Mommy, de Xavier Dolan

Tempo de corrigir uma falha: por estar viajando deixei escapar este premiado filme mais recente do jovem diretor Dolan, que provocou uma rara comoção no Festival de Cannes, onde este filme ganhou o Premio do Júri (competição), o César de melhor filme estrangeiro, e dentre dois prêmios canadenses levou 7 Jutras e mais um Especial, e 10 Canadian Screen  Awards.  Este foi o sexto longa do diretor, que nasceu em 1989 e estreou na direção em 2009 com o já interessante “Eu Matei a Minha Mãe” (geralmente também é ator do filmes que giram em torno de temas gays!). Mas os filmes seguintes “Amores Imaginários” (10) e “Lawrence Anyways” (12) continuaram a ser interessantes. Em 2013, fez o curta “Indochine: College Boy” e depois no mesmo ano “Tom à La Ferme”, primeiro não escrito por ele e o que menos circulou. Por outro lado já esteve como ator em 17 filmes.

À primeira vista, também pela badalação e por órgãos importantes da imprensa foram me deixando curioso. Seria outro engano? Tentei ver uma versão do filme que me emprestaram, mas senti que havia algo errado, parece que foi uma edição especial que Dolan fez especialmente para enlouquecer os viciados em baixar filmes!

O fato é que o filme saiu agora em DVD pela Paramount. E fiquei arrasado no melhor sentido da palavra. O rapaz é muito talentoso, criativo e nessa atual mediocridade e incompetência que tenho visto nos filmes de arte, ele é excepcional (um absurdo que não tenha feito maior sucesso aqui!). Dentre as boas ideias está o fato de ter um letreiro no começo bem difícil de ler, onde conta que a história se passa num futuro próximo quando o governo canadense criou uma lei em que as mães/familiares que tenham problemas com os filhos adolescentes rebeldes podem de acordo com certas burocracias, interná-los em hospitais, de onde sairão (dito) normais! Ou seja, lesados.

O maior impacto é ter a ousadia de rodar todo o filme no formato antigo, do começo do cinema que é praticamente uma fotografia de três por quatro, e não o widescreen que só começara a vigorar nos anos cinquenta em diante, certamente influenciado porque esse formato é o mais utilizado pelos pintores, da melhor enquadramento. E que lembra também a imagem de um celular.  Depois dele, também o diretor polonês que fez “Ida”, também usou formato parecido. Mas é outro papo porque conta uma historia de freira e refugiada, toda plácida, toda praticamente sem cor. Aqui não, é como se deixassem os personagens prisioneiros do formato de sua tela. Reparem como parece que querem escapar dessa prisão.

Não é Dolan que faz o protagonista, mas outro ator jovem Antoine-Olivier Pilon, que já tinha estado em ”Indochine” e “Lawrence”. Ele faz Steve O´Connor, adolescente hiperativo que cria problemas para sua mãe, que está longe também de ser um exemplo. Mas o rapaz é realmente um exagero, repleto de autopiedade, de lamentações a sua vida infeliz e futuro medíocre. Embora não se consiga também deixar de se ter por ele, se não uma simpatia propriamente dita, uma estima, uma compreensão. Ele fala para pessoas que são incapazes de o entender, mergulhadas que estão nas suas próprias infelicidades – no caso, a mãe e a melhor amiga dela, uma vizinha, as duas atrizes franco-canadenses são excepcionais.

O filme é tão intenso (e também tenso) que sua resolução chegou como uma surpresa para mim, que embarquei totalmente no resultado e no choque. Que em retrospecto pode parecer óbvio, mas que a habilidade do diretor faz se manter forte e atual e doente e arrebatadora.

(Idem ) Canadá, 04.

Direção e roteiro de Xavier Dolan. Com Anne Dorval, Antoine Olivier Pilon, Suzanne Clement, Patrick Huard, Michele Lituac.

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977. Recebeu uma estrela na Calçada da Fama do Cine Roxy, em Santos, em 2013 e participou como convidado de eventos promovidos pelo CineZen.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *