Crítica | O Beijo da Mulher-Aranha | 30 anos

o-beijo-da-mulher-aranha

”Era uma vez uma estranha mulher que vivia numa ilha tropical longínqua… ela vestia um longo vestido de lamé que lhe caía como uma luva… mas a infeliz era prisioneira de uma teia de aranha que nascia de seu próprio corpo…”

E assim surgia nas telas, emblemática, Sonia Braga, com todo seu esplendor, como a enigmática e sedutora Mulher Aranha, que vinha salvar o náufrago Raul Julia, e que por ele derramava uma perfeita lágrima de prata, na envolvente narração de William Hurt.

Dirigido magistralmente por Hector Babenco, ”O Beijo da Mulher-Aranha” é uma obra prima, com roteiro primoroso de Leonard Shrader baseado no best-seller de Manuel Puig, tornou-se um clássico absoluto imediatamente, aclamado no Festival de Cannes e posteriormente pelo Globo de Ouro, BAFTA e o Oscar.

Como foi muito bem observado pela bela, inteligente e talentosa Sonia cinco anos atrás, quando o Festival de Cannes homenageou o ilustre aniversário de vinte e cinco anos de “O Beijo”, o filme mantém sua força e continua atual, pois infelizmente sua dura realidade ainda pode ser testemunhada”. Enquanto Sonia caminhava no tapete vermelho de Cannes acompanhada de Babenco, o público, jornalistas e fotógrafos registravam imagens e declarações da estrela de um dos filmes mais cultuados pelo festival nos anos 80.

Com muita sensibilidade é contada a história de dois homens numa prisão do Brasil na época da ditadura militar – Valentin (interpretação notável e preciosa de Raul Julia), preso político de ligações com a esquerda, recentemente torturado, e Molina (espetacularmente vivido por William Hurt),  homossexual cumprindo pena por ter tido relações com um menor. Para amenizar o sofrimento na prisão e a difícil convivência de um com o outro, Molina, um apaixonado pelo cinema noir, narra as histórias de seus filmes favoritos, em especial a de um thriller romântico ambientado na época do nazismo, onde a heroína é Leni Lamaison, com quem se identifica e a qual ele considera a mais deslumbrante mulher do mundo – feita pela deslumbrante Sonia Braga em trabalho magnífico.

Molina-and-Valentin-in-Kiss-of-the-Spider-Woman-kiss-of-the-spider-woman-29453878-800-535O trabalho da equipe técnica impressiona pela excelência: a música do maestro John Nashling traduz com grande sensibilidade os sentimentos dos personagens; a fotografia de Rodolfo Sánchez capta com perfeição tanto a crueza das cenas de prisão como a fantasia e lirismo das cenas de Sonia – ora em sépia, ora azulados. E o que dizer do fabuloso guarda-roupa criado por Patricio Bisso para La Braga? Seus figurinos são um espetáculo à parte, tendo destaque para o famoso e icônico vestido da Mulher-Aranha, um longo negro azulado inteiramente coberto de lantejoulas.Tive a felicidade de ver  o lendário figurino numa vitrine do  Planet Hollywood em San Francisco. A peça impressionava pela beleza e silhueta, perfeita,  de Sonia, com uma cintura de deixar o público presente boquiaberto. Ao lado da vitrine, linda foto da estrela com sua biografia e filmografia. Os lindos figurinos de Patricio para Sonia foram todos executados com maestria pela mãe da atriz, Zezé Braga, o que traz grande carga emocional, certamente com belas lembranças, para a belíssima intérprete da personagem título. E que elenco de apoio!  O desfile de talentos nos presenteia com ótimas participações de Milton Gonçalves, Miguel Falabella, Herson Capri, Nuno Leal Maia, José Lewgoy, Miriam Pires, Denise Dummont, Wilson Grey e Patricio Bisso.

Tantos trunfos só poderiam resultar em unânime aclamação. O Festival de Cannes deu a partida: William Hurt foi o melhor ator e ganhou praticamente todos os prêmios do ano como Globo de Ouro, BAFTA e o Oscar. Na cerimônia de 1986, o talentoso ator que emocionou na telona com sua muito sensível, tocante e destemida interpretação, repetiu a façanha em seu discurso de vitória, imitando a batida do coração e falando: “Brasil, Brasil, Brasil!  O longa ainda teve a importante indicação para melhor filme – até hoje a única vez em que o Brasil esteve na categoria, em coprodução, de João Ramalho Jr. e o produtor David Weisman (EUA). Completando as quatro indicações:  melhor direção para Hector Babenco, e melhor roteiro adaptado para Leonard Schrader. O famoso crítico James Berardinelli, numa revisão em 2009, decretou que “O Beijo da Mulher Aranha” merecia o Oscar muito mais que “Entre Dois Amores”, de Sidney Lumet.

