Crítica | X-Men: Dias de um Futuro Esquecido – Edição Vampira

Os X-Men sempre chamaram a atenção pela abordagem adulta, profunda, ainda que sem abrir mão da ação, do humor e algum romance. Não são super-heróis propriamente ditos. São personagens complexos. Até por isso é compreensível que seus filmes não arrecadarem o mesmo que “Os Vingadores”. Ao levar para o cinema este rico universo em “X-Men: O Filme”, Bryan Singer – apesar do orçamento apertado – conseguiu transportar para as telas a essência das HQs: debater o preconceito, o medo do desconhecido, conflito entre raças, etc. O filme de 2000 não se baseava em uma história específica dos quadrinhos. Era uma adaptação de anos de publicação. Adaptação. E é aí que, ao travar esse diálogo com o leitor, nós, críticos, devemos ter cuidado. Ainda mais quando gostamos dos gibis: independente do material ao qual é inspirado, um bom filme se sustenta independente de sua fidelidade ao material original. “X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido” é assim.

Agora, o filme pode ser conferido em cortes diferentes: aquele exibido no cinema, e a “Edição Vampira” que chega ao mercado brasileiro em Blu-ray duplo recheado de extras.

Antes de sua estreia cinematográfica, o longa foi tema de discussões, pois a atriz Anna Paquin, que interpreta Vampira, apareceu nas imagens de divulgação e chegou a dar entrevistas sobre seu papel no filme. Mas o diretor Bryan Singer anunciou que a personagem havia sido cortada da trama. Ok (atenção, spoilers!), ela aparece rapidamente no finzinho, quando Wolverine acorda após o passado ter sido modificado e reencontra toda a primeira geração da trilogia original, com direito ao Ciclope, Jean Grey, etc. O corte é em relação a toda uma sequência de resgate e depois de Vampira participando da história até o fim.

Pois bem. No BD somos apresentados a essa versão. Em certo momento de tensão, a versão futurista de Wolverine solta as garras e fere Kitty Pryde, que mantém a consciência do personagem no passado. Ferida, ela não conseguirá seguir com sua missão. Para não perder o elo, ox X-Men precisam de alguém que possa utilizar o poder de Kitty Pryde. Gelo diz que sabe a pessoa certa: é Vampira, claro, que está presa na antiga mansão sendo vítima de experiências. Xavier, Magneto e Gelo então decidem resgatá-la, custando a vida deste último.

E aí, o que muda de um corte para o outro? Bom, se formos pelo lado técnico da coisa, a presença de Vampira realmente não seria necessária para amarrar a trama. É o que chamamos de “barriga”. Por outro lado, é bem legal ver Anna Paquin de volta ao papel. Só fica estranho por que, em sua última aparição na franquia, ficava subentendido que ela abdicara dos poderes mutantes. No mais, essa versão traz um beijo entre Kitty e Gelo, que teriam ficado juntos justamente por que Vampira tomou aquela decisão em “X-men: O Confronto Final” (2006). E há uma outra sequência na qual Mística decide voltar à Mansão, quase transa com Fera e usa o Cérebro para descobri o paradeiro de Trask. E não, o beijo entre Wolverine e Tempestade, que vazou na web, não aparece.

Independente de preferir ou não a versão do cinema ou a “edição Vampira”, vale a pena conferir este blu-ray duplo que vem repleto de extras e tem, claro, a versão cinematográfica. E nela reside um ótimo filme.

O longa foi desenvolvido a partir da história emblemática criada por Chris Claremont e John Byrne em 1981 e que inspirou James Cameron a fazer “O Exterminador do Futuro”. Não segue à risca o original. Mantém o importante. Fãs reclamaram das “liberdades” desde o anúncio da sinopse e os primeiros trailers. O resultado? Um dos melhores filmes baseados em quadrinhos já feitos e o melhor da franquia, ao lado de “X-Men 2” (2003) e “X-Men: Primeira Classe” (2011).

Bryan Singer dirigiu os dois primeiros e largou a série para fazer “Superman – O Retorno” (2006), que não alcançou os resultados de crítica e bilheteria esperados. O cineasta quase viu sua carreira ir ladeira abaixo. Produtor de “X-Men: Primeira Classe” (2011), gostou do que Matthew Vaughn fez e decidiu retomar as rédeas que nunca deveria ter largado. Ao escolherem a premissa da viagem do tempo da HQ, ele e os produtores teriam a chance de unir, em uma mesma trama, os elencos da primeira trilogia e de “Primeira Classe”. Tantos atores e personagens poderiam resultar em uma obra irregular, como o “Homem-Aranha 3” de Sam Raimi. Longe disso.

Na história, um incidente dos anos 70 leva o governo dos EUA a desenvolver os Sentinelas, robôs gigantes que se adaptam aos poderes mutantes, podem detectar pessoas que tenham o gene X. Essas criaturas levam os mutantes praticamente à extinção décadas depois. No futuro, Professor Xavier (Patrick Stewart), Magneto (Ian McKellen) e os X-Men decidem enviar a consciência de Wolverine (Hugh Jackman) ao passado, utilizando um poder de Kitty Pryde (Ellen Page), para que ele una os jovens Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) a fim de impedir Mística (Jennifer Lawrence) de assassinar Dr. Bolivar Trask (Peter Dinklage, de “Game of Thrones”), responsável por fazer experiências me mutantes, levando-os à morte e pelo projeto que resultará nos Sentinelas.

Com um orçamento maior, Singer pôde investir em cenas grandiosas, até megalomaníacas, vide aquela em que Magneto levanta um estádio. Direção de arte e figurino acertam ao resgatarem os anos 70, enquanto o cenário futurístico nos deixa com nó da garganta e remete, num caminho inverso, ao começo de “O Exterminador do Futuro”. Tudo embalado pela trilha sonora que complementa a atmosfera de tensão crescente: o terceiro ato é exemplo clássico de como deixar o espectador preocupado com o que vem a seguir. Vale destacar as figuras dos Sentinelas, inimigos realmente ameaçadores. E se o mote é a dramaticidade dos acontecimentos, o humor inserido é dosado e certeiro – especialmente a sequência envolvendo Mercúrio (Evan Peters). Porém, o maior trunfo do filme é o elenco: Charles Xavier e Magneto são personagens que receberam excelentes intérpretes em todas as suas versões. Patrick Stewart e Ian McKellen são reverenciáveis, enquanto James McAvoy e Michael Fassbender (nas versões jovens) estão entre os melhores de sua geração. Jennifer Lawrence surge na pele de uma Mística ressentida, feroz, e outros ótimos atores correspondem em menores aparições: desde Halle Berry (Tempestade) até Omar Sy (do sucesso francês “Intocáveis” e o recente “Samba”) vivendo Bishop. Hugh Jackman parece se divertir sempre que vive o herói. Apesar do papel imprescindível na trama, não é um filme sobre Wolverine.

Querer encontrar soluções deste filme para toda a cronologia dos X-Men no cinema é bobagem. A Fox, quando iniciou a franquia, não a planejou tal qual o Marvel Studios vem fazendo com seus trabalhos em cinema, televisão e Netflix. Declarações do diretor e cenas pós-créditos de “X-Men: O Confronto Final” (2006) e “X-Men Origens Wolverine” (2009) à parte, “X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido” cumpre seu papel de reunir as duas gerações de mutantes das telonas. Possui elementos que agradarão os fãs: não só das HQs, também aqueles que descobriram os personagens através dos filmes. É uma adaptação na acepção do termo: traz á tona o que há de melhor nas histórias dos quadrinhos e, o mais importante, sua mensagem. Os mutantes sempre representaram as minorias: negros, gays e todas as pessoas e grupos que sofrem discriminação ao longo da história. As intenções de Bolivar Trask não são nem um pouco diferentes das atitudes e declarações dadas pelos Bolsonaros da vida. Apesar de se passar, em parte, nos anos 70, as ações de Trask servem perfeitamente para retratar o nosso presente, pontuado cada vez mais por pessoas pregando publicamente a exclusão, a diferença. Como ainda não inventaram e não sabemos se um dia haverá viagem no tempo, o longa serve de alerta para que nós, agora, evitemos um futuro desolador. Nesse ponto, Singer e sua equipe deram conta do recado.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *