Isto é Oscar!

Equipe de "Spotlight" recebe o Oscar.
Equipe de “Spotlight” recebe o Oscar.

A tradicional abertura da cerimônia do Oscar 2016 se deu com um certeiro, cáustico e irônico monólogo de Chris Rock sobre o ”oscarsowhite” – ”Um colega me pediu para boicotar o Oscar, mas como posso recusar trabalho?”, disparou o comediante, arrancando risadas e aplausos. Logo após a apresentação de Rock, foi entregue o primeiro prêmio da noite, o de roteiro original. O vencedor foi ”Spotlight – Segredos Revelados”, para Josh Singer e Tom McCarthy (também diretor). E o último prêmio da noite, o de melhor filme, foi para o mesmo “Spotlight”. Curiosamente, entre as duas consagrações, todos, inclusive a equipe do filme, ficaram aplaudindo outros longas serem premiados em todas as demais categorias. O melhor filme da noite só recebeu um outro Oscar, o de roteiro.

Historicamente, somente ”O Maior Espetáculo da Terra” (1952) havia recebido as mesmas duas estatuetas (naquela época, ”screenplay” era ”writing’). É notável que raros são os casos onde os filmes vencedores não são premiados com o Oscar de melhor roteiro, entre eles ”Asas” (o primeiro,1927), ”Hamlet” (1948), ”A Noviça Rebelde” (1965) e ”Titanic” (o último, 1997). Seja como for, o tempo todo a impressão era de que o momento em que melhor filme fosse anunciado seria menos celebrado que o da iminente vitória de Leonardo DiCaprio, que dominou a mídia totalmente.Tanto assim que até a ordem da premiação foi alterada pela Academia: a sequência final – atriz, ator, diretor e filme mudou para atriz, diretor, ator e filme. Por pouco não foi filme e ator por último. Quando “Spotlight” foi anunciado o melhor filme, os fãs ainda estavam comemorando a tão esperada vitória de Leo nas redes sociais ou em festas e encontros.

Leonarod DiCaprio com seu Oscar em mãos. (Foto: Página oficial do Oscar).
Leonarod DiCaprio com seu Oscar em mãos. (Foto: Página oficial do Oscar).

Como será o Oscar 2016 lembrado – o ano em que o muito bem realizado “Spotlight” foi considerado o melhor filme ou o ano em que Leo finalmente recebeu seu tão aguardado e merecido Oscar? Indicado por ”Aprendiz de Sonhador”, “O Aviador”, “Diamante de Sangue” e o ”Lobo de Wall Street” (ator e também produtor), DiCaprio viu seu Oscar se aproximar ao vencer outros prêmios, como o Globo de Ouro, BAFTA e o SAG, pelo seu vigoroso, impressionante desempenho em ”O Regresso”.

A entrega do Oscar 2016 resultou tanto na confirmação de algumas previsões, como num certo número de surpresas. Que a academia havia apreciado “Mad Max – Estrada da Fúria”, ninguém tinha dúvida – dez indicações – mas quem diria que esta vibrante ficção científica – gênero geralmente esnobado pela academia, dirigida por George Miller – seria o filme mais premiado da noite, levando seis Oscars: design de produção, figurinos, maquiagem & cabelo, som, edição de som e edição? Surpreendentemente, não venceu em efeitos visuais, que tampouco ficou com “Star Wars”, mas sim com o ótimo “Ex Machina”, um pequeno independente estrelado pela linda e talentosa Alicia Vikander, a vitoriosa atriz coadjuvante de “A Garota Dinamarquesa”.

Foi com o Oscar de fotografia que ”O Regresso” recebeu sua primeira estatueta da noite, estabelecendo um recorde na história do Oscar para o fotógrafo Emmanuel Lubezki, vencedor por três vezes consecutivas – “Gravidade” (2013), “Birdman” (2014) e “O Regresso”. Deve estar super bem cotado no mercado. Outras confirmações se deram com ”Amy” – melhor documentário, ”Divertida Mente”” – melhor animação ( o brasileiro “O Menino e o Mundo” fez bonito ao conseguir a indicação), “O Filho de Saul” – melhor filme estrangeiro, Brie Larson – melhor atriz em “O Quarto de Jack”, mais um prêmio para sua coleção.

As surpresas se deram com ator coadjuvante, categoria em que Sylvester Stallone apresentava grande favoritismo ao recriar seu personagem Rocky Balboa em “Creed” com inesperada e elogiada sensibilidade. O que poderia ter sido uma homenagem da academia ao sucesso “Rocky, um Lutador”, vencedor do Oscar 1976, encostando em 40 anos, acabou sendo um banho de água fria para os incontáveis fãs do astro e da série. O vencedor foi o não muito conhecido, mas inegavelmente talentoso Mark Rylance, ator britânico, em ”Ponte dos Espiões”. Esta foi a forma da academia conceder um único Oscar ao filme de Spielberg.

