Cineasta brasileiro fala sobre como foi trabalhar com Anthony Hopkins em Hollywood

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No início de 2012 chegava aos cinemas brasileiros “2 Coelhos”. O filme chamou a atenção ao se enveredar por gêneros não tão presentes no cinema nacional contemporâneo: o thriller e a ação. Alcançou um público de 250 mil pessoas no país. Um bom público, mas longe do sucesso aguardado por seus realizadores. Foi a montagem dinâmica e o mix de live action com trechos em animação que despertaram o interesse de parte da crítica e do empresário Brent Travers, da United Talent Agency (UTA).

Manager do ator Wagner Moura nos EUA, o que possibilitou ao brasileiro atuar em produções como “Elysiom” (2013), ao lado de Matt Damon, e na série “Narcos” (2015), do Netflix, o produtor foi atrás do responsável por “2 Coelhos”, o cineasta nascido em Santos, Afonso Poyart, que iniciou a carreira na publicidade e, além de filmes, dirigiu videoclipes de Charlie Brown. Jr, Marjorie Estiano e Felipe Dylon. Seu primeiro trabalho nas telonas que ganhou visibilidade foi o curta-metragem “Eu te Darei o Céu”, vencedor de quatro prêmios no Festival de Gramado.

Anthony Hopkins na pré-estreia de O primeiro resultado dessa parceria com o norte-americano pode ser conferido a partir desta quinta-feira no Brasil: o suspense “Presságios de um Crime” (“Solace”). “O Travers me apresentou dezenas de roteiros e achei que ‘Solace’ tinha um grande potencial visual”, explica Poyart. “E o fato de alguém do calibre de Anthony Hopkins estar envolvido no projeto desde o início me cativou”, explica.

Poyart repetiu a experiência de alguns colegas conterrâneos que se aventuraram por Hollywood: Walter Salles (“Água Negra”), Heitor Dhalia (“12 Horas”) e José Padilha (“Robocop”) sentiram o que é trabalhar por lá. Diferente da liberdade criativa que possuem ao conceber um projeto cinematográfico desde o roteiro no Brasil, nos EUA precisam do aval dos produtores, os verdadeiros “donos” dos filmes. Trabalham por encomenda.

Para os estúdios norte-americanos, contratar cineastas estrangeiros serve como forma de ter o controle total sobre o desenvolvimento do longa e, ao mesmo tempo, economizar em cachê contando com profissionais talentosos e que não criarão problema. Para os diretores estrangeiros, é a chance de tentar a sorte no maior mercado de cinema do mundo ou, pelo menos, ganhar experiência. O diretor argentino Juan José Campanella, antes de ganhar o Oscar de filme em língua estrangeira pelo excepcional “O Segredo dos Seus Olhos” (2009), labutou por anos em Los Angeles dirigindo episódios de séries como “Law & Order: Special Victims Unit” e “House”. Conheceu a dinâmica de Los Angeles e a inseriu no filme que lhe traria fama internacional. Já o brasileiro Heitor Dhalia vociferou horrores contra o sistema hollywoodiano.

Afonso considera positivo esse primeiro trabalho internacional. “Logicamente foi uma experiência diferente. Com ‘2 Coelhos’ participei de todas as etapas de produção. Quando cheguei para trabalhar em ‘Presságios de um Crime’ estava tudo pronto. Fui para dirigir. Não que tenham me podado completamente. Discutíamos cenas, sequências e consegui colocar um pouco da minha visão no filme”, explica o santista. “Mas poder ver como atuam grandes nomes como Anthony Hopkins e Colin Farrell tornou-se um aprendizado bastante enriquecedor. Hopkins, por exemplo, prefere não sair muito do que está no roteiro. Não gosta de mudar diálogos. Me deu até algumas broncas. Claro que eu não discutiria com ele (risos)”, conta o diretor. No filme, Anthony Hopkins retorna ao gênero thriller, que o consagrou em “O Silêncio dos Inocentes” (1991), quando recebeu o Oscar de melhor ator na pele do serial killer Hannibal Lecter. E foi dirigido pela segunda vez por um cineasta brasileiro: em 2011 esteve em “360”, de Fernando Meirelles, e cujo roteiro é assinado por Peter Morgan, que revisou o scrip de “Presságios…”.

Afonso (a esquerda) na coletiva de "Dois Coelhos".
Afonso (a esquerda) na coletiva de “Dois Coelhos”.

Sobre as diferenças entre os mercados do Brasil e dos EUA, Poyart explica que o principal fator é o dinheiro. “Lá nosso orçamento foi de US$ 28 milhões. Para fazer meu próximo filme, ‘Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo’, previsto para este ano, tivemos R$ 7 milhões. Há ainda o prazo para filmagens. Lá costuma ser maior. Aqui precisamos correr. Agora, no quesito humano, da equipe de produção, não há diferenças. Temos, no Brasil, profissionais tão bons quanto os norte-americanos e mais criativos”, afirma.

O diretor tem se empenhado em divulgar a obra. Marca presença em pré-estreias, apresenta o longa para o público. Nesta quarta-feira participa da avant-première em Santos, sua terra-natal, e se diz empolgado. “O filme tem um pouco do Brasil. As imagens aéreas foram feitas em São Paulo em cinco diárias. Temos a atriz Luisa Moraes (novela ‘A Família’). Espero que o público prestigie. No México foi visto por mais de um milhão de pessoas. Na França foi o filme independente norte-americano mais visto da temporada”, celebra.

O Rotten Tomatoes, site que faz a média de cotações da crítica especializada, dá porcentagem de aprovação de 32% para o filme. É pouco. Críticos nem sempre acertam e o público brasileiro pode se identificar com uma história repleta de astros e com uma mãosinha do país. A trama de 1 hora e 41 minutos acompanha um veterano detetive do FBI (Jeffrey Dean Morgan, que será o pai de Bruce Wayne em “Batman Vs. Superman: A Origem da Justiça”) e sua mais jovem e ambiciosa parceira (a australiana Abbie Cornish, dirigida por Padilha em “Robocop”). Eles pedem a ajuda de um recluso e solitário analista civil, o médico aposentado Dr. John Clancy (Hopkins) para resolver uma série de bizarros assassinatos. Quando os excepcionais poderes de clarividência de Clancy, que aparecem na forma de vívidas e perturbadoras imagens, colocam os detetives na trilha do assassino (Colin Farrell), o médico logo percebe que seu dom é muito pouco comparado aos poderes extraordinários do criminoso.

A pré-estreia, em Santos, ocorre no Cine Roxy e é para convidados.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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