Crítica | Capitão América: Guerra Civil

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Confesso. A sensação que tive ao sair da sessão de “Capitão América: Guerra Civil” era aquela que eu adoraria ter experimentado ao ver “Batman V. Superman: A Origem da Justiça” – sou fã do Homem de Aço e do Cavaleiro das Trevas. Comparações são inevitáveis neste momento. Os filmes, lançados com cerca de um mês de diferença entre um e outro, colocam heróis de lados opostos e têm vilões que manipulam e instigam o conflito.

Não que ache o longa da Warner tão desastroso como alguns colegas. Longe disso. Mas o mais recente filme do Marvel Studios desenvolve melhor e trata com mais carinho seus personagens. São 12 combatentes do crime em cena. Cada um deles tem seu momento. Seja para fazer o espectador refletir, se empolgar, se emocionar ou dar risadas.

Cada situação faz sentido e contribui para o desenvolvimento da trama que vai num crescendo proporcionando uma das melhores cenas de ação já feitas. É também o melhor filme do estúdio, um dos melhores de super-heróis da história.  Ainda por cima cumpre seus objetivos: de continuar a história de Steve Rogers, especialmente os acontecimentos de “Capitão América: Soldado Invernal” (2014), se encaixar dentro do universo expandido iniciado em “Homem de Ferro” (2008) e que rendeu 12 filmes até então e enquanto história isolada capaz de entreter não iniciados.

O filme é baseado, em parte, na história em quadrinhos “Guerra Civil”, escrita por Mark Millar e publicada entre 2006 e 2007. Nela, o grupo Novos Guerreiros enfrenta inimigos ao vivo em seu reality show. É quando centenas de inocentes morrem em virtude da batalha. O governo dos EUA decide instituir uma Lei de Registro de super-heróis, que teriam que revelar suas identidades civis às autoridades e atuar sob vigilância. Parte, comandada pelo Homem de Ferro, adere à nova norma. A outra, em que está o Capitão América, se recusa. O enfrentamento é inevitável.

A saga envolveu todos os heróis da editora, inclusive X-Men e Quarteto Fantástico. Seria impossível adaptá-la em sua totalidade para as telonas. Por exemplo: esses dois supergrupos estão na Fox, estúdio concorrente. Os irmãos diretores Anthony e Joe Russo, junto dos roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely, transformaram uma história que nos quadrinhos tem escala grandiosa em uma jornada mais intimista. Há vários personagens. Não tantos como na HQ. Muitos para um filme de duas horas e meia de duração. Em nenhum momento tal quantidade soa exagerada.

civilwar2Os Vingadores estão em missão na África. Ainda que evitem um atentado de proporções catastróficas, civis morrem. O secretário de estado Thaddeus E. “Thunderbolt” Ross (William Hurt retomando seu papel de “O Incrível Hulk”, 2008) informa que 117 países assinarão um tratado que limita as atividades da equipe. Tony Stark, o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) entende que essa restrição é necessária para que tragédias sejam evitadas. Steve Rogers, o Capitão América (Chris Evans), acredita na individualidade do ser humano e enxerga no tratado uma forma de manipulação. Enquanto isso, outra situação envolvendo o Soldado Invernal/Bucky Barnes (Sebastian Stan) contribui para a divisão dos Vingadores.

As motivações de todos são compreensíveis. Difícil tomar partido. Ainda que a campanha de marketing da produção tenha pedido aos espectadores para escolher um lado. Até a causa do vilão Zemo (o excelente Daniel Brühl, de “Bastardos Inglórios”) é passível de certa solidariedade. Não se trata de alguém megalomaníaco que deseja dizimar a humanidade.

Assistir à “Capitão América: Guerra Civil” é como acompanhar uma briga de família: são sujeitos que, no momento, possuem posturas e pensamentos contrários. Porém não querem machucar uns aos outros e, quando machucam, sentem remorso. Sentimento transmitido por atores em ótimas atuações. Até Robert Downey Jr. confere uma dramaticidade inédita a Tony Stark.

Os irmãos Russo haviam feito o filme mais denso e dosado do Marvel Studios em “Soldado Invernal” e aqui dão um passo adiante, mostrando que estão entre os cineastas mais capacitados de Hollywood para megaproduções que não pretendem levar somente sopapos, correria e explosões ao público. Blockbusters também podem ter conteúdo. Sabem como trabalhar diversos personagens dentro de um contexto e, por isso, são os escolhidos para comandar “Vingadores: Guerra Infinita”, que será dividido em dois filmes – previstos para 2018 e 2919 – e deverá reunir dezenas de heróis. Se levam a sério, sim, mas não abrem mão da leveza e do humor, ao contrário da concorrente Warner que, graças a Zack Snyder, pesa a mão na tensão de seus super-heróis.

civilwar3O humor aqui é pontuado principalmente pelo carismático Homem-Formiga de Paul Rudd (em pequena participação, no entanto responsável provavelmente pelo fan serve mais bacana da história) e, claro, o jovial Homem-Aranha de Tom Holland, cujo caráter é definido em poucos minutos numa lição de como apresentar um personagem. Já há quem o considere a melhor encarnação do “cabeça de teia” nos cinemas. Prefiro esperar o filme solo.

Outro fator é ser considerado e debatido é como o Marvel Studios tem procurado investir na diversidade: poucas vezes um filme de tamanho porte teve tantas mulheres e negros entre os protagonistas. Há a Viúva Negra (Scarlett Johansson, que em determinadas cenas ação dá para percebermos que é substituída por dublê), Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), Sharon Carter (Emily Van Camp), enfrentando os homens de igual para igual, Máquina de Combate (Don Cheadle), Falcão (Anthony Mackie) e Pantera Negra (Chadwick Boseman), que ganhará o próprio longa em breve. Passos dados no ano em que o Oscar gerou discussões sobre a falta de representatividade em Hollywood.

Por tudo isso e mais um pouco, “Guerra Civil” pode ser considerado um dos melhores filmes de super-heróis já produzidos. Não sei se é o melhor. Acredito que esse posto ainda fique entre o “Superman” (1978) de Richard Donner e “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2008), de Christopher Nolan. O primeiro definiu o tom e fez o espectador levar a sério os superseres nas telonas. O segundo transcendeu as adaptações de quadrinhos para o cinema. No entanto, os irmãos Russo apontam um caminho especial para esse tipo de produção. E, acima de tudo, deixam essa sensação imensurável de empolgação ao término da projeção. Aquela citada no início do texto e que senti raras vezes. Talvez por que Anthony e Joe Russo realmente gostem dos personagens que têm em mãos, procurem realizar o melhor filme possível sem se esquecer de que estão concebendo entretenimento para as massas e saibam que tentar agradar os fãs em determinados momentos nunca é demais. Coisa que Zack Snyder parece não se preocupar tanto. Por isso o Marvel Studios, ainda que não produza obras-primas, siga dando um banho na concorrência ao desenvolver seu universo expandido no cinema.



CAPITÃO AMÉRICA: GUERRA CIVIL (Captain America: Civil War).
EUA. 2016.
Direção: Anthony e Joe Russo.
Com Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Martin Freeman, Daniel Brühl, Anthony Mackie, Emily Van Camp, Tom Holland, Paul Bettany, Elizabeth Olsen.
147 minutos.


 

 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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