O Sal da Terra: O Agridoce e o Salgado

“O Sal da Terra” é o documentário sobre a vida de Sebastião Salgado. Ao princípio, fiquei com a sensação de que o sal era o tempero, mas no fim, descobri que era veneno e que se tratava de nós.

Sebastião Salgado ensinou-me para além de outras coisas, a entender que a eternidade existe e não é só um conceito desprovido de conteúdo por seu vazio intrínseco. Não, a eternidade é uma muda de planta que poderá ser por 400 anos. Fiquei convencida com o argumento de Salgado, e relativizei todo o resto da vida de um ser humano. É emocionante acompanhar a trajetória desse homem que escreve com o olhar. Inegável a habilidade pessoal e singular de observar a realidade e dela extrair o que não se vê por detrás do véu translúcido, por vezes da ignorância humana e por ignorância não se trata aqui da inexistência do conhecimento por variados fatores e circunstâncias, mas sim o horror.

Horror, que Sebastião nos conduz através das lentes da sua câmera. O horror que no princípio da sua jornada estava ali em potência com o encontro com as “formigas humanas” da Serra Pelada. Disfarçado, eu diria entre pepitas de ouro que se procuram. “É a febre”, disse, mas ele também foi acometido por uma, de diferente ordem mas de similar intensidade: a de contar histórias. E assim foi: entre os povos da América Latina, África, o mundo foi sendo descoberto e quanto mais ele cavava, mas o inferno aparecia, mais o poço se aprofundava. Será que ele tinha consciência do que o esperava? Ou foi sendo arrastado pelo fluxo da vida e das histórias que precisavam ser contadas? Talvez em consciência não, mas os olhos apertados desse fotógrafo social seguiu o rastro da humanidade, por vezes sanguinário. Enquanto estava confortavelmente sentada na poltrona de um cinema com tecnologia de ponta de uma cidade do mundo ocidental, pensava na função de um ser humano como Sebastião Salgado. O que movimenta esse homem? Uma das hipóteses é o vento. Ele gosta de ver o vento ventar e caminha em sua direção. Outra ideia é que gosta de redemoinhos que fazem o vento girar e nos transformam. Talvez também seja adepto de furações.

No final, fico com a sensação que é do vento que se trata. Talvez por isso tenha adoecido como afirma não de uma doença infecto contagiosa, mas da alma, porque nos conflitos de Ruanda, Congo, não havia vento, porque a vida inexistia. Assim como todas aquelas pessoas capturadas por sua lente que foram levadas pela morte como se não fossem gente.  Não gosto muito da palavra gente, mas nesse caso ela me traz a sonoridade que preciso de amontoado, como os corpos levados por retroescavadeiras. As imagens iam se sucedendo e em mim ia crescendo uma interrogação: biologicamente somos iguais, os corpos são os mesmos, mas o que leva a que alguns sejam vistos como nada? Qual é a fronteira que determina? E os olhos das pessoas? Havia ali um desgaste físico e emocional de um destino traçado na poeira do chão de milhares que migravam em caminhadas incessantes para buscar um pouco de água e comida. A maioria ia sucumbindo e Sebastião as imortalizava em suas fotos.

Até que um dia ele também morreu.

Morreu e não havia as três moedas para fazer a travessia. Ainda era necessário ficar nesse mundo para continuar a contar histórias. Mas agora do início do mundo. Era preciso resgatar o que de natural havia nele.

E aqui uma abertura para a presença de sua mulher Lélia, força matriz, das profundezas da terra que o guiou e percebeu que para que ele renascesse seria preciso fazer brotar a natureza ancestral da sua família, a de recuperar os mais de 700 hectares da Fazenda Bulcão, em Aimorés, no Vale do Rio Doce, Minas Gerais, onde o marido nasceu e passou a infância.

Mais de 2 milhões de árvores foram plantadas e ele renasceu com a eternidade possível de uma muda que será por 400 anos.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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