Enchanté e désolé: Um Fim de semana em Paris

Nick e Meg são casados. Ou estarão atados­? Trinta anos se passaram e surge a ideia de recolocar as peças no mesmo lugar num tabuleiro desconexo do tempo.

“Faz meu sangue ferver como ninguém” –  diz Meg.

“O que indica uma conexão profunda” – responde Nick.

O diálogo entre os protagonistas de “Um Fim de Semana em Paris”, explica em grande parte a dinâmica entre passado e presente, e um futuro incerto. Aparentemente, é de doce e suavidade que se trata, um carinho construído ao longo de uma vida partilhada, mas na verdade, é ácido, com uma pitada de pimenta vermelha.

De língua afiada e pés ligeiros, Meg ainda quer mais da vida e sempre que a oportunidade surja, ou até mesmo criando algumas, contrapõe-se à um Nick desolado, desajustado e dependente da sombra feminina.

Ele até a culpa desse ostracismo, quando resgata na memória que antes de casarem, ela o incitava a entrar em contato com a sua alma feminina. Talvez tenha exagerado na profundidade.

Paris é o lugar indicado para um recomeço? Paris é um tempo próprio e filmes ambientados na cidade, mesmo involuntariamente, nos conduzem ao amor. Mas com esse casal, a proposta é outra, e de certa maneira, mais lúcida. Tão lúcida, e talvez pela proximidade cronológica da morte, uma visita ao cemitério faz parte. Nick fica incomodado pela presença ou ausência, depende do ponto de vista, no cemitério de Montparnasse e principalmente pela frase inscrita na lápide do dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett: “Queremos dizer amor quando falamos amor?”.

O ponto de vista dos dois diverge nesse campo. Para Nick, o amor é a experiência da vida e é com Meg que quer continuar a vivê-la. Samuel Beckett morreu em 1989, cinco meses depois de sua esposa, talvez Nick ao encarar o epitáfio do autor, tenha se identificado.

Em um primeiro momento, parece que é altruísmo (ou amor), mas com o desenrolar da narrativa, Nick revela que tudo não passa de uma estratégia egoísta. Está claro, para ele, que se não for Meg, nenhuma mulher o irá tocar e o contato físico para ele ainda é pulsante, mas para ela, a vida se quer em movimento pessoal e singular e nesse ponto há um jogo de sedução e de dor em que ela dita as regras. Ele quer ver o seu corpo, ela não deixa, ele quer tocá-la, mas ela não permite e o faz sofrer como quando vemos um doce suculento na vitrine de uma confeitaria que acabou de fechar. As pessoas ainda estão lá dentro, mas a porta não se abre. Há uma espécie de prazer ao dizer um não, um estamos fechados, quando batemos no vidro. Nick sentiu o mesmo.

Emblemática a enevoada Torre Eiffel ao fundo, da vista do quarto de hotel onde se hospedaram por dois dias. É de névoa que as conversas entre os dois se faz. Emblemática também, a imagem dessa mulher, elegante e cáustica, curtida pelo tempo, mas belíssima. Em contraponto, à um marido, com a barba por fazer, com dores por todo o corpo, afastado do seu cargo de professor da universidade pela longevidade, ou o prazo de validade esgotado.

Mas Meg não está esgotada e rodopia pela cidade com fervor e intensidade.

Ele acompanha, com dificuldade. A fidelidade também é posto como uma peça do tabuleiro que é preciso conversar sobre. Há uma troca de farpas entre eles, uma traição com uma aluna quando o filho do casal demandava uma atenção especial, e uma fictícia traição dela com o professor de informática imberbe. Há um amargo na boca de Meg que Nick não quer sentir. Entre altos e baixos, os detalhes dessa convivência vão sendo contadas, inclusive a do filho, viciado em maconha, vivendo em uma casa cheia de ratos.

Os ratos são um símbolo de corrupção do estado equilibrado e limpo das coisas. Mas poderá haver sempre uma flauta mágica capaz de os conduzir pela beleza da música. Nesse caso, a moeda em uma juke box de um café parisience convida a dançar. Uma história de contradições, contrastes, limites e de um jeito de estar na vida sem se preocupar muito com as consequências, como o painel de recortes de jornais, revistas e livros que Nick monta na parede do quarto do hotel em que habitam por 48 horas – um mapa mental de uma vida passada com alguns recados para o presente.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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