33 filmes que completam dez anos em 2016 e merecem ser (re)vistos

"O Labirinto do Fauno".
“O Labirinto do Fauno”.

 

O crítico de cinema, nos dias atuais, precisa ser uma espécie de arqueólogo. Pois são tantos os lançamentos. De filmes e séries –acompanhamos cada vez mais os seriados também, feitos para a televisão e o streaming. A velocidade de informação é tanta que, volta e meia, esquecemos de obras que foram importantes em determinado momento. Ou que mereciam maior repercussão.

Não precisamos voltar tanto no tempo. Dez anos atrás o cinema nos presenteou com diversos filmes interessantes, alguns sucessos de público e crítica. Outros só de crítica e vice-versa. Outros que dividiram opiniões. De gêneros variados. O 11 de setembro ainda ecoava na indústria hollywoodiana – tinham se passado cinco anos dos atentados.

Alguns longas só chegaram ao Brasil em 2007. Aquela temporada também foi a primeira em que comecei a escrever para valer sobre cinema. Antes trabalhava muito mais com jornalismo musical. Assim, esse post também é uma forma de comemorar 10 anos de carreira. Algo significativo pessoalmente e que provavelmente não interesse tanto ao leitor. Mas como quem acompanha este blog gosta de cinema, gostaria de dividir esse momento e a lista a seguir também pode servir de pesquisa e memória cinéfila.

Abaixo, 33 produções que merecem ser (re)vistas. Se já assistiu, vale uma segunda conferida. Se não viu, corre atrás. Todas estão disponíveis em DVD, serviços de streaming ou por demanda.

O ator Brad Pitt, em cena de 'Babel'.Babel
Em seu terceiro e até então mais ambicioso projeto, o diretor mexicano Alejandro González-Iñárritu – “Amores Brutos” (2000) e “21 Gramas” (2003) – completa sua “trilogia da dor” ao contar uma história cronologicamente fragmentada para traçar um retrato do lado caótico da globalização, mostrando o que um pequeno incidente num canto do planeta pode provocar em regiões distantes. Apesar da ótima participação de Brad Pitt e Cate Blanchet, os destaques ficam por conta das atuações da atriz mexicana Adriana Barraza e da japonesa Rinko Kinkushi, ambas indicadas ao Oscar de Atriz coadjuvante. O filme também conta com pequena, porém importante, participação de Gael García Bernal, que já havia trabalhado com Iñárritu em “Amores Brutos”.  Ganhador do Globo de Ouro de Filme/Drama e do Oscar de Trilha sonora (de Gustavo Santaolalla) é o trabalho mais palatável do diretor (se é que se pode chamá-lo assim) e contém importante mensagem social.

Diamante de Sangue
O diretor Edward Zwick escancara a pobreza e violência africanas, mas como pano de fundo para um filme de ação, que teve boa bilheteria nos EUA. Experiência ele já tinha – “Nova York Sitiada” de 1998, e “O Último Samurai”, de 2003, mostravam realidades brutais em formato blockbuster. Para alcançar o êxito executou algumas lições de Fernando Meirelles (ao mostrar crianças de arma em punho, feito “Cidade de Deus”) e reuniu um elenco de primeira: Leonardo DiCaprio visceral na pele de um ex-mercenário, Jennifer Connelly como uma repórter ambígua e Djimon Houson encarnando o símbolo da realidade africana – forçado a minerar diamantes na Serra Leoa mergulhada numa guerra civil. O trio acaba ligado pela busca a um diamante rosado de quase 100 quilates. Revelando as inúmeras vidas perdidas para que as pedras cheguem ao mercado, o filme cola crítica social na ação.

Dreamgirls, com BeyoncéDreamgirls – Em Busca de um Sonho
A trajetória do trio feminino Supremes, na soul music dos anos 60, é o pano de fundo de “Dreamgirls – Em Busca de um Sonho”, adaptação do bem-sucedido musical da Broadway que era inspirado na trajetória real do grupo que tinha Diana Ross. A trama, dirigida por Bill Condon (além de diretor bem-sucedido, foi roteirista de “Chicago”), narra – tomando várias “liberdades” em relação aos fatos reais – a ascensão profissional de um trio de cantoras, agenciadas por um vendedor de carros (Jamie Foxx), que se transforma em empresário conhecido através de subornos e tramoias, aliados à capacidade de sacar o gosto dos consumidores de música no país. Hollywood temia investir numa produção praticamente formada por negros e o projeto só foi concretizado após o sucesso do musical (gênero em baixa na época) “Chicago” (2002), e ao estouro do hip hop. Além de ser bonito tecnicamente, as canções de Henry Krieger (autor da trilha da peça original) traçam com exatidão a evolução do R&B ao soul, culminando na disco music dos anos 70 e as atuações do elenco são boas.

Nação Fast Food – Uma Rede de Corrupção
“Todo ser humano come um pouco de cocô durante a vida”, diz o personagem de Bruce Willis em um dos vários diálogos interessantes do filme. Se antes o diretor e roteirista Richard Linklater aproveitava longas conversas para bradar sobre o amor (“Antes do Pôr-do-Sol” e “Antes do Amanhecer”) ou o showbiz (“Escola de Rock”), aqui o alvo são as cadeias de fast food, em especial aquela tão conhecida por todos nós, cujo garoto propaganda é um palhaço meio abobalhado. A temática é a mesma de “Super Size Me – A Dieta do Palhaço”. Mas se o afiado documentário do diretor Morgan Spurlock dava um tom de comédia ao relatar os males feitos à saúde pelos sanduíches gigantes, Linklater cria um drama sobre alienação, trabalho escravo, e claro, toda a sujeira – literalmente – que rola por trás das cadeias vendedoras de sanduíches. Desde a produção, o marketing para enfiá-los goela abaixo da população, e os mecanismos que fazem a indústria funcionar: imigrantes mexicanos ilegais que buscam ganhar mais do que na terra natal, empresários que tentam apagar um escândalo que pode sujar o nome da empresa, balconistas que ganham uma miséria, odeiam trabalhar no local e descontam a frustração cuspindo na carne servida ao público, e por aí afora.

X-MenX-Men: O Confronto Final
O resultado poderia ser bem pior. Com o sucesso de público e crítica dos dois primeiros “X-Men”, a cobrança para que o terceiro capítulo da franquia mantivesse o nível dos anteriores era grande. Só que a produção enfrentou vários problemas. Começando pela desistência de Bryan Singer, diretor da série até então, que largou o terceiro filme para fazer “Superman, O Retorno” e deixou os executivos da Fox em polvorosa. E Halle Berry, que deu vários pitis exigindo maior destaque para sua Tempestade. Quando o novo diretor, Brett Ratner, de “A Hora do Rush”, foi anunciado, os fãs torceram o nariz. Será que o cineasta, acostumado à ação pura, manteria o subtexto social da mitologia mutante? Sim, manteve e conseguiu, a partir de um roteiro irregular, com uma avalanche de personagens condensados em 104 minutos de história, metragem inferior aos antecessores, encerrar com dignidade a primeira trilogia dos personagens no cinema. “X-Men – O Confronto Final” é inspirado em duas excepcionais fases dos quadrinhos da Marvel: a Saga da Fênix Negra e o arco de estreia de Joss Whedon (“Buffy”) à frente da HQ Surpreendentes X-Men. Obviamente não há fidelidade completa ao material original. Mesmo com as irregularidades, como um problema claro de continuidade na sequencia da ponte, que inicia em dia claro e, do nada, corta para a noite, o filme mantém a essência da franquia, não tem medo de eliminar heróis (e sabemos que, nos quadrinhos, eles podem ressurgir de repente) e agrada. A mesma cena da ponte é impressionante e remete direto aos gibis. O longa cumpre o papel de encerrar, por cima, a melhor trilogia até então baseada em super-heróis. Aqui, o termo “saga” pode ser usado sem neuras. Pois presenciamos o início, o auge e o fim da batalha entre Xavier e Magneto.

Vôo United 193
Paul Greengrass deu novo fôlego à franquia “Bourne” em 2004 e dois anos depois concebeu um dos melhores, quiçá o melhor, filme sobre o 11 de setembro. No fatídico dia, o voo 93 da United Airlines foi sequestrado por terroristas, que tinham o objetivo de abatê-lo junto a algum símbolo norte-americano. Durante 90 minutos o avião permaneceu no ar. Mas os passageiros se rebelaram. O ritmo de ação dentro da aeronave é frenético, claustrofóbico e faz o espectador ficar angustiado ao lado dos reféns. Rendeu ao cineasta uma indicação ao Oscar de melhor diretor.

O Diabo Veste PradaO Diabo Veste Prada
Dirigido por David Frankel, responsável pela série mais fashion da televisão (“Sex And The City”), é baseado em livro best-seller, virou sucesso de crítica e bilheteria, arrebatando prêmios no Globo de Ouro e indicações ao Oscar. A jovem Andrea Sachs (Anne Hathaway) conseguiu um emprego na Runaway Magazine, principal revista de moda de Nova York. Ela passa a trabalhar como assistente de Miranda Priestly (Meryl Streep), que dirige a publicação. A jornada fará com que a garota se transforme e precise lidar com o gênio da chefe. Streep tem desempenho notável, falando em voz baixa, de cabelo branco e curto. Hathaway é a simpatia de sempre. E ainda há Emily Blunt e a modelo brasileira Gisele Bündchen. Imperdível para quem se interesse pelo universo da moda, influenciou filmes e séries: por exemplo, a atual “Supergirl” e até “Um Senhor Estagiário”, onde a executiva da empresa é feita por Hathaway.

Pequena Miss Sunshine
O filme revelação de 2006 foi uma produção independente. Trata-se de um “road movie” sobre uma família excêntrica, dirigido pela dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris, que superou expectativas, ganhou duas estatuetas no Oscar e apareceu na briga do prêmio de Melhor Filme naquele ano. O sucesso de “Pequena Miss Sunshine” refletiu a então importância crescente da produção independente americana, que tem no Festival de Sundance sua grande vitrine. Geralmente, os filmes do evento se tornam favoritos de cinéfilos antenados, mas de uns anos pra cá vêm chamando atenção até de grandes premiações, como o Oscar. A obra mostra a inesquecível família Hoover. O pai (Greg Kinnear) desenvolveu um método de autoajuda fracassado, o avô (Alan Arkin, Oscar, BAFTA e Independent Spirit Awards de Ator coadjuvante) foi expulso de um asilo por usar drogas, o filho mais velho (Paul Dano, de “Sangue Negro”) fez voto de silêncio, o cunhado (Steve Carrell, de “O Virgem de 40 Anos” e “Agente 86”) é um homossexual suicida e a mãe (Toni Collette, de “Um Grande Garoto”) se vê num casamento infeliz. Nada funciona até a filha caçula e desajeitada (a fofíssima Abigail Breslin, indicada a Atriz coadjuvante) virar finalista de um concurso de beleza e talento para meninas pré-adolescentes – a cena em que ela se apresenta, surpreende, provoca risadas, e dá seu recado de forma simples. As diferenças são postas de lado e a família parte numa viagem de Kombi amarela. Simples e divertido, o longa custou U$ 8 milhões (valor baixo para o cinema americano) e rende uma fortuna em risos e reflexão.

O Grande Truque
Após darem vida nova a Batman no cinema, o diretor Christophr Nolan, e os atores Christian Bale e Michael Caine, se reencontraram no cenário de “O Grande Truque”, uma ambiciosa e engenhosa trama sobre traição, competição e magia, misturando realidade e ficção. Hugh Jackman e Bale interpretam respectivamente os mágicos Robert Angier e Alfred Borden, antigos amigos que, após um acidente, passam a alimentar uma rivalidade crescente. Quando Borden apresenta um truque revolucionário, Angier fica obcecado em descobrir o segredo do rival, entrando num jogo cheio de surpresas e reviravoltas. Nolan voltou a utilizar flashbacks e conseguiu imprimir à trama o suspense de quebra-cabeça digno de seus trabalhos anteriores, auxiliado pelo fabuloso desempenho do elenco, desde a dupla principal até a presença sempre marcante de Michael Caine, a beleza de Scarlett Johansson e a pequena, mas importante, participação do cantor David Bowie, na pele do cientista Nikola Tesla – personagem verídico, inventor dos circuitos trifásicos da energia elétrica.

Scorsese ao lado de Leonardo Di Caprio no set de 'Os infiltrados', filme que finalmente lhe deu o OscarOs Infiltrados
Foi essa refilmagem do oriental “Conflitos Internos” (2002) que rendeu o demorado Oscar de melhor diretor a Martin Scorsese. Se justiça foi feita à sua carreira, talvez não fosse o caso de ser o melhor longa da temporada. Mas ainda assim vale a pena conferi-lo. Mostra os bastidores da relação entre a máfia e a polícia de Boston, com os personagens de Leonardo DiCaprio e Matt Damon se infiltrando respectivamente entre os bandidos e mocinhos. Jack Nicholson é o líder mafioso. O elenco conta ainda com Mark Wahlberg, Alec Baldwin, Martin Sheen, Vera Farmiga e Ray Winstone. Um excelente drama de gângsteres que traz toda a bagagem de seu diretor. Foi premiado pela Academia ainda nas categorias melhor filme, montagem e roteiro adaptado.

O Labirinto do Fauno
Apogeu da dedicação do cineasta mexicano Guilhermo Del Toro (de “Hellboy”) ao gênero fantástico, transformada em poesia. Assim como no excelente terror “A Espinha do Diabo” (2001), o diretor utilizou elementos fantásticos e crianças para falar da Guerra Civil Espanhola, forjando quase uma continuação do filme anterior. A trama se passa em 1944. A Guerra Civil oficialmente acabou, mas, ao norte de Navarra, um grupo de rebeldes continua a lutar. Ofélia (Ivana Baquero), 10 anos, muda-se com a mãe (Ariadna Gil) para a região, buscando encontrar o padrasto, o Capitão Vidal (Sergi Lopez, de “Coisas Belas e Sujas”, 2002, encarnando um sádico). Ele é um oficial fascista determinado a exterminar os guerrilheiros locais. A menina acaba fazendo amizade com a cozinheira da casa, Mercedes (Maribel Verdú), espécie de contato secreto dos rebeldes. Mas seu maior passatempo é passear pelo jardim da imensa mansão, onde descobre um labirinto, que a leva a um mundo de fantasias, influenciando a vida de todos à sua volta. Fotografado de modo espetacular por Guillermo Navarro, o longa apresenta um universo triste e sombrio, porém encantador. E repete o apuro visual de “Hellboy” (obra de orçamentos 13 vezes maior) com a intensificação das imagens em cores fortes e tonalidades cinzentas. Assim como Peter Jackson (diretor de “O Senhor dos Anéis”), Del Toro é daqueles fãs dos efeitos especiais à moda antiga, utilizando maquiagem (para que Doug Jones fosse caracterizado como o “Homem Pálido” eram necessárias 5 horas de preparação por dia) e próteses de borracha. A obra surpreende pelo fato de ser esteticamente ousada e ter custado U$ 5 milhões, valor irrisório para Hollywood. O belo resultado técnico foi comprovado com as três premiações no Oscar, em Direção de Arte, Fotografia e Maquiagem.

Imagem da animação 'Happy feet'Happy Feet – O Pinguim
Pegando a deixa do documentário vencedor do Oscar “A Marcha dos Pinguins” e dos coadjuvantes de “Madagascar” (ambos filmes de 2005), o diretor George Miller (“Mad Max”) colocou os pinguins definitivamente na moda da animação (depois ainda teve o divertido “Tá Dando Onda”, uma continuação deste e “Os Pinguins de Madagascar”). É a história do pequeno Mano, menosprezado entre sua comunidade por não saber cantar, apenas sapatear. Mano sai em busca dos ETs (no caso, nós humanos) para obter respostas sobre a poluição que vem acabando com os peixes, alimento dos pinguins – e para tentar resgatar o respeito dos outros de sua espécie e o amor dos pais e de Gloria. Brilhante tecnicamente (é bom prestar atenção em cada expressão dos personagens), a animação dublada por Elijah Wood, Hugh Jackman, Nicole Kidman, Robin Williams e Brittany Murphy consegue agradar até adultos mais exigentes. O desenho ainda tem uma mensagem inteligente sobre desigualdade, preconceito, fanatismo religioso e preservação do meio ambiente. Tudo com leveza, sem soar banal. Os números musicais impressionam.

Fonte da Vida
O terceiro longa do cineasta Darren Aronofsky – os anteriores foram os excelentes “Pi” (1998) e “Réquiem para um Sonho” (2000) – é um maravilhoso espetáculo visual e pode ser considerado herdeiro de obras como “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick, e “Solaris”, de Andrei Tarkovsky.  De ambição artística e filosófica, o filme trilha um caminho narrativo pouco convencional, mas consegue, por meio das boas interpretações do elenco, da espetacular trilha sonora de Clint Mansell, no arroubo dos efeitos visuais (produzidos com experiências químicas em laboratórios, sem a utilização de computação gráfica) e nas metáforas que remetem a várias culturas, realizar um tratado sobre a vida e a inevitabilidade morte – no caso, vista como recomeço. O filme evita os clichês sobre o tema ao levar o espectador a três diferentes épocas. São três histórias paralelas, em que personagens interpretados pelo Wolverine Hugh Jackman e Rachel Weisz enfrentam o mesmo dilema.  Na Espanha do século 16, o navegador Tomas Creo parte, a pedido de sua Rainha, para o Novo Mundo, em busca da lendária árvore da vida. Nos dias atuais, a mulher do pesquisador Tommy Creo está morrendo de câncer, e ele busca desesperadamente desenvolver uma cura para a doença. E num futuro distante, o astronauta Tom está perto das respostas para as questões fundamentais da existência.  Subestimado, é o tipo de filme que deveria ganhar mais reconhecimento com a passagem do tempo e até se tornar cult. Trata-se de um filme intenso, belo e poético.

Tom Cruise escala prédio mais alto do mundo em trailer de novo 'Missão impossível'Missão Impossível 3
O melhor da franquia que sempre manteve um ótimo padrão de qualidade. Não à toa, este foi dirigido por J.J. Abrams (“Star Wars: O Despertar da Força”) e traz um vilão de dar arrepios, vivido com intensidade por Philip Seymour Hoffman.  O agente Ethan Hunt (Tom Cruise) trabalha apenas como treinador de novos agentes e leva uma vida tranquila ao lado de Julia (Michelle Monaghan). Mas volta à ativa quando sua pupila Lindsey (Keri Russell) é capturada por Owen Davian (Hoffman), um negociante de armas sem escrúpulos. Para resgatá-la é reunida uma nova equipe, formada por seu velho amigo Luther Stickell (Ving Rhames), o especialista em transportes Declan (Jonathan Rhys Meyers) e Zhen (Maggie Q). Com ação do começo ao fim e grandes momentos de tensão, apresenta sequências espetaculares como aquela no Vaticano.

Rocky Balboa
Nove anos antes do sucesso de “Creed: Nascido Para Lutar”… Sylvester Stallone, assim como seu célebre personagem, deu a volta por cima no último round. Se Rocky Balboa costumava apanhar durante vários assaltos para nocautear o adversário no último, Sly, aos 60 anos, e após algumas continuações de qualidade duvidosa, resolveu encerrar de forma digna a série e entregou aos fãs um longa que retomou a simplicidade do clássico – e vencedor do Oscar de melhor filme de 1977 -, focando o drama, ao invés da ação de videoclipe. Batizou a obra simplesmente de “Rocky Balboa” e fez um tratado sobre a chegada da velhice. Aposentado dos ringues, Balboa é dono de um restaurante, viúvo e ignorado pelo filho. Ganha a chance de voltar e se sentir vivo quando uma jogada de marketing coloca-o contra o então campeão mundial dos pesos-pesados: ótimo lutador, mas sem carisma e antipático. Tentando fugir de alguns clichês, o rival não é propriamente um vilão e mesmo o que deveria ser par romântico é amizade. Marcas registradas como a trilha de Bill Conti, o treinamento, a subida das escadas do Palácio da Justiça da Filadélfia, o mau humor do cunhado Paulie e flashbacks fazem a alegria dos fãs.

Daniel Craig é um dos atores que representou o 007007 – Cassino Royale
Esqueça a versão cinematográfica de 1967, espécie de paródia (disponível em DVD). “007 – Cassino Royale” representou o recomeço de uma franquia que até esta produção estava em queda livre, culminando no péssimo “007 – Um Novo Dia para Morrer” (2002).  Embora já tivesse trabalhado na série (“007 Contra Goldeneye”, 1995), o diretor Martin Campbell radicalizou. Aposentou o James Bond charmoso de Pierce Brosnan e as cenas de foguetes e lasers para dar lugar a cenas verossímeis de ação e principalmente a um espião truculento, sem medo de sangrar, interpretado por Daniel Craig. O ator é um antigalã baixinho e orelhudo, mas esbanja músculos e testosterona (sem deixar de lado uma inteligência acima da média) e vestiu como ninguém o smoking de Bond. O reinício da trajetória do personagem nos cinemas foi total, pois o filme apresenta a primeira aventura do agente, a partir do momento em que vira um “00” (espião com licença para matar). É a missão clássica do livro em que Ian Flemming estreia James Bond: derrotar o banqueiro de organizações terroristas LeChifre (Mads Mikkelsen) num jogo de pôquer – no cassino que dá nome à história. Para tanto, acaba se envolvendo amorosamente com Vesper Lynd (Eva Green – Bondgirl completamente diferente das anteriores, charmosa, e que não precisa de um corpo siliconado para esbanjar sensualidade), sua parceira e “fiadora” na missão.  Ação de tirar o fôlego, o longa inovou ao usar técnicas de um esporte chamado “parkour” (utilizadas também em “13º Distrito” e “Ong Bak”) para dar intensidade às perseguições e conta com ótimo elenco, que ainda tem Judi Dench como a chefona M e Jeffrey Wright vivendo o espião Felix Leiter. Destaque ainda para o compositor David Arnold, em sua quarta participação na franquia, que guarda, de forma inteligente, o tema clássico de Monty Norman para momentos chaves do personagem.

Rodrigo Santoro como o deus Xerxes em 300, a Ascensão do Império300
Em 480 a.C., durante a Segunda Guerra Médica, num estreito montanhoso chamado Termópilas (“portões quentes”), no nordeste da Grécia, trezentos espartanos sob o comando do rei Leônidas, acompanhados por não mais de 7 000 (os dados variam) aliados de outras cidades gregas, enfrentaram cerca de 250 mil persas liderados pelo rei Xerxes. Os gregos das outras cidades fugiram, temendo o desfecho inevitável, mas os trezentos espartanos, os guerreiros mais disciplinados da época, continuaram lutando e resistiram por três dias, aproveitando a geografia local, antes de serem aniquilados.  Esse exemplo de bravura, somado à grande quantidade de baixas persas, serviu de incentivo para que um tempo depois toda a Grécia afugentasse os invasores. Considerado um dos maiores combates da história, a Batalha das Termópilas é o tema de “300”, longa que catapultou a carreira do diretor Zack Snyder, Foi sucesso de bilheteria e é um filme belo, violento, adaptação praticamente perfeita dos quadrinhos de Frank Miller, com o brasileiro Rodrigo Santoro em papel importante. Para cativar a plateia, certas liberdades foram tomadas pelos roteiristas em relação ao gibi. Paralelamente ao conflito, foi dado um tom de sacrifício ao romance entre Leônidas (Gerard Butler, de “O Fantasma da Ópera”) e a Rainha Gorgo (Lena Headey, linda). Utilizando linguagem de videoclipe, acelerando momentos dramáticos e pausando a câmera em instantes de ação, Snyder concebeu uma obra estilizada, dando um quê de beleza à violência e tratando com igual importância tanto as cenas principais, como a atuação dos coadjuvantes. O orçamento do filme foi de U$ 60 milhões, pouco para um épico, e rendeu mais que o triplo, liderando as bilheterias norte-americanas nas duas primeiras semanas de exibição.

Filhos da Esperança
Uma verdadeira aula de narrativa e técnica, além de um excelente filme de ação, nas mãos de Alfonso Cuarón (“Gravidade”). O roteiro, coescrito pelo próprio cineasta, é baseado no livro de P.D.James.  Passa-se em 2027, em meio a um cenário apocalíptico. As mulheres não conseguem mais engravidar, o ser humano mais jovem do mundo tem 18 anos e a Inglaterra parece ser o único país que ainda possui um governo organizado – e por isto é vista como tábua de salvação por imigrantes de toda a Europa, mergulhando o país no caos e no regime militar. No meio desse desastre humano, Theodore Faron (Clive Owen), um ex-ativista desiludido, é procurado por sua ex-esposa Julian (Julianne Moore), integrante de um grupo clandestino, para transportar e proteger uma jovem misteriosamente grávida. A jornada ajuda a revelar a loucura de um planeta à beira da extinção e leva o protagonista a largar tudo pela missão de proteger a futura mãe, que pode ser a última chance de salvação da humanidade. Com planos geniais de tirar o fôlego e sequências filmadas com o realismo do fotojornalismo, o filme impressiona, gruda o espectador na tela e não o solta mais. Teve três indicações ao Oscar, em Roteiro Adaptado, Fotografia e Edição. Merecia muito, muito mais. Um dos grandes filmes daquela década, que não fez sucesso de bilheteria, mas que deve ser descoberto.

A Vida dos Outros
Ganhou merecidamente o Oscar de filme em língua estrangeira. Georg Dreyman (Sebastian Koch, de “A Garota Dinamarquesa” e “A Espiã”) é o maior dramaturgo da Alemanha Oriental, sendo por muitos considerado o modelo perfeito de cidadão para o país, já que não contesta o governo nem seu regime político. Apesar disto, acaba sendo vigiado pelo governo, pois alguns desconfiam de suas atitudes. Obra-prima do cinema alemão contemporâneo, é um retrato denso da paranoia vigente no período pós Segunda Guerra e Guerra Fria. Traz grandes atuações, em especial Ulrich Mühe, que faleceria um ano depois do lançamento do filme.

O ator Sacha Baron Cohen em cartaz de 'Borat' Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América
Com “pequeno” orçamento (U$18 milhões) e lançado em menos de mil salas nos EUA, o filme já deu lucro na primeira semana, além de ter rendido protestos no Cazaquistão, um mandato de prisão e um interrogatório feito pelo serviço secreto. Esses foram apenas alguns dos feitos de “Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América”, estrelado pelo comediante Sacha Baron Cohen (vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator Comédia/Musical), e que deliciosamente sacaneia os EUA. Em tom de documentário fake, o filme acompanha uma “reportagem” do preconceituoso Borat, enviado pelo governo do Cazaquistão para aprender sobre a cultura americana. E nada escapa à ironia do repórter. Feministas, famílias tradicionais, caubóis e religiosos são desmascarados. Ensaiadas ou não, cenas como a briga entre Borat e seu produtor Azamat, ambos pelados, e o ataque à Pamela Anderson, garantem muitas gargalhadas. Os filmes seguintes de Cohen (“Bruno” e “O Ditador”) repetiriam a fórmula de humor sem o mesmo sucesso.

À Procura da Felicidade
Traz Will Smith no auge e trabalhando ao lado do filho Jaden (simpático na ocasião, antes de crescer e perder a graça). O astro protagoniza a história verídica do empreendedor Chris Gardner, que passa por poucas e boas para conseguir um estágio em uma corretora de ações, sonhando que, ao fim do prazo, seja contratado. Em suas desventuras, precisa dormir no metrô com o filho e perde a esposa. História de superação ideal para incentivar pessoas e que se sustenta no carisma de Smith.

Pecados Íntimos
Todd Field (“Entre Quatro Paredes”) dirige este polêmico filme escrito por Tom Perrotta baseado em livro de sua autoria. Foi indicado ao Oscar de melhor atriz (Kate Winslet), ator coadjuvante (Jackie Earle Harley) e roteiro adaptado. Acompanha a história de dois casais que vivem em uma cidade suburbana. A personagem de Winslet está infeliz no casamento e se envolve com Patrick Wilson, um sujeito bon vivant, que tem tempo para se exercitar e cuidar do filho enquanto sua esposa (Jennifer Connelly) trabalha. Há ainda Earle Harley na pele de um pedófilo que saiu da cadeira e coloca a cidadezinha em polvorosa. Impiedoso, o roteiro desmascara a hipocrisia e a intolerância da sociedade.

O Último Rei da Escócia
É o primeiro filme de ficção dirigido por Kevin Macdonald, que já havia vencido o Oscar de Melhor Documentário (“Um Dia em Setembro”,1999). A trama utiliza a ida de um médico escocês para Uganda para mostrar a ascensão verídica do sanguinário ditador Idi Amim (Forest Whitaker). O Dr. Nicholas Garrigan é um personagem fictício (vivido por James McAvoy), mas Amin existiu exatamente como filmado. Nicholas vai ao país africano em busca de novas aventuras e com a missão de utilizar a medicina numa sociedade necessitada. Logo, é convidado para ser o médico particular do recém “empossado” general, celebrado pelo povo por prometer novas escolas, estradas e hospitais. Animado, no início, pela possibilidade de contribuir com um grande líder mundial, aos poucos o médico começa a perceber a paranoia crescente do governante e acaba usado como a “voz branca” do ditador. Escrito por Jeremy Brock e Peter Morgan (roteirista de “A Rainha“), baseado em livro de Giles Foden, e rodado em Uganda, onde os fatos ocorreram, o longa chama atenção pelas interpretações extraordinárias. Whitaker  se superou e acabou vencendo o Oscar de Melhor Ator, mas McAvoy não fica atrás e mostra o talento que seria confirmado no maravilhoso “Desejo e Reparação”. O título refere-se ao modo com que o próprio Amin costumava chamar a si próprio, como “Conquistador do Império Britânico”.

Cartas de Iwo Jima
Clint Eastwood merece palmas. Nâo é qualquer um, próximo a completar 77 anos (em 2007), que teria a coragem e a energia de rodar dois filmes ao mesmo tempo, buscando retratar visões opostas de uma mesma guerra – no caso, a batalha de Iwo Jima, entre Estados Unidos e Japão, pela Segunda Guerra Mundial. Ainda mais sendo ele norte-americano, um dos lados do conflito – algo parecido foi realizado no irregular “Tora! Tora! Tora!”, de 1970, sobre o ataque a Pearl Harbor, também utilizando os dois lados da batalha.  Ele poderia muito bem cair no erro de retratar compatriotas com heroísmo, e os oponentes como os vilões. Não só desfez mitos no bom “A Conquista da Honra”, a visão norte-americana, como tratou com respeito japoneses no excelente e superior “Cartas de Iwo Jima”. O projeto só poderia dar certo, a começar pelas pessoas envolvidas. Steven Spielberg foi produtor ao lado de Clint, e os roteiros contaram com a colaboração de Paul Haggis (diretor e roteirista de “Crash – No Limite”, vencedor do Oscar de Melhor Filme).  E Clint alcançou um belo resultado artístico, concebendo uma obra praticamente toda falada em japonês (algo corajoso, já que o público norte-americano detesta legendas) e incrivelmente de orçamento bem inferior à sua outra metade.

Helen Mirren como a Rainha Elizabeth em cena de 'A Rainha'A Rainha
Escrito de forma jornalística por Peter Morgan (“O Último Rei da Escócia”) e dirigido com sobriedade por Stephen Frears (“Alta Fidelidade”), “A Rainha” revela os bastidores do poder britânico durante a primeira semana de setembro de 1997, logo após a morte de Lady Di. Enquanto a notícia da morte da princesa Diana paralisa o Reino Unido, a rainha Elizabeth II (Helen Mirren) se fecha com a família real no palácio Balmoral, na Escócia, incapaz de compreender a reação emocional do público. O recém empossado Primeiro Ministro Tony Blair (Michael Sheen, de “Frox/Nixon”) tem a difícil missão de alertar a Rainha da situação de revolta nacional contra a postura burocrática da monarquia. Com fotografia do brasileiro Affonso Beato (injustamente esquecido pela Academia), o filme deu o Oscar à excepcional interpretação de Helen Mirren – que em 2006 ainda viveu Elizabeth I num telefilme, pelo qual também foi premiada (Globo de Ouro). Para ter uma ideia, após a exibição do filme no Festival de Veneza, a atriz foi aplaudida de pé por cinco minutos.

Notas Sobre Um Escândalo
Drama e obsessão permeiam a relação entre professoras, em atuações que renderam indicações ao Oscar a suas intérpretes. Ao flagrar a educadora bonita (Cate Blanchett) com um aluno, a veterana (Judi Dench) resolve chantageá-la por seu afeto. As duas magníficas atrizes conferem veracidade ao filme, baseado no livro “Anotações Sobre Um Escândalo”, de Zoë Heller. A trilha é de Philip Glass e o roteiro foi escrito pelo dramaturgo Patrick Marber, autor da peça que deu origem a “Closer: Perto Demais”.

Volver
A relação estreita do cineasta Pedro Almodóvar com o universo feminino é mantida neste filme estrelado por Penélope Cruz, que foi indicada ao Oscar de melhor atriz pelo papel, pois está à vontade falando seu idioma de origem – depois ganharia o prêmio de atriz coadjuvante por “Vicky Cristina Barcelona”. Ela interpreta Raimunda, jovem mãe, trabalhadora e atraente, que tem um marido desempregado e uma filha adolescente. Como a família enfrenta problemas financeiros, a protagonista acumula vários empregos. Sole (Lola Dueñas), sua irmã mais velha, possui um salão de beleza ilegal e vive sozinha desde que o companheiro a abandonou para fugir com uma de suas clientes. Um dia Sole liga para Raimunda para lhe contar que a tia delas, Paula (Yohana Cobo), faleceu. Raimunda adorava a tia, mas não pode comparecer ao enterro, pois pouco antes do telefonema da irmã encontrou o marido morto na cozinha, com uma faca enterrada no peito. A filha de Raimunda confessa que matou o pai, que estava bêbado e queria abusar dela sexualmente. A partir de então Raimunda busca meios de salvar a filha, enquanto que Sole viaja sozinha até uma aldeia para o funeral da tia. Pelo caminho ainda aparecerá o fantasma da mãe de ambas. Almodóvar protege suas personagens e aborda o machismo vigente na cultura espanhola, ainda que insira humor em diversas situações. Se não é dos melhores filmes dele, ainda assim é interessante e provocante.

O Hospedeiro, filme coreanoO Hospedeiro
Hie-bong (Byeon Hie-bong) e sua peculiar família moram na beira do rio Han, onde possuem uma barraca de comida no parque. Seu filho mais velho, Kang-du (Song Kang-ho), tem 40 anos, mas é meio abobalhado. A filha do meio é arqueira do time olímpico coreano e perde a chance do ouro na Olimpíada de Sidney porque ultrapassa o tempo permitido. Já o filho mais novo está desempregado e bebe pra burro. Todos cuidam da menina Hyun-seo (Ko Ah-sung), filha de Kang-du, cuja mãe saiu de casa há muito tempo. Um dia surge um monstro no rio, fruto de substâncias tóxicas despejadas por um laboratório a comando de um norte-americano, causando terror nas margens e dando um sumiço na menina. A família acaba se unindo e sai à caça da criatura. “O Hospedeiro” é um filme de monstro, possui as características do gênero, porém tem qualidades peculiares. É uma aventura dramática com teor sociopolítico. Bong Joon-ho (do espetacular “Memórias de um Assassino” e que faria recentemente “O Expresso do Amanhã”), junto com os co-roteiristas Baek Cheol-Hyeon e Hah Joon-Won, utilizou um incidente real que aconteceu em 2000 na Coreia do Sul para falar da desconfiança do povo em relação ao governo e suas mentiras. No caso, o cineasta aproveita ainda para criticar a intervenção norte-americana em terras estrangeiras. A obra acaba se revelando um ótimo mix de terror, comédia e cinema trash.

O Despertar de Uma Paixão
Adaptada do romance de 1925, “O Véu Pintado”, escrito por W. Somerset Maugham, a trama retrata a China do início do século passado. Norton vive o bacteriologista Walter Fane. Watts interpreta Kitty, moça mimada que pode ficar para titia (atrocidade aos olhos da época) e vê no rapaz uma boa chance de sair das asas da mãe. O desinteresse pelo marido a leva a um caso extraconjugal. Ao descobrir, Walter decide se vingar: ou ela se junta a ele em uma viagem ao interior da China ou enfrenta o escândalo e é taxada de adúltera. Com a viagem para o coração do Oriente, onde Walter trabalha em áreas empesteadas por uma epidemia de cólera (importante lembrar que naquele período a doença não tinha uma cura como atualmente), Kitty vai finalmente descobrindo o marido e o que fazer com sua vida. A história ainda tem um importante recado sobre o colonialismo que o ocidente impõe sobre as outras nações. Trata-se de cinema com C maiúsculo, redondo, bonito, bem dirigido e intenso, capaz de causar várias reflexões sobre redenção, relacionamento, autoconhecimento e conhecimento ao próximo. É daqueles filmes em que a plateia dificilmente sai sem algum tipo de sentimento forte.

O ano que meus pais saíram de férias será apresentado em FlorianópolisO Ano em que Meus Pais Saíram de Férias
Segundo longa (o anterior foi “Castelo Rá-Tim-Bum – O Filme”) dirigido por Cao Hamburguer, consegue transitar com extrema leveza entre o drama e a comédia de costumes, focando sua narrativa em eventos marcantes da recente história brasileira – a ditadura e o tri mundial no México. O cineasta dirige com competência o elenco mirim, herança dos anos em que esteve à frente da série infantil; A trama se passa em 1970, auge do regime militar e ano de Copa do Mundo. O povo vê com desconfiança a seleção dirigida por Zagallo (“Pelé e Tostão não podem jogar juntos”, dizia-se à época) e estudantes sofrem com a perseguição de soldados. Mauro tem 12 anos, gosta de jogar botão e sabe que ser goleiro é a posição mais solitária de um time. Ele vê seus pais, militantes contra a ditadura, partirem de férias (na verdade uma fuga) e vai morar com o avô (Paulo Autran, em pequena ponta), no Bom Retiro, em São Paulo. O que ninguém esperava é que o avô morresse no mesmo dia e é então que o menino, assim como um arqueiro, se vê sozinho. Sua nova residência é um prédio habitado basicamente por judeus, só que Mauro é um gói e tem de lidar, além da diferença religiosa, com o conflito de gerações, já que seu primeiro contato no novo local é com Shlomo (Germano Haiut), um senhor judeu ferrenho. O garoto então resolve passar os dias ao telefone, esperando, pois seu pai prometeu voltar antes da Copa. Em parte, Cao Hamburguer levou um trecho de sua própria vida para a tela, pois assistiu a prisão do pai judeu e da mãe católica pela ditadura e atuou como goleiro na infância. E o que impressiona é que o diretor conseguiu, com todas essas referências, criar uma obra sensível, redonda, e com momentos geniais.

A Espiã
Morte, sexo, individualidade e nudez… Não nessa mesma ordem, esses três temas são alguns dos pilares do mundo caótico em que vivemos atualmente. E também são temas costumeiramente abordados pelo cineasta holandês Paul Verhoeven. Diretor de “Robocop” e “Instinto Selvagem”, ele se tornou conhecido em Hollywood graças ao sucesso dessas duas produções, mas acabou caindo no ostracismo após as fracas bilheterias de “Showgirls” e “O Homem Sem Sombra”. Então, para dar uma reerguida na carreira, nada melhor que voltar à terra natal, certo? Paul foi de mala e cuia para a Holanda, juntou um elenco desconhecido da América, porém excelente, e realizou uma obra que utiliza um amor em tese impossível na Segunda Guerra Mundial como pano de fundo para tratar de seus temas prediletos. “A Espiã” levou vinte anos entre pesquisas e produção para ficar pronto e tem história baseada em fatos reais – os personagens são fictícios. A atriz também holandesa Carice van Houten protagoniza como a judia Rachel e surge em cena dando aulas para um grupo de crianças num kibbutz em Israel. Corta. Um flashback reconta a trajetória da moça, uma ex-cantora, durante os últimos anos do conflito entre nazistas e aliados. Separada dos parentes, e escondida na casa de uma família católica, que a obriga a decorar versos da Bíblia em troca do “esconderijo”, ela logo recebe a oferta de ajuda para fugir da Holanda ocupada pelos crápulas de Hitler. No barco em que acontece a fuga, reencontra os pais e o irmão, e juntos com outros judeus, acabam sendo vítimas de uma armadilha – ela é a única sobrevivente. Algum tempo depois, se junta à resistência, adota o nome Ellis de Vries e recebe a missão – suicida – de se infiltrar no escritório do chefe da Gestapo no país, Ludwig Müntze (Sebastian Koch), tornando-se amante deste. Para acrescentar uma boa dose de drama à situação da personagem, ambos acabam se apaixonando, e mesmo após Müntze descobrir a verdadeira identidade da amante, passa a protegê-la.

Brendan Routh em 'Superman: o retorno' Superman, O Retorno
Bryan Singer abandonou a franquia “X-men” para surpresa de todos e assumiu o projeto intitulado “Superman Returns”, convocando um ator desconhecido para o papel (Brandon Routh) e, à maneira de Donner, amparando o jovem com atores mais experientes, a exemplo de Kevin Spacey (Lex Luthor) e Frank Langela (Perry White). Foram dadas chances também para os novatos Kate Bosworth (Lois Lane), indicada para viver a personagem por Spacey, com quem contracenou em “Uma Vida Sem Limites”, e Sam Huntington (Jimmy Olsen). O diretor decidiu não zerar a cronologia do Super no cinema (tal qual Christopher Nolan fez em “Batman Begins” em 2005), dando sequência à história após o segundo e ignorando os dois últimos e confusos episódios da série com Reeve. Mas “O Retorno” não foi tão bem nas bilheterias como esperado pela Warner e dividiu a crítica. Routh e  Bosworth foram considerados jovens demais para os papeis principais, a história foca muito mais o romance do que a ação e ficou provado que o Super-Homem é um herói fora de época. Num período em que heróis atormentados ou cínicos estavam dando as cartas no cinema (Batman e Wolverine), o público do século XXI não deu chance a um personagem sem defeitos, cavalheiro, honesto, sincero, escoteiro. O fato do Superman não trocar sopapos com ninguém também não ajudou. No entanto, é importante ressaltar que “Superman Returns” não é essa porcaria que muitos consideram. O filme custou cerca de US$ 200 milhões e rendeu o dobro ao redor do mundo, resultado aquém de um blockbuster protagonizado pelo principal super-herói dos quadrinhos. Além disso, conta com cenas espetaculares, como aquela em que o azulão salva um avião em queda, ou aquela em que ele, mesmo afetado pela kryptonita, se desfaz no espaço do continente rochoso criado por Lex Luthor. A metáfora para a jornada de Jesus Cristo e a inclusão de um filho para o herói são pontos interessantes na trama, mas que poderiam ter melhor desenvolvimento.

Separados Pelo Casamento
Do diretor do recente “Homem Formiga” (Peyton Reed), foi vendido à época como comédia romântica. Apesar de contar com momentos cômicos, há bastante drama e situações que muitas pessoas vivenciam: o desgaste da relação, provocações, desentendimentos, arrependimentos, etc. Brooke (Jennifer Aniston) e Gary (Vince Vaughn) estão juntos há dois anos e moram no mesmo apartamento. Já não possuem a mesma paixão do início e a rotina os leva ao fim da relação. Mas nenhum quer deixar o apartamento. A saída: transformar a vida um dos outro num inferno. A química entre os atores é verdadeira: ambos ficariam juntos também na vida real.

"O Despertar de Uma Paixão".
“O Despertar de Uma Paixão”.

 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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