Sonia Braga: o retorno do mito e a admiração de um fã

Acervo de Waldemar Lopes.
Acervo de Waldemar Lopes.

Ok, o título para quem acompanha de perto a trajetória da atriz brasileira soará forçado. Afinal, Sonia Braga não parou de trabalhar. Não há um “retorno” propriamente dito. Recentemente esteve em produções como o drama “The Wine of Summer”, com Marcia Gay Harden, e o telefilme “Mamãe Casamenteira”, exibido pela Hallmark Movie Channel. Ambos são de 2013.

Mas para o grande público, Sonia voltou a estampar as manchetes do país este ano por dois bons motivos:

1 – Entrou para o time da Marvel, mais especialmente a série “Luke Cage”, que será exibida no serviço de streaming Netflix em 30 de setembro. Nela, interpretará Soledad, mãe da enfermeira Claire Temple (Rosario Dawson, que já apareceu em “Jessica Jones” e nas duas temporadas de “Demolidor”).

2 – Encabeça o elenco de “Aquarius”, segundo longa-metragem do brasileiro Kleber Mendonça Filho, que obteve reconhecimento internacional por “O Som ao Redor” (2012). É o retorno da atriz ao cinema brasileiro, do qual continua a maior estrela. E seu retorno a Cannes, mais importante festival de cinema do mundo que tem início nesta quarta-feira (11).

Sonia em "Aquarius".
Sonia em “Aquarius”.

Natural de Maringá, Sonia completará 66 anos em 8 de junho. É o mais próximo que tivemos de uma Marilyn Monroe no Brasil: sua simples presença entre os anos 70 e 80 era o bastante para transformar filmes e novelas em sucessos avassaladores de público. Nas telinhas, brilhou em “Gabriela” (1975) e “Dancin’ Days” (1978). Na telona, “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976) e “A Dama do Lotação” (1978) foram as duas maiores bilheterias do cinema nacional até 2010, quando estreou “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro”. E seguem no top 5, respectivamente em terceiro e quarto lugares, atrás de “Os Dez Mandamentos” (2016) e do longa de José Padilha.

Se Marilyn seduzia multidões ao mesclar certa fragilidade, jeito de menina indefesa que precisa de proteção, com um sex appeal ímpar e um corpo voluptuoso, Sonia por aqui encantava pelo jeito meio moleca, simples, junto a uma sensualidade rara no entretenimento brasileiro. Tudo aliado à versatilidade enquanto intérprete. Algo perceptível desde que atuou na versão do musical “Hair” em 1969, aos 18 anos, quando ficou nua no palco. E que chamou a atenção dos produtores estrangeiros: pioneira, teve carreira sólida no exterior muito antes de Wagner Moura, Rodrigo Santoro e a sobrinha Alice Braga.

Primeiro fã

Obra de Waldemar Lopes.
Obra de Waldemar Lopes.

Esse sucesso visceral, que nunca mais se repetiu com qualquer outra artista de cinema ou televisão no Brasil, obviamente gerou fãs incondicionais da atriz. Um dos mais devotados, quiçá o maior, é o santista Waldemar Lopes, que já chegou a reencenar uma cena com ela, em público. “Eu a conheci pessoalmente na pré-estreia de ‘Tieta do Agreste’, num mega evento na Avenida Paulista, em São Paulo. Sou artista, e levei um dos retratos que fiz dela nessa produção. Quando a vi, chamei-a ‘Soninha!’. Ela largou os jornalistas por um tempo e se aproximou de mim,  dizendo ‘Que lindo!’ Para provar a ela que era seu primeiro fã, pedi para interpretarmos uma cena de ‘A Moreninha’. Demos um showzinho no tapete vermelho da première, e as pessoas adoraram a improvisação. Que noite inesquecível”, empolga-se.

O cinéfilo, engenheiro, artista plástico e professor de inglês é bastante conhecido em sua cidade-natal. Anualmente realiza a Palestra do Oscar. Já foram 22 edições do evento beneficente. “Minha admiração por Sonia começou no cinema, antes de virar super estrela em ‘Gabriela’. Ainda menino fiquei apaixonado por ela em ‘A Moreninha’. Linda e muito talentosa, Sonia me fisgou completamente para a vida inteira. Assisti a todos os seus filmes várias vezes, inclusive alguns menos conhecidos, como  ‘Mestiça, a Escrava Indomável’. Acredito que sou seu primeiro fã”, ressalta Lopes, que possui um acervo com milhares de fotos e pôsteres da atriz, centenas de revistas e todos os filmes, entre outros itens. Uma coleção repleta de materiais raros ou únicos digna de exposição e que não faria feio perto de outros projetos que homenageiam artistas pelo Brasil. (Quem sabe em breve não organizamos essa mostra)

Ele continua. “Acredito que o povo brasileiro ama a Sonia e a prestigia sempre. Prova disso foi a recente exibição de seu mega clássico da teledramaturgia ‘Dancin’ Days’ no Viva e que se tornou o maior sucesso de audiência no canal. Também ela é a personificação perfeita da Gabriela de Jorge Amado, e está eternizada na memória afetiva dos brasileiros. Infelizmente, os cineastas e autores de novela praticamente não a convidaram para novos trabalhos. Lamentáveis são as falsas noticias de que ela teria pedido salários astronômicos ou feito exigências absurdas. Sonia é, antes de tudo, uma pessoa simples e super profissional. Qualquer equipe técnica acaba se apaixonando por ela, pela sua simplicidade, alegria e profissionalismo. Nada de ataques de diva; pelo contrário, sempre muito bom humor”, defende o cinéfilo.

