19ª Mostra de Tiradentes debate espaços em conflitos no cinema brasileiro

tiradentes-cinezen

O espaço como inevitabilidade do cinema esteve no centro das discussões, dos filmes, debates e diálogos conceituais propostos pela curadoria da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada de 22 a 30 de janeiro de 2016 na cidade que dá nome ao evento, em Minas Gerais.

Relacionando a atual situação brasileira de crise financeira e política, as possibilidades de um cinema independente caracterizado pela inventividade de novas formas e a pluralidade de linguagens e geografias percebidas na tela, a Mostra Tiradentes ofereceu um amplo panorama.

Destacaram-se diálogos firmes e contundentes que posicionaram as questões em sentidos urgentes, fazendo jus à proposição de que “é preciso haver forças em oposição, contrastantes e até não conciliáveis para, em uma narrativa, os personagens se moverem”, segundo o curador, Cléber Eduardo.

O tema da Mostra foi “Espaços em Conflitos no cinema brasileiro”, refletido nos debates e, em boa parte, das produções audiovisuais exibidas na programação. “Não podemos ignorar que as formas de representação dos espaços, em quaisquer épocas, não são operações apenas narrativas, mas também e especialmente políticas”, destacou Cléber.

Para o pesquisador Hernani Heffner, a efervescência atual das questões mais presentes na pauta midiática trouxe complicações a quem se aventura a fazer um filme: “O diretor muitas vezes se torna um cronista do problema, muito mais do que alguém que achará a solução. A posição do realizador é complicada, porque ele precisa ir atrás de qual conflito filmar e como fará isso, e nem sempre está tudo muito claro”.

Na programação da Mostra, vários foram os títulos que propuseram formas de enfrentamento, fosse pelo olhar direto para determinada situação, fosse por possibilidades renovadas de registro.

Alguns realizadores vão para a rua, como Maria Augusta Ramos em “Futuro Junho”; outros se relacionam com seus espaços de vivência (e sobrevivência), retirando dali potências até então desconhecidas, como Lincoln Péricles em “Filme de Aborto” e Daniel Lisboa em “Tropikaos”; e mais outros buscam na alteridade alguma chave de apreensão para a compreensão de um sentido amplo (e, muitas vezes, sabotado pela História) de comunidade, como se viu em “Índios Zoró – Antes, Agora e Depois?”, de Luiz Paulino dos Santos, “Taego Ãwa”, de Marcela Borela e Henrique Borela, “Aracati”, de Aline Portugal e Julia de Simone, e “Santo Daime – Império da Floresta”, de André Sampaio.públicas e os filmes nacionais

A 19ª Mostra Tiradentes inaugurou o calendário audiovisual brasileiro. O secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Pola Ribeiro, apresentou em uma das mesas de debate as políticas públicas para o setor em 2016. Reconhecendo o quanto a crise tem afetado o setor, ainda assim ele apresentou projetos e garantiu que a pasta não vai parar com os compromissos acordados. “Foi preciso um redesenho da Secretaria a partir da perda de sua capacidade política. Hoje vivemos num país onde todos filmam, então era importante repensar tudo”, disse.

Pola Ribeiro enumerou projetos como o Canal Cultura, Quero Ver Cultura (aplicativo de TV digital com conteúdo gratuito a 14 milhões de beneficiários do Bolsa Família), VOD Brasil (plataformas on line), Canal da Cidadania, Cine Mais Cultura e retomada do site da Programadora Brasil.

A promoção e circulação de filmes brasileiros em festivais internacionais foi tema do debate internacional que contou a presença de curadores e programadores internacionais. Roger Koza, crítico da Argentina, assumiu sua incompreensão em não ver filmes como “Branco Sai Preto Fica”, “A Vizinhança do Tigre” e “Mais do que Eu Possa me Reconhecer” exibidos em eventos fora do País. “Isso só pode significar alguma falha de percepção e compreensão em relação à produção daqui”, lamentou.

Eduardo Valente, assessor internacional da Ancine, corroborou a visão de Koza com dados e informações sobre a maneira como alguns filmes são mal trabalhados em suas trajetórias por outros países, muitas vezes por ambições de produtores ou diretores que não se concretizam. “É bastante comum o realizador querer inscrever seu filme em todos os eventos, e existe a possibilidade de ele ser rejeitado em todos. Às vezes é melhor pensar nesse caminho pelo exterior de acordo com o perfil de cada festival e daquilo que interessa ao filme”, finalizou Valente.

A cidade de Tiradentes foi dotada em três espaços de exibição: Cine-Tenda, Cine BNDES na Praça, e Cine-Teatro Sesi para sediar nove dias de programação intensa e gratuita – 117 filmes (35 longas e 82 curtas) de 14 estados brasileiros, 57 sessões, 29 debates, 10 oficinas, 495 convidados, cinco shows, quatro performances audiovisuais, dois cortejos, teatro de rua, sete lançamentos de livros e mais de 35 mil pessoas beneficiadas pela força do cinema brasileiro.

O impacto econômico do evento na cidade também é destacado pelos organizadores. De Tiradentes, São João Del Rei e Belo Horizonte, foram contratadas 152 empresas prestadoras de serviços, gerando muitos empregos diretos e indiretos na região. Ao todo, 163 pessoas integraram a equipe de trabalho – entre montadores, agentes de trânsito, limpeza, segurança, técnicos, assistentes, produção e coordenação.m SP

Pelo quarto ano consecutivo, a Mostra Tiradentes leva para São Paulo, um recorte da programação da edição mineira – já estão confirmados os filmes da Mostra Aurora, da Mostra Foco, os filmes vencedores e destaques da programação da 19ª edição do evento.

A Mostra Tiradentes|SP já tem data marcada – acontece de 17 a 23 de março, no Cinesesc (Rua Augusta, 2.075, São Paulo-SP), numa parceria com o Sesc São Paulo.

Formado em Jornalismo na UniSantos em 1999, atuou como repórter e também como editor de revistas segmentadas nas áreas de Construção, Transporte, Indústria e Automação Industrial. Também trabalhou em Assessorias de Imprensa nas áreas de Cultura e Negócios. Viciado em Música (mais do que em Cinema - foi mal, André, rs...) e em revistas (de todos os tipos). Nas horas vagas, ataca de baterista de banda de rock. Contato: redacao.cinezen@gmail.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *