High School Musical completa 10 anos: Relembre a trilogia

Versão norte-americana de “Rebeldes”? Historinha à la “Malhação”? Muito se falou de “High School Musical”, produção planejada como um dos 16 telefilmes exibidos pelo canal pago Disney Channel em 2006 e que acabou se tornando um fenômeno mundial, pegando a própria Disney de surpresa e arrebatando dois prêmios Emmy (o Oscar televisivo) de Programa Infantil e Coreografia. A atração chegou à televisão com um orçamento “modesto” de US$ 4,2 milhões, elenco desconhecido do grande público, mas com uma história eficiente e universal, mesclando drama teen e gênero musical. Virou fenômeno e completou dez anos na última quarta-feira (20). Vamos relembrar a trilogia.

Ashley Tisdale caracterizada como a personagem Sharpay O telefilme foi visto por mais de 200 milhões de pessoas em 100 países. Muitos estranharam a dimensão deste sucesso, afinal, em teoria, tantas outras produções voltadas ao público infanto-juvenil foram produzidas sem causar metade desse frenesi. A verdade é que “High School Musical” conseguiu aliar, de forma competente, um roteiro sobre as ansiedades de seu público-alvo – a vontade de mudar, crescer, fazer o que dá vontade sem precisar atender à pressão de pais, amigos, professores – com músicas e coreografias empolgantes.

A trama mostrava Troy Bolton (Zac Efron), garoto popular, que conquista o coração da estudiosa Gabriella Montez (Vanessa Hudgens). Durante as férias eles descobrem, em um concurso de karaokê, que são apaixonados pelo canto e se interassam um pelo outro. Eles se reencontram no início das aulas já que, por coincidência, Gabriella foi matriculada exatamente na turma de Troy. Quando as audições para o musical da escola têm início eles voltam a se cruzar, desta vez por uma batalha pelos papéis principais da produção e precisam enfrentar a inveja de dois irmãos que até então eram os “sucessos” do colégio: Sharpay (Ashley Tisdale)  e Ryan Evans (Lucas Grabreel) e as diferentes “turmas” que não se misturam.

O sucesso foi praticamente instantâneo alçando os jovens atores ao estrelato televisivo. Sua trilha sonora foi o álbum mais vendido nos EUA em 2006 e 6,5 milhões de  DVDs  foram comercializados mundo afora, gerando uma turnê internacional com o elenco.

A atriz Vanessa Hudgens participa do lançamento do longa 'Capitão América' nos Estados Unidos, nesta terça-feira (19).A continuação
O êxito da produção obviamente fez a Disney se preparar para uma continuação. Se antes a empresa não tinha um projeto de marketing especial – precisou criá-lo às pressas -, dessa vez preparou o campo milimetricamente para o novo lançamento.

Em “High School Musical 2” o tema continuou sendo a superação das diferenças. Se antes o foco abrangia as distinções entre ás tribos, dessa vez as classes sociais entram em cena. Troy consegue um emprego de verão no Clube Albuquerque e descola uma vaga de salva-vidas para Gabriella. Só que os pombinhos não estão livres das investidas da vilã, riquinha e gatinha Sharpay, filha dos donos do clube.

Com o elenco principal outra vez marcando presença, o telefilme teve como atração o esperando beijo entre Troy  e Gabriella. Várias situações surgem entre os dois, mantendo a censura livre até quase o final, quando os fogos de artifício explodem e, enfim, o beijo acontece.

A ironia é que, se o casal se porta de modo casto na tela, um escândalo picante abalou a imagem da atriz na vida real. Fotos privadas de Vanessa Hudgens, nua num quarto de hotel, foram parar na Internet. A reação foi rápida, tanto da estrelinha em se desculpar aos fãs, quanto da Disney em ficar ao lado da menina, que acabara de fazer 18 anos.

Na telinha, o máximo de tensão sexual que escapa do controle corporativo é a troca mal disfarçada de olhares entre os personagens Ryan Evans e Chad Danforth (Corbin Bleu). A coreografia explora insinuações homoeróticas, especialmente durante um dueto musical que se passa num jogo de baseball. Foi a maneira que os produtores encontraram para abordar a diversidade sexual sem chocar os conservadores de plantão.

Zac Efron em cena de Música, Amigos e FestaMas a verdadeira mensagem de “High School JMusical 2” é que a ambição é cruel e não se deve menosprezar os amigos durante a escalada social. Ou, como Sharpey já deveria ter aprendido nos velhos filmes de Frank Capra: a felicidade não se compra.

A exibição nos EUA capitalizou dados impressionantes. Tornou-se o programa mais assistido da história da TV paga no mundo, visto por 17,2 milhões de pessoas. Foi o primeiro filme original produzido pela Disney Channel a ter comerciais na rede ABC, o principal braço televisivo da Disneylândia. Até comparado à programação da TV aberta, “HSM2” teve, na ocasião, mais público que “Lost” e o campeão da rede, ”Grey’s Anatomy”. No balanço final, só perdeu para o final da temporada da série “House”, na Fox, ficando em segundo lugar entre todas as produções dramáticas dos EUA em 2007.

Esse impacto atinge dimensões que nem costumam entrar nos cálculos dos departamentos de marketing. Para começar a se ter ideia, a divisão teatral da Disney licenciou a marca para escolas e dois mil colégios norte-americanos recriaram o musical no mesmo ano em suas dependências. Isso sem contar as versões montadas nos Parques Temáticos da Disney. Nem a Índia escapou, com uma versão dublada e músicas locais.

A participação do diretor e coreógrafo Kenny Ortega, que já trabalhou com a nobreza do pop como Madonna e Elton John, depois dirigiria “This is It”, filme póstumo sobre Michael Jackson, e até hoje é celebrado pela coreografia do inesquecível filme “Dirty Dancing”(1987), foi fundamental para o sucesso dos longas. Ele comandou os dois telefilmes da Disney, filme para o cinema e também dirigiu a turnê internacional da franquia.

Efron, que foi parcialmente dublado nas canções do filme anterior por Drew Seeley, enfim cantou todos os seus números.

Nas telonas
Com tanto sucesso e dinheiro arrecadados por seus subprodutos, nada mais natural que a franquia fosse parar na tela grande. E em 2008 foi lançado nos cinemas “High School Musical 3 – Ano da Formatura”, cuja trama mostra Troy e Gabriella diante da possibilidade de se separarem devido à ida para a faculdade. É quando eles, junto aos Wildcats, apresentam um musical de primavera.

Mantendo o clima de conto de fadas, mesmo diretor, roteirista e elenco principal, e contando com um orçamento de US$ 11 milhões, o inevitável aconteceu: US$ 62 milhões faturados nas bilheterias em apenas dez dias, e coreografias decoradas nos quatro cantos do planeta fizeram a terceira produção confirmar o sucesso da série, como a principal do gênero, alavancando por um tempo a carreira dos jovens atores.

No fim das contas, “High School Musical” marcou um período e ratificou a competência da Disney em criar produções para o público jovem a exemplo de “Hannah Montana”, que revelou Miley Cyrus ao mundo. Mas quando colocadas lado a lado com musicais feitos para o cinema, essas produções empalidecem.

O sucesso avassalador de “High School Musical” fez Hollywood prestar atenção nos jovens atores. Alguns deles conseguiram papeis em grandes produções: Efron estrelou “Hairspray – Em Busca da Fama” (2007) ao lado de John Travolta, Hudgens atuou em “Sucker Punch” (2011), de Zack Snyder. Porém, a verdade é que nenhum conseguiu se firmar como grande nome do cinema e hoje ambos fazem papeis em produções menores ou coadjuvantes em filmes de maior orçamento. E seguem trabalhando na televisão. Os fãs, no entanto, guardam o carinho pela trilogia.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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