Crítica | Star Wars: O Despertar da Força

J.J. Abrams é um sujeito confiável. Responsável por séries de sucesso (“Alias”, “Lost”) e pelo melhor “Missão Impossível” (o terceiro) ele demonstrou como criar um reinício de franquia sem esquecer o material original quando deu vida nova à “Star Trek” em 2009. Não à toa foi escolhido pela Disney para este recomeço espetacular de “Star Wars”. “O Despertar da Força” alegra os antigos fãs e atrai uma nova geração para a saga. É um filme que dosa bem ação, humor e drama, traz excelente elenco e um roteiro bem desenvolvido feito com o veterano da série, Lawrence Kasdan.

Difícil não deixar-se levar pelo hype. Afinal, “Star Wars” faz nos sentirmos parte de algo maior. Ainda mais quando é visto numa sessão lotada e repleta de devotos. Sim, devotos. Pessoas que sabem cada fala dos seis longas live action, sem contar as animações, games e todos os demais produtos que completam o cânone. Cânone surgido na era da Nova Hollywood, quando uma geração de cineastas apontou um caminho diferente para o cinema dos EUA. Safra que deu ao mundo Woody Allen, Francis Ford Coppola, William Friedkin, Steven Spielberg e George Lucas. Estes dois últimos e seus respectivos “Tubarão” e “Guerra nas Estrelas” (como era chamado “Star Wars” no Brasil) deram origem ao termo blockbuster. Se atualizarmos o dólar, são dois dos filmes de maior bilheteria na história. E “O Despertar da Força” traz à tona esse poder. Bateu recordes de pré-venda.

A Disney, esperta, soube guardar a sete chaves a trama. Tanto que exibições para as imprensa só ocorreram um dia antes da estreia. O trailer revelou muito pouco e, ao mesmo tempo, atiçou ainda mais a expectativa do público.

Quanto menos se falar do enredo melhor. Passaram-se trinta anos dos acontecimentos de “O Retorno de Jedi” (1983). A Primeira Ordem é uma organização sombria que se ergueu após a queda de Darth Vader e espalha o terror pela galáxia. Para defender a liberdade, há a Resistência liderada pela agora general Leia (Carrie Fisher). Ambos os lados buscam encontrar Luke Skywalker. E dois jovens são atraídos pelo conflito: Finn (John Boyega), um Stormtrooper dissidente, e a catadora de lixo Rey (Daisy Ridley).

O roteiro remete diretamente a “Uma Nova Esperança” (1977) e a outros momentos da trilogia original. Seja em sua estrutura ou nos diálogos. A existência da Primeira Ordem não tem maiores explicações. O que pode ser detalhado nos próximos filmes. Ao mesmo tempo o longa serve de reboot. Mais ou menos como Bryan Singer tentou em “Superman: O Retorno” (2006) homenageando o clássico de Richard Donner. A diferença é que J.J. Abrams acertou a mão tal qual fez em “Star Trek”. Começando pela escolha do elenco.

Fica provado que, para vermos dois grandes protagonistas, independem o gênero ou a cor da pele. Os novos heróis centrais são uma mulher e um negro. Ela, Rey, vivida por Daisy Ridley. Ele, Finn, interpretado por John Boyega. Os dois britânicos e que demonstram imensa química em cena. Tem Oscar Isaac na pele de um piloto gente boa Poe Dameron. E Adam Driver encarnando o vilão Kylo Ren, mais multifacetado que o próprio Darth Vader. Alguém cujos conflitos internos são intensos. A vencedora do Oscar de Atriz Coadjuvante por “12 Anos de Escravidão” Lupita Nyong’o foi transformada em Maz Kanata, de pequena e importante participação. Andy Serkis é o llíder Snoke e o veterano Max Von Sydow faz Lor San Tekka. E, claro, é emocionante Carrie Fisher e Harrison Ford revivendo Leia e Han Solo. É como se reencontrássemos dois velhos amigos. O alívio cômico fica por conta do novo robozinho BB8, carismático que só. Os efeitos são mais mecânicos que feitos via computação gráfica, dando mais “vida” ao que vemos. Acreditamos na existência daquele universo.

Se “Star Wars: Uma Nova Esperança” foi lançado no período pós-Vietnã e trazia um subtexto político certeiro para aquele período, “O Despertar da Força” chega no momento em que o mundo debate o terrorismo, a corrupção e as liberdades. Excelente veículo de entretenimento, dá continuidade à grande história de uma família marcada pelas dificuldades e a esperança. Como não nos identificarmos?

Se aguardamos mais de três décadas desde a trilogia original (episódios IV, V e VI) dez anos da segunda (I. II e III), os próximos filmes virão com mais frequência. A continuação estreará em 2017 e ano que vem já tem agendado um spin-off.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *