Programa Gasômetro é um grito de resistência e lucidez

A história dos homens se forma a partir do embate entre os opostos, num perene movimento dialético entre forças contrárias e ao mesmo tempo complementares, que rompem com as ordens estabelecidas, convencionadas e constituem novos ângulos para as pessoas compreenderem as coisas e os seres.

A juventude, principalmente a partir da década de 60, período em que aconteceram mudanças significativas na sociedade com a revolução cultural, sempre teve papel relevante nessa luta de opostos, contrapondo o que existe de conservador com o que há de libertário e justo.

O mundo nunca mais será o mesmo depois que Jim Morrison, Kurt Cobain, Janis Joplin, Jimi Hendrix – só para citar os mais notáveis -, dentre tantos outros que passaram e ainda estão por aqui. Muito mais do que sonoridades, os movimentos musicais colocam dobradiças em nossas retinas, criando ângulos, determinando comportamentos, mudando e libertando a sociedade frente a muitos preconceitos e tabus.

Da década de 60 para cá – pouco mais de meio século -, o mundo mudou numa velocidade vertiginosa. Uma das principais transformações se deu quanto à democratização da informação, que também era um dos principais desafios da juventude, que enfrentou as limitações tecnológicas e as barreiras de regimes políticos ditatoriais.

Neste admirável mundo novo que se verticalizou sobre nós, previa-se que a facilidade de acesso à informação formaria corações e mentes críticas. No entanto, a propagação de boas ideias nem sempre encontra ressonância nas novas gerações, prova disso são manifestações como os funks e outras tendências degradantes, que a cultura de massa implanta nas mentes de uma juventude completamente fora da realidade e de si mesma; fruto também de uma rede pública educacional sucateada, falha e deficiente por culpa dos governos.

É por tudo isso que o programa radiofônico, “Gasômetro”, apresentado por Gastão Moreira, com o auxílio luxuoso de Marcelo Andreassa, todas as segundas-feiras, das 12 às 13 horas, na Kiss FM (102, 1 SP) representa um grito de resistência e lucidez para a grande maioria desta “nova juventude”, que só pensa em consumir, consumir, consumir, sem se dar conta que, de fato, está sendo consumida pelo Sistema.

Com proposta pluralista, libertária e imprevisível, o programa “Gasômetro” concilia diversas épocas e tendências musicais baseado na premissa da “boa música”. Acertadamente, não recai na mesmice de fazer um programa de rock com base em músicas desgastadas como estão “Light my Fire”, para os Doors, ou “Satisfaction”, para os Stones. Ufa!

“Gasômetro” é estruturado em blocos de duas músicas. E o mais legal é que, sendo Gastão um “historiador musical”, antes de todos os bloquinhos musicais – digamos assim -, o apresentador contextualiza sobre o que irá ser tocado, de forma didática e sem a chatice do formalismo tecnicista.

Desta maneira, fala sobre a banda, a formação, a música, a letra e compila informações suficientes para quem já curte e sendo também acessível para que está começando no universo do rock e afins. Em realidade, “Gasômetro” não se restringe a um gênero musical: é amplo, irrestrito e plural, como bem define o idealizador, e assim o faz.

Vale registrar e aplaudir a coragem da direção da Kiss FM (102,1 SP) que, desde agosto de 2014, aposta em uma nova programação, na contramão da história capitalista, mas na direção do novo, do antialienante, que tem total ligação com uma emissora que se propõe a tocar rock.

Com uma hora de duração, o “Gasômetro”, de tão musical, legal e instrutivo, também por resistir às tendências comerciais e complemente vazias, é uma grande referência para juventude e para outros, nem tão jovens, mas que ainda acreditam na boa música e em novas gerações pensantes.

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

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