Alicia Vikander recebeu o Oscar de atriz coadjuvante. (Foto: Página oficial do Oscar).
Alicia Vikander recebeu o Oscar de atriz coadjuvante. (Foto: Página oficial do Oscar).

Muitos protestaram nas redes sociais, não somente os fãs de Stallone, mas também amigos como Arnold Schwarzenegger. O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, fez uma entrada triunfal, representando o presidente Obama e discursou sobre o seríssimo tema de violência sexual nas universidades americanas, abordado no documentário “The Hunting Ground”. Aplaudido de pé, declarou que era ali o ”menos qualificado” para, a seguir, apresentar Lady Gaga. Ao piano, a exuberante Gaga fez uma performance eletrizante e poderosa da canção de sua autoria “Till it Happens to You”, com um ”grand finale” de arrepiar, culminando com a entrada no palco de diversas vítimas de violência sexual, homens e mulheres, de mãos dadas e mensagens pintadas nos braços. Toda essa emoção, no entanto, não surtiu efeito: a vitória esperada de Gaga não aconteceu. Ela acabou aplaudindo educadamente e com semblante resignado Sam Smith, autor de “Writing’s on the Wall”, mais um Oscar de canção para a série 007, desta vez para “Spectre”, – longe da beleza de ”Skyfall” de Adele. Quanto à apresentação de Smith, ele não parecia muito à vontade no palco, movendo-se como um pêndulo. No agradecimento, cometeu a gafe de se dizer o primeiro artista assumidamente gay vencedor do Oscar. Será que ele nunca tinha ouvido falar de Elton John, para se citar um, pelo menos?

Felizmente, outra tão esperada vitória, a do grande maestro Ennio Morricone, que só havia recebido um Oscar Honorário, mas nunca vencido como indicado, foi um ponto alto da noite. Conduzido pelo amigo John Williams, este em sua incrível 50ª  indicação, agradeceu a Quentin Tarantino, que costumeiramente sempre resgata grandes nomes do cinema. O polêmico e talentoso Tarantino desta vez foi um dos esnobados pela academia.

A seguir um difícil feito foi realizado pelo cineasta Alejandro G. Iñarittu – ele se tornou o terceiro diretor na  história a vencer dois Oscars consecutivos, após mais de sessenta anos, fazendo companhia aos mestres John Ford  e Joseph Mankiewicz.

Então veio Leonardo DiCaprio fazer um emocionante discurso, defender a preservação do meio ambiente e gerar polêmica pelo modo como segurou seu Oscar.

Com essas duas vitórias de peso, tudo levava a crer que seria ”O Regresso” o vencedor da noite, repetindo o Globo de Ouro, mas veio “Spotlight”, que estava quietinho durante toda a premiação, atropelando. Qual a explicação?

Possivelmente porque “O Regresso” não havia sido indicado a roteiro e havia sido lançado no fim do ano, digamos, pouco tempo antes do processo de votação. Além disso, havia o fato dos produtores de “O Regresso” terem sido premiados no ano anterior por “Birdman”. Muito Oscar para as mesmas pessoas em tão pouco tempo – um ano. O jovem estúdio Open Road Films fez sua lição de casa direitinho: distribuiu DVDs de “Spotlight” para todos os membros da academia, e teve em Mark Ruffalo um trunfo especial, uma vez que ele habilmente apresentava a importância do longa ao despertar nas pessoas a vontade de lutar pelos seus direitos, e por justiça. O produtor Michael Surgar, em seu discurso de agradecimento, se dirigiu ao Papa Francisco, pedindo a ele “que protegesse as crianças, restaurando a fé”. O Vaticano elogiou “Spotlight”, dizendo que o filme deu voz às vítimas. Todas essas surpresas e decepções, mais as alegrias, o protesto dos atores negros, o reconhecimento da Academia com o desfile de grandes talentos afroamericanos como apresentadores – Quincy Jones, Kerry Washington, Whoopi, Pharrell Williams, Kerry Washington, Morgan Freeman – mais Leonardo DiCaprio proporcionaram mais um final feliz a todos. Ou quase todos: “Brooklyn” e “Perdido em Marte” saíram de mãos abanando. Mas não estão sós: fazem companhia a outros grandes perdedores como ”Momento de Decisão”, ”A Cor Púrpura” e ”Trapaça”. Isto é Oscar!

Emmanuel Lubezki, Leonardo DiCaprio e Alejandro G. Iñárritu celebram seus Oscars por "O Regresso".
Emmanuel Lubezki, Leonardo DiCaprio e Alejandro G. Iñárritu celebram seus Oscars por “O Regresso”.

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

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