de sua própria obra, “Sin City”. Outros profissionais transitam leves e soltos entre as áreas: David S. Goyer, roteirista de HQs e cinema (segmento em que também se aventura pela direção e produção vez ou outra). E, claro, Kevin Smith, desenvolto na sétima e nona artes.

Em Santos, um roteirista de quadrinhos segue o mesmo caminho de seus colegas norte-americanos: Emílio Baraçal é autor de “Anarquia: Vol. 1: Três Lados Para Cada História”, HQ lançada na Comic-Con Experience de São Paulo no fim de 2015 e, em Santos, em março deste ano.

Com 112 páginas, a trama acompanha a personagem-título, cuja identidade civil é Adriana, e como ela descobre ser fruto de um experimento do governo brasileiro guiada pelas palavras de Caolho. A jornada da personagem percorre pontos conhecidos de Santos, a exemplos da Santa Casa e a Vila Belmiro. Há uma relação pupilo-mestre que remete a filmes que marcaram época. Perguntado se há influência de “Matrix” e “V de Vingança”, Baraçal inclina-se para a franquia dos irmãos Wachowski. “A semelhança com ‘V de Vingança’ é apenas o fato dos personagens principais serem vigilantes mascarados. Mas para aí. Nunca sabemos a identidade de “V”. A de Anarquia, sabemos. Os métodos são diferentes. As razões,diferentes. O V era um cara vingativo que sob a fachada de um anarquista buscou a vingança contra aqueles que o trataram como cobaia em Larkhill. Conseguindo a vingança, acabou pra ele. A Adriana quer mesmo mudar a mentalidade do povo, da sociedade. No caso de ‘Matrix’, o espectador é apresentado à história ao mesmo tempo que Neo, através de Morpheus mostrando o que está rolando, tudo que está por trás. É um caso semelhante a relação Adriana/Caolho”, explica o autor.

Segundo Emílio, “a internet, nossa maior ferramenta de emancipação, em mãos erradas, está se transformando no mais perigoso facilitador do totalitarismo já visto. É contra a vigilância em massa e a corrupção que Anarquia luta. É uma série policial com inspirações em tramas de espionagem, como a trilogia para o cinema do personagem Jason Bourne, vivido por Matt Damon e o filme ‘Inimigo do Estado’, com Will Smith e Gene Hackman”.

A história em quadrinhos transmite esse clima de conspiração, de suspense, é um thriller digno e um material que tem tudo para ser transformado em um bom filme. Por sinal, será um filme diferente do que se costuma ser produzido no cinema nacional. Poucos são os thrillers de ação. Tal qual ocorre nos quadrinhos. A missão de “Anarquia”, a HQ, foi provar ser possível a concepção de um gibi de super-herói brasileiro, sem forçar a barra, abordando uma realidade nossa. Trazendo sim, temas mostrados em quadrinhos e filmes estrangeiros, mas de um jeito brasileiro.

Baraçal já trabalha no roteiro da versão cinematográfica e cedeu alguns trechos do script ao site, com exclusividade. “Faltam 40 páginas para terminar a primeira versão. Terminando, passa-se para o estágio da reescrita. Analisar o roteiro de cabo a rabo, ver o que ficou bom, o que não ficou e reescrever o que não ficou bom e também criar cenas novas que possam, por exemplo, juntar duas cenas, melhorando o espaço da história. Ainda não sei quantas versões serão necessárias, mas a primeira versão já dará uma ideia do orçamento previsto. Um produtor vai analisar a primeira versão e fazer um levantamento”, detalha.

CapaE se alguém espera que o filme não tenha mudanças em relação à obra original, ledo engano. Apesar desse tipo de alteração tirar fãs e até quadrinistas do sério, o santista explica o por que serão necessários alguns ajustes. “Por questões de espaço, logística e orçamento, a HQ sofreu cortes. Originalmente, a história teria oito capítulos, mas acabou tendo quatro capítulos, então muita coisa ficou de fora. E boa parte das coisas que ficaram de fora da HQ entrarão no filme. E haverá partes novas que não estavam no planejamento original da HQ”, ressalta.

A seguir, Baraçal responde mais algumas perguntas sobre o futuro do filme e a repercussão que “Anaquia Vol. 1” tem conseguido.

Quais os planos para o filme da HQ Anarquia?
Há uma produtora de Curitiba interessada, mas as conversas estão em um estágio muito inicial ainda, praticamente embrionário. Ou seja, pode ser que avancem, pode ser que não. Estou aberto a possibilidades. Há conversas com uma atriz também que acho perfeita em todos os aspectos para o papel principal, não poderia haver alguém melhor para a protagonista. Só não posso revelar nomes ainda.

No Brasil ainda são poucas as HQs transformadas em filmes? O que fazer para mudar esse panorama?
Acho que não difere tanto do lance de se fazer qualquer filme em si, dos problemas habituais de filmar algo no Brasil, que é o de dependermos tanto do governo ou de algum monopólio.  E alguns passos já têm sido dados, como a lei da porcentagem de tempo de tela nas emissoras atuantes no país no que se refere a material nacional. Veja o caso da animação brasileira: deu um salto de qualidade e de quantidade monstruosos. A lei, que exige uma quantidade mínima de produção nacional na grade das emissoras e uma parte delas em horário nobre, tem feito diferença. As produtoras estão correndo para produzir material nacional a fim de não tomarem multa. Claro que isso tem sido focado na TV, mas muitas delas estão aproveitando a deixa para produzirem filmes, já pensando não só nas negociações com as emissoras, mas em arrecadar em bilheterias e merchandising.  Acredito que no caso especificamente das HQs, os autores precisam começar a pensar além de apenas vendê-las em eventos de cultura pop/nerd e sim em expandir os horizontes. Se aproximar das produtoras, dar as caras, vender a ideia. Juntar-se a roteiristas audiovisuais e conversar. Há muita gente nas produtoras também que perde tempo, pois boa parte deles também é fã de quadrinhos. No final das contas, falta conversa. A lei está aí e nenhum dos dois lados está aproveitando.

Como tem sido a divulgação da Anarquia?
Baseado em como estamos divulgando atualmente a resposta tem sido muito boa. Nossa ideia é expandir nossa estratégia de divulgação aos poucos e, conforme está crescendo, não só o público está correspondendo como também oportunidades de negócios estão aparecendo. Estou feliz com o progresso, mas ainda falta muito a conquistar, a atingir.

Como surgiu a inspiração para a obra?
Eu sempre fiquei muito indignado com a postura do brasileiro diante de tanta corrupção. Em como podemos ser roubados em milhões diariamente, atingindo a casa dos bilhões anualmente e, simplesmente, ir para a roda de samba ou para o churrasquinho no final de semana como se nada estivesse acontecendo. Então acabei criando a série em 1996 partindo desse sentimento, embora eu só conseguisse, por uma série de motivos, publicar de fato a HQ em 2014. Achei que o povo iria realmente acordar com os protestos em 2013, mas isso não ocorreu. Na verdade, as autoridades e os poderosos conseguiram enxergar uma oportunidade de dividir o país, tentando puxar o maior número de gente para o seu lado. Assim eles mantém o poder: o clássico dividir e conquistar. Então, mesmo com essa nova consciência política nacional, esse novo cenário, o mote da HQ ainda é bastante forte. Mais forte, aliás, eu creio. A internet, que seria a nossa maior ferramenta de emancipação está se tornando, na mão de quem está no topo da pirâmide, a maior ferramenta de totalitarismo jamais vista. Ao troco de redes sociais, arquivos de música e alguns “mimos” que afagam o ego e dão prazer às pessoas, elas estão de forma absurdamente constante, dando aos poderosos todas as informações de que eles precisam para controlar todo mundo. A internet está se tornando o panóptico perfeito.


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Em Santos, “Anarquia Vol. 1: Três Lados Para Cada História” pode ser encontrada na loja Cult Comics (Av. Ana Costa, 443, Gonzaga). Os desenhos são divididos entre Eduardo Vienna, Geanes Holland, Hélio Oliveira, Celso Ricardo, Éder Messias e Leo Rodrigues, com arte-final de Denis DYM Freitas, Carlos Eduardo Ferreira, Eduardo Vienna, Hélio Oliveira, Mano Araújo e Osvaldo Ferreira, cores de Salvatore Aiala, Thiago Ribeiro, Débora Caritá,Osvaldo Ferreira, Tiago Mariano e Beto Menezes, e por fim, balões e letras de Gustavo Pinheiro e Deyvison Manes. A capa é do aclamado Danilo Beyruth.
Em breve, “Anarquia Vol.  2 – A Casa dos Horrores” será disponibilizada em formato digital, começando pela revista Anarquia #05. Esse novo arco contará a história de como a protagonista irá desbaratar uma aliança entre traficantes, uma milícia, juízes e promotores os quais usam um casarão abandonado como laboratório de drogas, que já foi um hospital psiquiátrico e hoje famílias carentes totalmente inocentes moram lá.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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