Waldemar celebra o atual momento da musa. “Este ano é realmente promissor para a carreira de Sonia. O cineasta Kleber Mendonça Filho teve a felicidade e a inspiração de convidá-la para estrelar seu novo longa ‘Aquarius’, oferecendo-lhe um personagem maravilhoso: Clara viúva com três filhos, recuperada de um recente câncer, crítica de música com um gigantesco arquivo em seu apartamento no edifício Aquarius, e com o poder de viajar no tempo. A respeitada revista ‘Cahiers do Cinéma’ colocou o filme na sua lista dos mais aguardados, e destaca a presença de Sonia, ‘de Dona Flor’. Não bastasse esse resgate fabuloso para nosso cinema, a Marvel anunciou a contratação de Sonia para essa nova série da Netflix, ‘Luke Cage’, declarando que ela proporcionará a interpretação premiada, perfeita, que eles procuravam. Em sites como o da ‘Variety’ e do ‘Hollywood Reporter’, os artigos se referem à Sonia como ‘Brazilian legend’. Eu falo que para mim não foi uma surpresa a Marvel contratá-la, porque Sonia Braga é ‘MARVELous’!”.

Blog Espaço de CinemaLopes traça um panorama da carreira bem sucedida da estrela, que mantém feitos até hoje inigualáveis para uma artista do Brasil. “São tantas as grandes interpretações de Sonia no cinema, que é uma missão quase impossível destacar uma só. Que grande atriz ela é, e que filmografia espetacular! Se analisarmos suas fases, temos interpretações extraordinárias, inesquecíveis, começando pelas heroínas da literatura brasileira: ‘A Moreninha’, ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’, ‘Gabriela’, Tieta do Agreste’, ‘A Dama do Lotação’. Outro ponto alto é ‘Eu te Amo’, em que foi aclamada em Cannes e pelo crítico Jack Kroll da ‘Newsweek’. No começo da carreira internacional, sua brilhante atuação em ‘O Beijo da Mulher Aranha’ lhe rendeu convite para ser membro da Academia de Hollywood. Outros grandes momentos são o lírico ‘Rebelião em Milagro’, de Robert Redford, e ‘Luar Sobre Parador’, onde dá um show ao lado de Richard Dreyfuss. Como é difícil escolher uma, mas o talento e beleza de Sonia como Dona Flor tornaram esta interpretação perfeita, icônica. Na cerimônia do Oscar que celebrou 100 anos de cinema, Sonia foi uma das escolhidas para o clipe. Um marco na história do cinema nacional, reconhecido internacionalmente, pois Sonia foi indicada ao BAFTA – o Oscar do Reino Unido, e é até hoje a única atriz brasileira indicada ao prêmio”.

E não para: “No exterior, tornou-se a primeira atriz brasileira apresentadora do Oscar (e até hoje a única) e indicada ao Globo de Ouro, por ‘O Beijo da Mulher Aranha’. Depois recebeu mais duas indicações, por ‘Luar Sobre Parador’ e ‘Amazonas em Chamas’. Este último também lhe rendeu uma indicação ao Emmy primetime, uma façanha nunca igualada. Além da indicação ao BAFTA, Sonia foi premiada duas vezes no Festival de Gramado (‘Eu te Amo’ e ‘Memórias Póstumas’). Trabalhou com lendas do cinema, como Clint Eastwood, Nicolas Roeg e Robert Redford, com quem teve um longo e famoso romance. Por todas essas razões, Sonia Braga é mesmo a maior atriz, mito, musa e estrela maior do cinema brasileiro”, afirma.

Cannes
IMG-20160509-WA0032“Aquarius” é o retorno do Brasil à disputa pela Palma de Ouro em Cannes após oito anos. A última vez foi com “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniella Thomas. Em 2012, “Na Estrada”, dirigido por Salles e falado em inglês, também competiu.

O filme de Kleber Mendonça Filho é ainda o primeiro longa do cinema nacional selecionado no festival desde 2011, quando “Trabalhar Cansa” integrou a mostra Um Certo Olhar. A Palma de Ouro, principal prêmio do evento, foi entregue a um filme do país apenas para “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, em 1962.

Ainda por cima, “Aquarius” marca a volta de Sonia à competição do festival  31 anos após “O Beijo da Mulher Aranha”. No ano seguinte, ela foi jurada, contribuindo nos bastidores para que Fernanda Torres levasse o prêmio de melhor atriz por “Eu sei que Vou te Amar”.

O amigo crítico e também santista Rubens Ewald Filho reforça a relevância de Sonia para o cinema nacional. “Foi a maior estrela de sua época. O maior símbolo sexual. Foi também uma das poucas, se não a única atriz brasileira, a fazer carreira no cinema norte-americano, tendo uma boa participação em filmes e séries de TV durante um longo período, cerca já de trintas anos. Só há pouco sua sobrinha seguiu seu caminho…”, comenta.

Fica a torcida para que “Aquarius” faça bonito no festival francês, Sonia consiga o prêmio de melhor atriz (seria demais, não?) e que depois o filme chegue forte no circuito comercial por aqui. E, quem sabe, logo, não realizamos a exposição com o material que Waldemar tem da atriz.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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