A indicação ao Oscar de O Menino e o Mundo e o ramo de animação no Brasil

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Em 28 de fevereiro, domingo, acontece a cerimônia do Oscar. Para nós, brasileiros, fica a atenção especial para a categoria Melhor Animação. “O Menino e o Mundo”, dirigido por Alê Abreu, disputa a estatueta com quatro excelentes longas: o favorito “Divertida Mente”, da Pixar, “Anomalisa”, projeto independente de Charlie Kaufman, o britânico “Shaun, O Carneiro”, e “As Memórias de Marnie”, produzido pelo estúdio japonês Ghibli, de “A Viagem de Chihiro” e tantos outros clássicos.

Tarefa árdua, ainda que Alê Abreu, em entrevistas, afirme estar trabalhando duro para divulgar o filme entre os votantes da Academia. Afinal, o mais difícil nesse período pré-Oscar é conseguir fazer o longa ser visto. Um passo importante foi dado: a campanha de divulgação no site de “vaquinhas online” Catarse, para que o filme conseguisse verba para maior distribuição nos EUA, foi alcançada em 12 dias. Foram arrecadados mais de R$ 100 mil e 1200 pessoas colaboraram.

'O menino e o mundo'Trata-se de uma batalha de Davi contra Golias. Enquanto “O Menino e o Mundo” custou R$ 2 milhões, “Divertida Mente” teve orçamento de US$ 170 milhões. Se a animação brasileira conseguiu vitórias históricas no Festival de Annecy, na França, considerado o “Cannes da animação”, e foi eleita a melhor produção independente no Annie Awards, o “Oscar” do gênero, a mega produção da Pixar arrebatou todos os principais prêmio da temporada: Globo de Ouro, BAFTA (da Academia Britânica), Critics’ Choice Awards, o próprio Annie, Sindicato dos Produtores, além do fato de também concorrer ao Oscar de roteiro original, uma das principais categorias do evento.

Se dia 28 a tendência se confirmar, “O Menino e o Mundo” terá feito história do mesmo jeito. Raras vezes uma animação que não fosse de idioma inglês conseguiu ser indicada. Além disso, a nomeação ao Oscar fez o filme voltar às salas de cinema. E ratifica uma máxima que tem se mostrado nos últimos anos: enquanto os estrangeiros reconhecem o valor das animações produzidas no Brasil, o mesmo não ocorre entre os brasileiros.

Filme “Uma História de Amor e Fúria” (2013), dirigida por Luiz Bolognesi e que, justiça seja feita, contribuiu muito para que as animações brasileiras tivessem reconhecimento internacional, foi vista na época de seu lançamento por apenas 30 mil pessoas no Brasil. Mas venceria Annecy (a primeira vitória do país no principal troféu do festival), receberia prêmios em países como Argentina, Armênia, Japão e China, e seria pré-selecionada para o Oscar, obtendo elogios de veículos de imprensa influentes (The Hollywood Reporter e a Variety). Com tamanha repercussão, o lançamento em home vídeo e exibições no canal pago HBO, o longa alcançou posteriormente 100 mil espectadores. “70% deles fora do Brasil”, afirmaria Bolognesi.

Algo parecido tem ocorrido com “O Menino e o Mundo”: no Brasil, quando estreou, teve cerca de 40 mil pagantes. Na França, 100 mil (!) espectadores prestigiaram a produção.

Um dos principais cineastas do ramo de animação no mundo é brasileiro: Carlos Saldanha já concorreu ao Oscar de melhor curta-metragem animado por “Gone Nutty” (2002) e desenvolveu duas franquias de sucesso, “A Era do Gelo” e “Rio”, pelas quais conseguiu indicações ao Annie.

A produtora LightStar, localizada em Santos, que trabalhou em “Asterix e os Vikings” e  “O Gigante de Ferro”, concebeu mais da metade das ilustrações de “O Segredo de Kells”, indicado ao Oscar 2010, quando “Up, Altas Aventuras” saiu vencedor.

Ou seja, talentos no país existem. Os motivos de longas animados brasileiros não alcançarem tantas pessoas no país podem ser vários: desde a falta de uma indústria e maior mão de obra, maior distribuição no circuito comercial, bem como o velho “complexo de vira-lata” (alcunha criada por Nelson Rodrigues) de parte da população, que ainda teima em tentar “descobrir” o cinema nacional.