A grande estrela do cinema nacional Sonia Braga teve todo seu esplendor e talento reconhecidos mundialmente. Tornou-se a primeira atriz brasileira a ser indicada ao Globo de Ouro por sua brilhante atuação em três papéis: a fatal Lenny Lamaison, a Mulher-Aranha e Maria, namorada do prisioneiro Valentin. Um crítico americano mencionou o fato de Sonia atuar em inglês com grande naturalidade, apesar de não dominar o idioma ainda. Outro, Roger Ebert, a considerou perfeita, inclusive na interpretação de Leni, com gestos e expressões típicas de certos filmes dos anos quarenta. O New York Times destacou seu trabalho como a ”satyrical elegant grande dame”. O fenomenal sucesso de Sonia abriu-lhe todas as portas: foi convidada para ser membro da Academia e no ano seguinte, em 1987, tornou-se a primeira atriz brasileira a apresentar um Oscar, ao lado de Michael Douglas. Para fechar com chave de ouro, foi eleita pela revista American Film uma das cinco melhores atrizes estrangeiras da década de 80 e tornou-se a primeira atriz brasileira (considerando-se que Carmen Miranda era portuguesa) a realmente ter uma carreira internacional de peso, com a distinção de ser a única até hoje a ter três indicações ao prêmio Globo de Ouro, além do BAFTA e do Emmy.

Muitos se perguntam por que Sonia foi para os EUA para tentar uma carreira internacional. Na verdade, ela não planejou nada. Tudo aconteceu naturalmente, com a vida a levando a esses novos caminhos. Uma vez que Raul Julia e William Hurt não tinham disponibilidade para encontros com a mídia e dar entrevistas, Sonia foi convidada para divulgar “O Beijo” nos EUA. Novos convites foram surgindo para a televisão (“The Bill Cosby Show”) e para o cinema (o ótimo “Rebelião em Milagro”, de Robert Redford), enquanto que, estranhamente, nada lhe era oferecido pelos cineastas brasileiros. Sonia foi ficando por lá, aprimorando o inglês e trabalhando, enquanto aguardava a confirmação de Arnaldo Jabor (para quem havia estrelado o grande sucesso “Eu te Amo”), o que não aconteceu – ele ligou para Sonia contando sobre sua mudança de planos e usar outro elenco.

Felizmente, em 1996, Sonia teve um grande retorno à nossa telona com o lindo e ensolarado “Tieta do Agreste”, de Cacá Diegues, que contribuiu para a retomada do então extinto cinema nacional, ao lado de “Carlota Joaquina”, de Carla Camuratti. Grande felicidade teve Sonia mais uma vez neste ano de 2015, quando recebeu o convite para ser a protagonista de “Aquarius”, novo filme de Kleber Mendonça Jr. (do elogiadíssimo “O Som ao Redor”), cujas filmagens se encerraram no mês de setembro, com lançamento previsto para 2016.

Enquanto aguardamos ansiosamente o retorno triunfal da sempre bela e muito talentosa Sonia Braga – verdadeiro mito do cinema brasileiro – façamos novamente uma trip cinematográfica pela teia da misteriosa Mulher-Aranha, cuja lágrima e beijo guardamos no coração e na mente há incríveis trinta anos, e que lá continuarão para sempre, através das gerações.

”O BEIJO TEM A MARCA DE GRANDEZA DO COMEÇO AO FIM” (Janet Maslin, The New York Times)

”UMA BRILHANTE CONQUISTA!

RICAS CARACTERIZAÇÕES E HISTÓRIA TOCANTE

‘O BEIJO’ É ESCRITO TOTALMENTE COM CLASSE” (Gene Siskel, Chicago Tribune)

”ESSA MULHER ARANHA TECE UMA TEIA INTRICADA…AS INTERPRETAÇÕES SÃO MARAVILHOSAS!” (Roger Ebert, The Chicago Suntimes)

”MULHER ARANHA É UM SUCESSO!” (Andrew Sarris, The Village Voice)

”POÉTICO! UM FILME MARAVILHOSO!” (Julie Salamon)


 


O BEIJO DA MULHER-ARANHA (Kiss of the Spider Woman).
EUA/Brasil. 1985.
Direção: Hector Babenco.
Com Sônia Braga, William Hurt, Raul Julia.
120 minutos.


 

 

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

One thought on “Crítica | O Beijo da Mulher-Aranha | 30 anos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *