Batman, o Homem-Morcego | Primeiro longa do herói completa 50 anos

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Enquanto “Batman V. Superman: A Origem da Justiça” polariza opiniões da mesma forma que ocorre com a situação política do país, e bate recordes de bilheteria, uma versão do Cavaleiro das Trevas que marcou gerações completa 50 anos.

“Batman, o Homem-Morcego” foi o primeiro longa-metragem do personagem exibido nos cinemas. Feito a partir da icônica série televisiva. Escrevi sobre o tema no meu livro “Histórias: Batman e Superman no Cinema”, lançado recentemente, e replico aqui o texto – adaptado – para relembrar essa produção que colocou a dupla dinâmica frente a frente com quatro algozes.

Quase duas décadas se passariam dos seriados exibidos nas matinês dos cinemas nos EUA, durante os anos 40, até que os fãs pudessem ver uma nova encarnação de Batman no cinema. A televisão surgiu como alternativa confortável de entretenimento e os seriados pararam de ser produzidos para as telonas. Coube à 20th Century Fox pelas mãos do experiente produtor William Dozier (“Besouro Verde”) a tarefa de criar a série que marcaria toda uma geração de fãs com a primeira aparição live action, em cores, de Batman, Robin e diversos personagens dos quadrinhos.

Eram outros tempos. Atores que interpretavam super-heróis não ganhavam salários milionários. O que possibilitava que pudessem viver esses personagens tanto na TV ou no cinema. Já tinham sido produzidos 34 episódios de sucesso para a televisão, quando os produtores decidiram realizar um longa-metragem para o cinema com o intuito de divulgar o programa televisivo no exterior.

Rodado durante seis semanas em Santa Bárbara, e com mais dinheiro do que os episódios da TV, o filme levou ao público novos “brinquedos” do Batman como a Bat-Moto (com o carrinho-acessório ao lado, onde ia Robin), a Bat-Lancha e o Bat-Helicóptero. Seu lançamento ocorreu em 30 de julho de 1966, em Austin, no Texas.

batman1966 1O roteirista Lorenzo Semple Jr. manteve o espírito absurdo da série e Batman e Robin, nas versões imortalizadas por Adam West e Burt Ward, encaram de uma só vez, em 1 hora e 42 minutos de trama, seus principais inimigos: Coringa, Pinguim, Mulher-Gato e Charada. A direção foi de Leslie H. Martinson, que realizou diversos longas e havia dirigido dois episódios da série.

Comodoro Schmidlapp (Reginald Denny) está em perigo a bordo do seu iate. Batman e Robin partem para salvá-lo e, quando chegam ao local, percebem que se tratava de uma armadilha feita pelos seus quatro maiores arquirrivais.  Armados com o Desidratador, que transforma seres humanos em pó, Coringa, Pinguim, Mulher-Gato e Charada pretendem conquistar o mundo.

Memoráveis, para o bem e para o mal, são as presenças da bela modelo Lee Meriwether, na pele da personagem felina, substituindo Julie Newmar (que estava rodando o faroeste “O Ouro de Mackenna” e não pôde atuar no longa), a cena que mostra Robin tirando do armário o “bat spray antitubarão” e Batman correndo na marina com uma bomba em mãos tentando levá-la para longe das pessoas e se deparando pelo caminho com patos, uma banda e casais apaixonados – essa sequência seria homenageada em “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (2012), quando o protagonista precisa fugir de Gotham com uma bomba pendurada em sua aeronave.  Foi neste filme também que Batman apareceu subindo o Bat-cano da Bat-caverna – na televisão eles apenas desciam.

É importante contextualizar o momento em que o filme e a série foram rodados: os anos sessenta, onde as cores saltavam aos olhos no movimento hippie e no rock psicodélico. Mesmo as histórias em quadrinhos publicadas pela DC nesse período traziam tramas exageradas, com os heróis indo ao espaço e dimensões paralelas. Muitos jornalistas utilizariam o termo “camp” para se referir a essa fase do personagem. Mas a verdade é que milhões de pessoas tiveram o primeiro contato com o vigilante nesta versão.

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Os vilões eram interpretados por atores consagrados. Cesar Romero (1907-1994) deu vida a um Coringa ensandecido, pirado, exagerado como a época pedia. Não era problema se o bigode coberto de maquiagem ficava perceptível. O ator não queria se desfazer daquilo que, segundo ele, tinha lhe proporcionado tantos trabalhos. Burgess Meredith (1907-1997), o Pinguim, ficaria famoso como o treinador de Rocky Balboa no cinema, Mickey. Frank Gorshin (1933-2005), com seu porte atlético e olhos de lince davam ao Charada o ar necessário para alguém enlouquecido. Todos carismáticos e, para muitos, as versões definitivas desses vilões.

O programa de tevê e o longa-metragem deram vida à primeira “Batmania”: brinquedos, materiais escolares, itens para uso doméstico. Tudo o que podemos imaginar foi comercializado naqueles anos. O curioso é que não se tratava de uma estratégia bem definida de marketing. Empresas dos mais variados ramos, mesmo sem propriedade sobre os personagens, produziam seus produtos. No entanto, esse “Batman” pode ser considerado um precursor de “Star Wars” que, aí sim, iniciaria a onda de filmes-eventos que chegam ao mercado acompanhados por uma série de produtos.

O filme foi lançado em DVD no Brasil acompanhado de extras bem legais com entrevistas de Adam West e Burt Ward. A série também chegou ao país num box repleto de extras para a alegria dos fãs.

A fórmula, no entanto, se desgastou e o seriado durou três temporadas. Por muito tempo Adam West ficaria sem conseguir papeis relevantes em Hollywood e os estúdios demorariam a arriscar uma nova encarnação do Cavaleiro das Trevas.

Em julho de 2014, ano dos 75 anos de Batman, Adam West, Burt Ward e Julie Newmar foram convidados para participar da San Diego Comic-Con, maior evento de cultura pop do mundo, e foram ovacionados pela plateia. Prova de que, mesmo quase cinquenta anos depois, aquele Batman ainda era lembrado com carinho e tinha relevância entre os fãs. Tanto que a editora DC Comics também passaria a publicar histórias em quadrinhos baseados neste clássico dos anos 60.



BATMAN, O HOMEM MORCEGO
EUA. 1966.
Direção: Leslie H. Martinson.
Com Adam West, Burt Ward, Lee Meriwether, Cesar Romero, Burgess Meredith, Frank Gorshin, Alan Napier, Neil Hamilton.
105 minutos.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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