Crítica | A Gangue

Em uma realidade cada vez mais ruidosa, dá para imaginar a vida sem poder ouvir os sons que o mundo ressoa? Como é o ser humano imerso em completo silêncio? É mais doce, mais sensível, mais humano? Essas questões, em formas silentes, encontram novas possibilidades de respostas no longa ucraniano “A Gangue”.

Realizado pelo diretor Myroslav Slaboshpytskiy, o filme é constituído sem diálogos, com atores deficientes auditivos e promove a imersão no quase absoluto silêncio, fazendo os humanos falem com os corpos e as coisas ganhem frases inteiras.

Um filme sem diálogos, sem narração, nem legendas, que se comunica por meio da linguagem dos sinais, da margem à mente para uma experiência de extrema sensibilidade em sentido poético. No entanto, “A Gangue” é um tapa nos ouvidos, um grito dilacerante para as retinas, onde o silêncio não é sinônimo de refinamento dos sentidos para os padrões do belo e do que enleva os sentimentos. Não há sentimentalismo, nem uma história de reintegração dos jovens à sociedade. O que há em “A Gangue” é o ser humano em estado bruto, mais próximo dos seus instintos primevos.

“A Gangue” narra a trama do jovem Sergei (Grigoriy Fesenko), que ao chegar um internato para deficientes auditivos depara-se com um esquema de infrações, roubo, prostituição e delinquência. Aceito pelo grupo participa dos crimes, do esquema e com isso ganha voz entre os membros. Fatos que se sucediam repetidamente no internato, até o momento em que o jovem Sergei se apaixona por Anna, interpretada pela linda bielorussa Yana Novikova.

Neste momento, o eixo da violência contra a sociedade alterna-se para a violência física e a dos sentimentos. Oscila entre o desejo de possuir o amor a qualquer custo e a repressão sofrida em carne, ao quebrar uma regra por se envolver com a garota de um dos líderes do grupo.

Apresenta alguns momentos cênicos amadores, como a luta em que Sergei é submetido para demonstrar o seu poderio ao grupo. Porém, no contexto geral, imagens que não chegam a interferir na trama com cenas fortíssimas, situações limítrofes com o sexo explícito, o tráfico de mulheres e o aborto “in útero”, que provocam do amor ao incômodo profundo e torna impossível não se mexer na cadeira.

Vencedor do Grande Prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes e exibido no Brasil durante a 38ª Edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme de Myroslav Slaboshpytskiy é uma experiência loquaz, ensurdecedora e brutal, em que mostra como o nosso corpo grita perante a vida e faz emergir profundas sensações, revelando de forma não convencional e dilacerante sobre o que há de bem e de mal nos seres humanos.

Ficha técnica:
Gênero: Drama
Direção: Myroslav Slaboshpytskiy
Roteiro: Myroslav Slaboshpytskiy
Elenco: Grigoriy Fesenko, Yana Novikova, Rosa Babiy, Alexander Dsiadevich, Yaroslav Biletsjiy
Duração: 132 min
Ano: 2014
País: Ucrânia/Holanda
Classificação: 18 anos

Estreia no Brasil: 14/05/2015.

 

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

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