Oscar 2016 | A ausência de negros entre os indicados

Spike Lee.
Spike Lee.

 

Spike Lee, Will Smith e Jada Pinkett Smith anunciaram que boicotarão o Oscar 2016. Pelo segundo ano consecutivo nenhum negro foi indicado nas categorias de atuação. O cineasta Michael Morre e o ator e diretor George Clooney também se manifestaram sobre a falta de diversidade nos concorrentes. A presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs (uma mulher negra), se declarou decepcionada com a situação e promete mudanças na entidade.

Segundo o jornal Los Angeles Times divulgou em 2012, 94% dos atores integrantes da Academia são brancos – 77% deles, do sexo masculino.

O Hollywood Reporter noticiou que 24% dos indicados este ano são mulheres. Nas categorias de atuação, as estatuetas são divididas entre os sexos. Mas nas demais, homens e mulheres concorrem juntos. Para dar uma ideia geral: somente quatro diretoras foram indicadas à categoria na história do Oscar. A primeira a ganhar o prêmio foi Kathryn Bigelow, em 2010, por “Guerra ao Terror”. Para direção de fotografia jamais uma profissional foi nomeada.

“Todo mundo é inocente até que se prove o contrário” diz o ditado. Inicialmente, não podemos taxar toda a Academia de racista. Não dá para generalizar. Mas há algo no mínimo estranho quando trabalhos como o da diretora Ava DuVernay, de “Selma”, do ano passado, são completamente esnobados. Naquela edição, o longa sobre a famosa marcha pelos direitos civis liderada por Martin Luther King Jr. teve somente duas indicações: filme e canção (“Glory”, que saiu vitoriosa ao menos).

Idris Elba em cena de 'Beasts of no nation', primeiro longa do NetflixAlguns poderão citar os prêmios dados a Denzel Washington, Morgan Freeman, Halle Berry, “12 Anos de Escravidão”, Lupita Nyong’o, etc. São casos isolados que não refletem a pluralidade do povo norte-americano e nem uma tendência: ainda a passos largos, grandes produções passam a contar com negros e mulheres como protagonistas. Talvez não por que os produtores desejem a inclusão. Mas por que o público tem reagido muito bem à diversidade. $$$.

O último “Star Wars: O Despertar da Força” foi exemplo disso, com John Boyega e Daisy Ridley nos papéis principais: virou uma das maiores bilheterias da história. No Brasil,  houve um reflexo positivo entre garotos negros que se viram representados na telona. A franquia “Rocky” ganhou sobrevida graças ao talento de dois negros: o cineasta Ryan Coogler e o ator Michael B. Jordan. “Straight Outta Compton”, cinebiografia do grupo de rap N.W.A. bateu recordes de vendas também. Sem contar as séries voltadas a jovens adultos estreladas por mulheres: Jennifer Lawrence em “Jogos Vorazes” e Shailene Woodley em “A Saga Divergente”. Até “Mad Max” teve como protagonista não o personagem que dá título ao filme, mas a Furiosa interpretada por Charlize Theron – o longa teve dez indicações e justamente ela, que leva o filme nas costas, foi esquecida.

Will Smith no filme 'Um homem entre gigantes'Ou seja: a plateia – exceto alguns ignorantes que questionam casos como o de Idris Elba para possível novo 007 e fazem algum barulho nas redes sociais – tem aceito as diferenças. E os votantes da Academia, por que não? O que faz com que considerem algum trabalho melhor que o outro? Alguns casos são trabalhos tão bons, tão intensos, que fica definir qual é o melhor. E quais os critérios na hora da decisão? Amizade? Proximidade? Influência? Racismo?

Vários dos casos acima poderiam figurar nas listas de indicados do Oscar 2016. Porém, vejam: “Straight Outta Competon” só conseguiu uma indicação, pelo roteiro de Jonathan Herman e Andrea Berloff. “Creed” teve apenas Sylvester Stallone – merecidamente – indicado. Detalhe: Hermann, Berloff e Sly são brancos.

Procuramos acreditar, é importante reiterar, que os votantes realmente consideraram melhores os trabalhos daqueles que figuram entre os indicados. No entanto, Jennifer Lawrence, por exemplo, realmente merecia figurar na lista final? Aí alguém pode pedir a citação de alguma atriz negra que deveria estar no lugar de J. Law. Para as mulheres negras a situação é mais complicada ainda: dificilmente conseguem papeis principais em filmes de ação, comédias românticas e dramas.

Michael B. Jordan e Tessa Thompson em 'Creed: nascido para lutar'Confesso que fiquei receoso em abordar um tema delicado: com medo de ser taxado de “afroconveniente” ou carimbado por qualquer lado da discussão – e discussões assim atualmente reúnem lados cada vez mais radicais especialmente nas redes sociais. Mas conversei o meu amigo Orlando Rodrigues, coordenador do projeto Muito Prazer, Meu Nome é Hip Hop! e articulador do movimento negro em Santos, litoral de São Paulo, que achou importante contribuir para a conversa a respeito do tema.

Por isso, o blog decidiu fazer uma lista que representa a falta de diversidade no Oscar. Para este post, são profissionais negros da indústria hollywoodiana que deveriam estar indicados este ano. Não questionamos a qualidade de quem conseguiu indicação. Apenas damos o nosso ponto de vista de algo que precisa ser cada vez mais debatido.

Ryan Coogler
O diretor de 29 anos despontou no ótimo “Fruitvale Station: A Última Parada” e confirma seu talento em “Creed: Nascido Para Lutar”, misto de continuação, remake e reboot da série “Rocky”. Os dois rounds filmados em plano-sequência demonstram apuro técnico. Por muito menos, outros cineastas já foram indicados.

Will Smith
O astro que já foi indicado duas vezes tem grande atuação em “Um Homem Entre Gigantes”.

Michael B. Jordan
O jovem ator faz com que o público se imposte e se identifique com seu Adonis Creed, contracenando ante o carisma de Sylvester Stallone. Ok, Matt Damon saiu-se bem em “Perdido em Marte”, mas colocando as atuações lado a lado, quem está melhor?

Samuel L. Jackson
Excepcional em “O Oito Odiados”, poderia ser indicado como ator coadjuvante.

Mya Taylor
Atriz transgênera que foi indicada ao Independent Spirit Awards de coadjuvante por seu trabalho extremamente elogiado em “Tangerine”.

Idris Elba
Sempre excelente, destaca-se em “Beast of No Nation”. Já poderia ter sido indicado por “Mandela: O Caminho Para a Liberdade (2013)”, inclusive.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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