Crítica | Deadpool

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Pegue o humor escatológico dos irmãos Farrelly, a desconstrução de instituições transformada em tiração, quase bullying, do “Borat”, a violência sanguinolenta e de cartum do cineasta japonês Takashi Miike, e consequentemente de Quentin Tarantino, a ação ensandecida de “Kick-Ass”, “Kingsman”, bata tudo num liquidificador e eleve à enésima potência e temos um dos filmes baseados em quadrinhos mais divertidos já produzidos pela Fox – que se passa dentro da franquia “X-Men” – e dos últimos anos.

“Deadpool”, dirigido com tamanha energia por Tim Miller, é a vitória do ator Ryan Reynolds: poucas vezes se viu um astro de Hollywood tão envolvido em uma campanha de divulgação. No caso, um filme que surgiu “despretensiosamente”.

Em “X-Men Origens: Wolverine” (2009), Reynolds deu vida ao anti-herói numa caracterização execrada pelos fãs e completamente oposta em relação às histórias em quadrinhos. Foi necessário o “vazamento” de um curta-metragem não oficial estrelado pelo próprio ator, que viralizou na internet de tal forma que a Fox não viu outro caminho, senão dar aval ao projeto.

Orçada em US$ 50 milhões, valor baixo para os filmes do gênero (fator perceptível na constituição de Colossus, visivelmente feito por computação gráfica), repleta de palavrões, sexo e violência (o que lhe rendeu classificação indicativa alta), a produção seria um negócio arriscado para o estúdio. Mas o marketing foi tão bem bolado, que fez quem não tinha a menor ideia sobre o personagem ficar interessado e ansioso em vê-lo na telona. O longa virou hype nas redes sociais e deve fazer sucesso – sua continuação está confirmada.

deadpool3A história não é das mais originais: Ex-militar e mercenário, Wade Wilson (Reynolds) encontrou o amor nos braços da garota de programa Vanessa (a brasileira radicada nos EUA, Morena Baccarin). Mas não estamos num conto de fadas. O protagonista é diagnosticado com câncer terminal e encontra possibilidade de cura ao ser abordado por uma instituição sinistra e que atua na clandestinidade. As coisas não acontecem como o esperado. Recuperado em parte, e com seus genes mutantes ativados após a “cirurgia”, ele se torna Deadpool e busca vingança contra os sujeitos que destruíram sua vida.

Tim Miller, que integrou a equipe do surpreendente “Scott Pilgrim Contra o Mundo” (2010), aprendeu as lições e as radicalizou em parceria com os roteiristas Paul Wernick e Rhett Reese (de “Zumbilândia”, 2009).

“Deadpool” não é apenas irreverente. Ridiculariza todos os clichês dos filmes de super-heróis tal qual Borat fazia com as instituições norte-americanas, a partir de sua boca que mais parece uma metralhadora giratória: Batman, Robin, as duas linhas temporais da franquia cinematográfica X-Men, a própria Fox e o próprio Ryan Reynolds – e seu “Lanterna Verde” (2011) – não escapam à língua afiada do personagem, que não para de falar nem quando está em apuros. Um exercício divertidíssimo de metalinguagem dos realizadores.

Claro que algumas referências são compreendidas por quem acompanha esse universo no cinema e nos gibis. No entanto, as cenas surtadas de ação (com a câmera colada aos socos, perfurações e quebra-quebras), sexo (anal, inclusive), o romance e as gags garantem a diversão do público geral. Para ter uma ideia, as piadinhas ditas pelo Tony Stark/Homem de Ferro de Robert Downey Jr. nos filmes do Marvel Studios parecem brincadeiras de criança colocadas perante as proferidas pelo mercenário tagarela.

Obviamente quem segue o politicamente correto pode não gostar ou aprovar os diálogos e situações. Porém, numa época em que filmes inspirados em quadrinhos procuram se “aproximar” da realidade e dar ao espectador algum tipo de “mensagem séria”, “Deadpool” não tem medo de ser o que as HQs são na essência: entretenimento. Colossus fala mais do que sua outra versão abriu a boca nos outros filmes da franquia. É o contraponto certinho ante ao amalucado mercenário. E a palavra X-Men é assumida e dita mais vezes do que em todos os outros filmes deste universo. Não falta a quebra da quarta parede comum nos quadrinhos de Deadpool – quando o personagem olha direto para a câmera e conversa com o público. Tornando-nos assim mais íntimos e cúmplices dele.

Se na primeira década deste século Wolverine, Homem-Aranha e Batman pareceram ser os heróis certos para uma sociedade cada vez mais cínica e implacável – daí “Superman – O Retorno” não ter caído nas graças do público por ser um cara “à moda antiga” -, eis que Deadpool soa ideal para o momento em que vivemos. Um mundo cada vez mais acelerado e enlouquecido.

PS: Durante os créditos há uma cena que fará a alegria de fãs de um certo filme adolescente dos anos 80.


Videocast:


Trailer:


DEADPOOL (Idem).
EUA/Canadá. 2016.
Direção: Tim Miller.
Com Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Karan Soni, Brianna Hildebrand, Stefan Kapicic, Ed Skrein. T.J. Miller.
108 minutos.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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