Alexandre Barbosa, o BARPor outro lado, na televisão o prestígio do segmento em solo nacional é maior. “Temos o ‘Show da Luna’, ‘Meu Amigãozão’, ‘Pelezinho’, ‘Tromba Trem’, ‘Historietas Assombradas (para Crianças Malcriadas)’, ‘Turma da Mônica’ e ‘Sítio do Pica-Pau Amarelo’, entre outras séries exibidas na telinha. Mais recentemente uma antiga animação chamada “Onigomanjhas” também voltou em forma de episódios no Youtube”, explica Alexandre Valença Alves Barbosa, o BAR, desenhista e professor de três universidades em Santos, incluindo a disciplina de Animação no curso de Cinema e Audiovisual da Unimonte. “Todas estas animações geram marketing em forma de diversos produtos: camisetas, bonecos, jogos e materiais escolares”, ressalta.

Ao mesmo tempo, Barbosa avalia que há pouca demanda por parte dos alunos para a área. “Hoje temos um percentual entre 5% e 8% (dos estudantes de cinema que decidem se enveredar pela animação). Existe ainda muita relutância e falta de informação quanto ao mercado e as funções em um estúdio de animação. Mas com estes prêmios e animações surgindo esperamos que estas informações mudem em breve. Acho que os alunos irão procurar saber mais sobre as possibilidades de participação em projetos do ramo”, afirma.

O passo seguinte, custear um projeto, também encontra dificuldades. Segundo o professor, “bancar a equipe de produção não é fácil. Há a questão do maquinário e dos softwares utilizados em animação. Muitos estão tentando os sites Catarse e Kickstarter para viabilizar as produções”.

Daniel PudlesO paulistano Daniel Pudles, cujo currículo incluir participações em séries e longas como “Gui e Estopa”, do Cartoon Network, e os filmes “Cine Gibi” da Turma da Mônica, “Brasil Animado” (o primeiro filmado no Brasil em 3D), “Garoto Cósmico” e inclusive “O Menino e o Mundo”, dá sua visão do mercado brasileiro. “Atualmente, e também graças a essas indicações, vejo que a conversa sobre os filmes de animação fica diferente. Aqui no país temos artistas de grande nível. Podemos realizar ótimos filmes, porém ainda precisamos melhorar o esquema de trabalho, abrir um leque maior para cada atividades de produção e procurar algo fora. O intercâmbio com outros mercados pode propiciar uma ponte de contatos. O que também não impede que o processo criativo se dê no Brasil”, reflete o desenhista.

Sobre a distribuição dos filmes, ele se diz otimista. “Melhorou um pouco, mas ainda falta muito caminho a ser percorrido. Agora que as animações começam a se mostrar com outra ‘’face’ (roteiros e animações melhores produzidas), vamos deixando de lado aquele velho papo ‘é produção nacional’”, conclui.

Fica a torcida para que “O Menino e o Mundo” surpreenda no próximo dia 28 e que não seja um fato isolado. Nesse sentido, o jornalismo e a crítica de cinema podem desempenhar papel importante disseminando e acompanhando os lançamentos das animações brasileiras e o trabalho de profissionais nascidos no país que participam de grandes produções em outras nações. E, especialmente, entender os filmes realizados por aqui e não se ater somente a questões técnicas, a exemplo do que ocorreu, em parte, com “Uma História de Amor e Fúria”, quando alguns questionaram a “qualidade” dos desenhos, sendo que a essência do filme era sua história, o reflexo social e sua ambição artística. Já o trabalho de Alê Abreu é artesanato, no melhor sentido do trabalho que um artesão pode conceber, feito com esmero, cuidado. Uma obra que reflete o capitalismo de maneira sensível e poética.

O Oscar 2016 será exibido ao vivo em Santos, no Cine Roxy 5 (Av. Ana Costa, 443, Gonzaga), domingo, 28 de fevereiro, a partir das 22h. Os especialistas Waldemar Lopes e Gustavo Klein comentarão os prêmios e sortearão brindes nos intervalos da transmissão. A entrada é gratuita, mas pede-se a gentileza de um quilo de alimento não perecível em prol da ACAUSA.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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