The Weatherman: terrorismo ou engajamento político?, de Bill Siegel e Sam Green

A Revolução Cultural, reverberada entre as décadas de 60 e 70 e que transformou o mundo a partir de movimentos sociais, chegou embalada pelos acordes da guitarra de Jimi Hendrix, a voz de Janis Joplin e os versos intempestivos de Jim Morrison, projetando uma imagem ao avesso da sociedade vigente.

Uma nova ordem conflitava sob o contexto da Guerra do Vietnã, o combate ao comunismo para consolidação do sistema capitalista e a libertação dos dogmas, em contraponto à ebulição de ideias, ideologias e uma imensa necessidade de inventar uma maneira mais livre para se compreender a vida.

Em meio ao caldeirão cultural revolucionário, emergiram grupos e movimentos que desafiaram os padrões, a ordem, o “status quo”, como o The Weatherman Underground, nome do documentário de Sam Green e Bill Siegel, que remonta a história do grupo Weather Underground Organization (WUO), conhecido por Weather Underground, formado no campus de Ann Arbor, da Universidade de Michigan, com membros dissidentes da SDS (Students for a Democratic Society), que se rebelaram contra as ações pacifistas e desencadearam uma série de protestos e atentados contra a sociedade americana. Compactuavam também com os ideais dos “Panteras Negras” e o movimento “Black Power”.

O nome “Weatherman” tem origem em uma música de Bob Dylan, que fala da urgência de se fazer a história e do dever de cada pessoa assumir uma causa por um mundo diferente. Essa música é”Subterranean Homesick Blues”, lançada março 1965, parte do álbum “Bringing It All Back Home”. Versos da música “Subterranean Homesick Blues” (Nostálgico Blues Subterrâneo), que dizem: “Watch the plain clothes / You don’t need a weather man / To know which way the wind blows”, ou, “Observe as roupas da moda / Você não precisa do homem do tempo / Para saber de que lado o vento sopra”.

Um dos mais violentos grupos deflagrados no final da década de 60, o Weatherman tinha em mente tomar o poder e ganhou os noticiários a partir do momento em que começou a estabelecer atentados a bombas em sedes governamentais, já que seu ideal era acabar com a estrutura política – e social – dos Estados Unidos.

Com imagens originais resgatadas, o documentário mostra ações inacreditáveis, como quando o grupo chegou a colocar uma bomba no Capitólio, um dos símbolos máximos do sistema capitalista-americano e do “american way of life”, ou de quando os Weatherman libertaram Timothy Leary, guru do LSD, da prisão.

Se existia uma ordem no Weatherman, essa era para romper com a ordem estabelecida na sociedade e rasgar com as cartilhas das normas convencionadas. Para isso, o Wheaterman apoiava-se em armas além de ideologias, canções, poemas, livros e um novo comportamento, uma nova atitude. Sendo todo movimento dialético e contraditório, paradoxalmente, alguns segmentos utilizavam-se de armas e atentados para descontruir o padrão e refundar a sociedade, segundo seus conceitos, muitas vezes, difusos.

O documentário faz uma ponte entre o passado e o presente, revelando como estão os principais ativistas do Weatherman nos tempos atuais. Os diretores não só interligam, mas também mostram o que pensam os integrantes do grupo, quando analisam suas ações, quando revisitam o que fizeram no passado.

Libertários, radicais, furiosos e até mesmo loucos, o que os Weatherman fizeram entre as décadas de 60 e 70 transformam os atuais “Black Blocks” brasileiros, em verdadeiras crianças de colo. Exceto as situações das armas e dos atentados, “The Weatherman – Terrorismo ou Engajamento Político” colocam em discussão a posição da atual juventude, que é consumida pelo consumismo, cada vez mais massificada e que definha em atitude na luta pelos seus ideais e por uma sociedade mais justa e igualitária.

FICHA TÉCNICA
Gênero: Documentário
Direção: Bill Siegel, Sam Green
Elenco: Bernardine Dohrn, Billy Ayers, Brian Flanagan, David Gilbert, Kathleen Cleaver, Todd Gitlin.
Produção: Bill Siegel, Carrie Lozano, Marc Smolovitz, Sam Green
Fotografia: Andy Black, Federico Salsano
Duração: 92 min.
Ano: 2002
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estúdio: The Free Historic Project

https://www.youtube.com/watch?v=QR8pepqS-QA

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

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