Crítica | Batman V. Superman: A Origem da Justiça

 

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Superman e Batman são figuras emblemáticas da cultura pop. O primeiro, criado em 1938. O segundo, um ano depois. Ambos definiram e influenciaram tudo o que seria produzido nas histórias em quadrinhos de super-heróis. Das páginas para o cinema, mantiveram sua relevância.

Obviamente, a chance de vê-los juntos num filme gerou tremenda expectativa. Afinal, o concorrente Marvel Studios faz rios de dinheiro desde 2008 com personagens menos populares.

A pergunta que não queria calar: a Warner conseguiria acertar ao criar o universo cinematográfico povoado pelos personagens da editora DC Comics?  “Batman V. Superman: A Origem da Justiça” dá início à resposta. É um bom filme. Ainda que irregular, a trama não deixa de apresentar cenas empolgantes e capazes de levar os fãs mais exigentes à emoção. O espectador que não acompanha tanto os filmes baseados em quadrinhos ou sequer lê os gibis, pode ficar perdido com tantas informações. Mas se divertirá quando, finalmente, Batman, Mulher-Maravilha e Super-Homem atuam juntos.

Zack Snyder e os roteiristas Chris Terrio e David Goyer iniciam a história nos apresentando ao novo Batman interpretado por Ben Affleck: outra vez é encenada a morte dos pais de Bruce Wayne. Em seguida, o empresário presencia a destruição de Metrópolis de “O Homem de Aço” (2013), também dirigido pelo cineasta. Neste sentido, o filme sai-se bem ao pontuar as motivações de Bruce/Batman para questionar a legitimidade de Superman ante a humanidade. Milhares de pessoas morreram na luta entre os kryptonianos e um prédio das empresas Wayne foi destruído.

Clark Kent segue a vida de repórter, namora Lois Lane e, quando Superman, é encarado como um Deus salvador por muitos, e questionado por tantos outros. Lex Luthor, empresário de sucesso, tenta de diversas formas desacreditar o Último Filho de Krypton. Manipula vítimas da batalha de Metrópolis, a justiça, a imprensa. Outra cartada é jogar Batman contra Superman. Em meio a tudo isso há a misteriosa comerciante de antiguidades Diana Prince (Gal Gadot), que precisa resgatar algo.

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Impossível revelar mais. Até por que dezenas de sites especializados em cultura pop e milhares de fãs debateram tanto as possibilidades do filme. Fica difícil ser surpreendido. Para falar a verdade, tanta especulação chegou ao limite. Perdeu-se a graça. De todo modo, mesmo com os trailers e tamanho blá-blá-blá na internet, boas surpresas estão reservadas.

Há personagens de “O Homem de Aço” que voltam a dar as caras. Coadjuvantes e principais. Um sequer teve sua aparição divulgada. Lois Lane é presença constante na trama, retratada outra vez como a donzela em perigo. Amy Adams é atriz importante, com diversas indicações ao Oscar, e os realizadores precisavam colocá-la em ação.

Henry Cavill, que tem porte, corpo e rosto de Superman, mantém a mesma feição quase o tempo inteiro: sobrancelhas em riste, tenso, triste. Quem conheceu o Superman na televisão ou na franquia clássica estrelada por Christopher Reeve deve estranhar. O fato de não ser um grande astro e precisar dividir a cena com Ben Affleck acaba prejudicando o personagem. Batman parece ter mais cenas e maior desenvolvimento. Affleck corresponde na pele de um vigilante cansado, intolerante e violento. Finalmente o antes galã rompe de vez com seu passado tenebroso de filmes e atuações constrangedoras, inclusive aquele “Demolidor” de 2003. Seu Batman já é considerado por alguns a melhor encarnação do homem-morcego nas telonas.

Laurence Fishburne confere a costumeira autoridade ao editor do Planeta Diário, Perry White, e Jeremy Irons recebe boas falas como Alfred. O mordomo, agora alçado à categoria de auxiliar estratégico do vigilante de Gotham, sempre ganhou grandes intérpretes no cinema: de Michael Gough na tetralogia de Tim Burton e Joel Schumacher, a Michael Caine na trilogia de Christopher Nolan. Diane Lane, a Martha Kent, mãe adotiva do Superman, tem papel importante. E uma fala impagável. Raro momento de humor.

Jesse Einserberg faz um Lex Luthor surtado, que não quer perder o poder e precisa minar aqueles que roubaram a cena em Metrópolis. Exagerado, caricato, tem momentos de insanidade que assustam. Um bom vilão. Começa atuando nos bastidores, mas logo se revela alguém perigoso, egocêntrico e lunático.

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E há Gal Gadot. A atriz israelense tão questionada à época de seu anúncio para viver Mulher-Maravilha revela-se um dos grandes acertos da produção. Ok, sabemos muito pouco sobre a heroína e Diana Prince. Informações que devem ser detalhadas no filme-solo. É preciso lembrar estarmos diante de um universo expandido e nem sempre um filme fecha sua história. Ótimo para os fãs. Nem tanto para quem não quer ou não tem tempo de conferir tantos longas. Porém, quando surge, Mulher-Maravilha rouba aplausos da plateia. É exuberante. Guerreira que não foge à luta, ao desafio. Bela, poderosa e utiliza suas armas clássicas.

Batman e Superman são figuras errantes nessa versão. Até por que o mundo atual é bem diferente daquele em que os super-heróis estavam no auge nos quadrinhos, entre os anos 50 e 80. A sociedade está mais cínica, violenta, cansada, exposta e informações ininterruptas que chegam por todos os lados. O filme reflete esse momento que vivemos. O “versus” do título acaba não fazendo tanto sentido. Há o conflito. Porém é algo bem menor dentro de um todo e a produção serve muito mais como introdução para o filme da Liga da Justiça. Os executivos perceberam que estavam deixando o bonde passar e vendo a Marvel fazer fortuna. Precisavam correr atrás e não daria tempo de fazer vários filmes apresentando separadamente cada personagem. Precisaram juntá-los o quanto antes.

A tão alardeada influência da HQ “O Cavaleiro das Trevas” (1986), de Frank Miller, é nítida. Vemos a luta. O Batman veterano e usando a armadura. A cobertura da mídia. No entanto, existe muito de outras histórias em quadrinhos: a saga “Crise nas Infinitas Terras”, “Batman/Superman: Inimigos Públicos” e “A Morte do Superman” (essas já transformadas em longas de animação lançados direto em home vídeo, tal qual “O Cavaleiro das Trevas”). Os games “Injustice” e “Arkham Knight” também foram lembrados. Snyder e os roteiristas fizeram a lição de casa e presentearam os fãs com diversas citações (e corretamente listam os quadrinistas que influenciaram a obra nos créditos finais). Existe uma cena, envolvendo os dois protagonistas, que vai arrancar lágrimas. Uma sacada dentro do roteiro: algo que Batman e Superman possuem em comum e, pelo que me lembre enquanto crítico de cinema e leitor de quadrinhos, jamais foi usado como neste filme. Nem Christian Bale foi esquecido. Em determinado momento, Bruce Wayne se refere ao Balé Bolshoi, mostrado em “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2008).

Hans Zimmer, que trabalhou na trilogia de Nolan e “O Homem de Aço”, e Junkie XL, criaram uma trilha sonora grandiloquente, que mescla eletrônico e música clássica, dão nova densidade à trajetória de Batman e reutilizam trechos do filme de 2013 nos momentos em que Superman é o destaque. A batida quando a “trindade” se junta é eletrizante.

Só não precisavam deixar esse universo tão escuro: a fotografia é repleta de filtros que tornam toda a ambientação amarronzada, a pele dos atores brancos quase chapada. Herança dos filmes de Christopher Nolan (produtor-executivo deste), sombrios, calcados numa possível realidade, dessaturados. Mas aqui temos alienígenas, monstros, experiências dos mais diversos tipos oriundas dos quadrinhos. Podia ser um pouquinho mais colorido, não? Ninguém reclamaria.

Ao término, “Batman V. Superman: A Origem da Justiça” foi bom entretenimento. Apesar de Snyder e os produtores desenvolverem um universo estética e conceitualmente oposto ao da Marvel nos cinemas, não chega a ser profundo como a trilogia de Christopher Nolan. É um filme de super-heróis. Mais sério, que aborda temas importantes. Mas de super-heróis. Quem espera a aparição de outras figuras emblemáticas da DC não se decepcionará. A ponte para os longas da Liga da Justiça está sedimentada.


Videocast:


 


BATMAN V. SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman V Superman: Dawn of Justice)
EUA. 2016.
Direção: Zack Snyder.
Com Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Jeremy irons, Laurence Fishburne, Holly Hunter.
153 minutos.


 

 

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.