Crítica | Uma Amor a Cada Esquina é o equilíbrio perfeito de Bogdanovich

Uma das mais antigas e polêmicas discussões do campo cultural se estabelece quando se procura determinar o limiar entre a vida e a arte. Cinema e teatro, então, impõem-nos com força outra questão: até que ponto não somos atores no mundo real?

Em “Um amor a cada esquina” (She’s Funny That Way), o diretor Peter Bogdanovich (de “A Última Sessão de Cinema”), após 12 anos longe das câmeras encontra o equilíbrio perfeito em seu novo filme, arrancando risos com bons recursos de “gags” e, a partir do absurdo que permeia as relações sociais, ou em instantes em que vida e arte se misturam, com surreal e real sendo uma única representação.

No filme de Bogdanovich, a personagem Isabella “Izzy” Patterson (Imogen Poots) é uma jovem que mora com os pais e, sob o pretexto de realizar testes como atriz, ganha a vida prostituindo-se.

Sua realidade mudará quando o diretor teatral Arnold Albertson (Owen Wilson) liga para um serviço de acompanhantes e contrata Isabella. Depois de uma noite intensa, ela confessa o desejo de se tornar atriz. Diante disso, Arnold, resolve lhe dar U$$ 30 mil para que deixe a prostituição e parta em busca de realizar seu sonho.

Com o sonho e o dinheiro nas mãos, Isa descobre uma audição para uma peça de teatro. E eis que nesse momento acontecem as grandes viradas na vida de Isa e na trama do filme, mostrando a genialidade de Bogdanovich e que “Um amor a cada esquina” não é uma simples comédia passatempo, fútil.

Quando sobe ao palco do teatro para fazer o teste, Isa se depara com o diretor Arnold, com quem passara a noite e a “financiara” para ser atriz. Como não bastasse o reencontro, Isa realiza o teste contracenando com a esposa de Arnold, Delta Simmons (Kathryn Hahn).

Ponto de encontro entre a vida e a arte, Isa vai muito bem no teste para fazer o papel de prostituta. As relações também se misturam entre o fictício e real, pois Delta (esposa de Arnold) já tivera um caso com o galã canastrão Seth Gilbert, interpretado por Rhys Ifans, que sabe do caso extraconjugal do diretor.

O imbróglio entre a vida e a arte potencializa-se, palco e realidade viram só cena, com as relações dentro e fora da peça com o envolvimento entre o produtor Joshua Fleet (Will Forte), a psiquiatra Jane Claremont (Jennifer Aniston), o juiz Pendergast (Austin Pendleton), que é obcecado por Isa, formando assim uma grande ciranda de relacionamentos que se entrelaçam, despertam o riso e nos coloca a pensar sobre os relacionamentos contemporâneos.

Vale menção à atuação de Jennifer Aniston, que interpreta a psiquiatra neurótica. Em muitos momentos destaca-se na tela, com interferências magistrais em sua personagem que se propõe a analisar os problemas dos outros, mas que vive imersa nos seus. Essa dualidade desencadeia risos.

Vida e arte se confundem, ou melhor, fundem-se em “Um amor a cada esquina”. Magnífico filme, muito bem amarrado em seu roteiro e com grandes atuações. E sendo sobretudo uma comédia, narra com humor inteligente, relembrando os bons tempos da doce-acidez de Woody Allen. Imperdível.

FICHA TÉCNICA

Título: Um amor em cada esquina

Título Original: She’s Funny That Way

Direção: Peter Bogdanovich

Roteiro: Peter Bogdanovich, Louise Stratten

Elenco: Jennifer Aniston, Owen Wilson, Imogen Poots

Distribuição: Mares Filmes

Duração: 93 minutos

 

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

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