Crítica | Creed: Nascido Para Lutar

No último domingo, Sylvester Stallone foi ovacionado ao receber o Globo de Ouro de ator coadjuvante por sua atuação em “Creed: Nascido Para Lutar”. Agradeceu, inclusive, seu “amigo imaginário” Rocky Balboa, o qual interpreta há quase 40 anos. Em seguida, não faltaram pessoas nas redes sociais celebrando o fato.  Não por que o consideramos um grande ator – ainda que não seja ruim como alguns apontam. Mas por que, para quem nasceu entre os anos 70 e 80, seu Rocky Balboa foi uma figura a qual aprendemos a admirar, amar. Um sujeito simples, que sai do nada e, na base da garra, chega lá. Alguém que ama a esposa. São vários aspectos que fazem dele alguém querido. E revê-lo quase uma década depois de sua última aparição (“Rocky Balboa”, 2006) é como reencontrar um velho amigo.

Lembro que, na escola, não faltavam garotos querendo ser Rocky nas brincadeiras. Assim como outras vezes tentávamos nos passar pelo Daniel de “Karatê Kid”. Duas pessoas de idades distintas. Ambos coincidentemente surgidos em filmes dirigidos por John. G. Avildsen e com trilhas sonoras de Bill Conti.

O primeiro “Rocky”, de 1976, surpreendeu ao vencer o Oscar de Melhor Filme no ano em que estavam indicados “Todos Os Homens do Presidente”, “Taxi Driver”, “Rede de Intrigas” e “Esta Terra é Minha Terra”. Choque para alguns. Motivo de celebração para a classe operária dos EUA, representada no filme pelo personagem criado e vivido por Stallone. O longa deu origem à franquia de sucesso, que se desviou um pouco de sua essência nas continuações III, IV e V e foi recuperada no longa de 2006. Mesmo assim, nos seis filmes nos deparávamos com o amor incondicional de Rocky por Adrian. Um amor baseado na cumplicidade, na construção de uma vida em conjunto, no enfrentamento das dificuldades do cotidiano. Diferente de outros romances hollywoodianos. Rocky e Adrian formavam um casal com o qual nos identificamos: fugiam aos estereótipos de beleza do cinema. Gente como a gente.

A franquia tinha algo de diferente em relação a outras do mesmo período: os oponentes no ringue não eram os principais adversários. É assim nos melhores filmes da série: o primeiro, o segundo, o sexto e “Creed”.

Quando pensávamos que a saga do lutador tinha acabado, eis que o jovem diretor Ryan Coogler (que despontou no ótimo “Fruitvale Station: A Última Parada”, 2013) procurou Stallone com a ideia de dar novo fôlego à saga, dessa vez colocando Rocky como o tutor do filho de Apollo Creed, maior oponente e amigo do Garanhão Italiano. Adonis (Michael B. Jordan) passou os primeiros anos de sua vida em orfanatos – a mãe biológica morreu cedo. Até ser encontrado por Mary-Anne (Phylicia Rashad), a viúva de Apollo, que decide adotar o garoto. Corta para Adonis já crescido. Ele tem um bom emprego e vive na mansão da mãe adotiva e, sem ela saber, participa de lutas de boxe clandestinas. Tenta integrar a academia onde o pai treinava, mas o impedem. Vive à sombra de Apollo. Decide se mudar para a Filadélfia, onde procura Rocky para treiná-lo. A princípio o veterano, que segue sua vida solitário tocando o restaurante Adrian’s, não aceita. No entanto, um encontra no outro a inspiração para seguir em frente.

Muito se falou que a história de “Star Wars: O Despertar da Força” acompanha a do filme de 1977. “Creed” caminha lado a lado com “Rocky, Um Lutador”. Tem o inexperiente pugilista com a chance de enfrentar o campeão mundial, que precisa melhorar sua imagem perante o público. O interesse amoroso a princípio hesitante. O treinamento. A luta. Mas assim como ocorre no filme da Disney, não há apenas nostalgia. Novos personagens são apresentados para a geração atual. O Adonis de Michael B. Jordan não é Rocky. Suas dificuldades são diferentes. Rocky representava toda uma classe trabalhadora. Adonis tem diversos conflitos internos. Não menos importantes.

Coogler concebeu uma obra que funciona ao mesmo tempo como continuação direta de “Rocky Balboa”, refilmagem do clássico de 76 e reinício da saga. Para tanto retomou parcerias com o talentoso ator Michael B. Jordan (não vale julgá-lo pelo questionável “Quarteto Fantástico” de 2015) e Ludwig Göransson, cuja trilha sonora é contemporânea e condizente com a realidade do gueto, repleta de batidas do hip hop, samples, e que não abre mão de trechos da imortalizada trilha de Bill Conti. Especialmente no combate decisivo.

Marcam presenças o já citado restaurante apresentado em 2006, o ginásio de Mickey, o treino com as galinhas e pelas ruas da Filadélfia, as escadarias. No entanto, tudo é mostrado sob uma roupagem atualizada. O roteiro não perde tempo em apresentar as situações: em poucos minutos sabemos a origem do protagonista, quem é quem e suas ambições. Surgem situações dramáticas e o humor pontua várias passagens.

Claro, tudo funciona graças ao elenco competente, começando por Jordan, que lembra algumas vezes o Apollo de Carl Weathers, mas possui seu próprio caráter. Está bem fisicamente e acreditamos na sua jornada. Tessa Thompson vive uma cantora em começo de carreira e que tem perda de audição progressiva. E, claro, Stallone. O astro – indicado ao Oscar – domina completamente o personagem e, em alguns momentos, ficamos na dúvida se é Rocky ou próprio Sly falando. Na vida pessoal ele perdeu um filho. Na ficção, Balboa perdeu a esposa, o treinador, o melhor amigo. É o primeiro filme da série que o astro não desenvolveu o projeto em seu início. Foi convencido pelo talento dos jovens que enxergaram nele e no personagem figuras que inspiram. Interessante notar como o roteiro o coloca frente a outro tipo de luta. Falando em luta, todos os combates são intensos e empolgantes. A câmera passeia por entre os oponentes, muitas vezes em sorte, nos passando a sensação de realidade.

“Creed: Nascido Para Lutar” talvez não tenha a mensagem social de “Rocky, Um Lutador”. No entanto, carrega mais ou menos implícito um forte recado social. Coogler refaz a imagem do Doutrinador: mais de uma vez Apollo, um personagem coadjuvante nos longas iniciais, é tratado como lenda. Aliás, os pugilistas negros, que sempre foram coadjuvantes na série, agora são representados pelo protagonista. E se nos anos 80 e 90 a garotada se inspirava em Rocky para brincar na escola, agora as crianças se inspirarão em Adonis (Finn de “Star Wars: O Despertar da Força” também age nesse sentido). Emocionante, o filme também presta necessário serviço à diversidade racial. Ainda bem.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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