Marvel Comics – A História Secreta, de Sean Howe

Em novembro de 1961 “The Fantastic Four No. 1” era lançada nos Estados Unidos a US$ 0,10. Escrita por Stan Lee e desenhada por Jack Kirby ali se iniciava para valer o Universo Marvel como conhecemos, mesmo que os autores não imaginassem naquele momento quanto suas criações iriam valer e a quantidade de pessoas que iriam atingir. O Quarteto Fantástico foi imaginado como uma resposta para a Liga da Justiça da América da DC Comics, feito sobre as ordens de Martin Goodman, dono da Magazine Management Company, que depois viria se tornar a poderosa Marvel, desde 2009 parte do império Disney e com receitas anuais absurdas.

“Marvel Comics – A História Secreta” (Marvel Comics: the untold story, 2012) narra a história da criação desse colosso do entretenimento desde os anos 30 ainda com outro nome até a já citada venda de 2009. Com lançamento nacional pela Editora Leya em 2013 conta com 560 páginas e um apêndice exclusivo elaborado pelo tradutor da obra Érico Assis relacionando cada história citada com a publicação no país. O autor Sean Howe viaja pelas décadas para contar uma jornada permeada por brigas, desilusões, traições, egoísmo, sorte e, acima de tudo, muita, muita criatividade.

marvelcomicsA viagem proposta pelo autor tem a Marvel como foco mas também serve como panorama da indústria dos quadrinhos durante os anos, além de correlacionar outras editoras como DC Comics, Dark Horse e Image Comics como coadjuvantes de luxo. Tem como grande mérito amarrar a criação de personagens clássicos como Homem-Aranha, Capitão América, Thor, X-Men, Quarteto Fantástico, Homem-de-Ferro e Hulk (entre tantos outros) com as decisões editoriais e empresariais por trás de tudo, construindo assim um estudo de caso detalhado sobre normas de mercado e gestão de marcas, relatando todos os atropelos criados pela própria empresa.

“Marvel Comics – A História Secreta” é recheado de casos engraçados e diversos outros de pura picuinha e maldade corporativa. Tem como pano de fundo a briga eterna pela autoria dos personagens, a remuneração por parte do lucro gerado por essas criações e as conquistas que foram alcançadas a passos lentos nessa questão. Apresenta um Stan Lee sem máscara e dotado por uma paixão imensurável pelos quadrinhos, mas que tomou decisões cruéis ou pecou pela omissão em vários momentos, além de focar desde cedo na transposição das obras para o cinema, uma obsessão cega que mostrou acertadamente ser o caminho da salvação.

O grande Jack Kirby é retratado como vítima ao mesmo tempo que tem declarações contestadas pela veracidade dos fatos (como ele ter criado sozinho o Homem-Aranha). Outros artistas importantes como Steve Ditko, Chris Claremont, Neal Adams, Frank Miller e Todd McFarlane são misturados a editores, empresários e milionários em meio a discussões fortes, pedidos de demissões e desilusão com o mercado. Jim Shooter, por exemplo, o manda chuva que salvou a Marvel nos anos 70 mas logo em seguida a afundou em um processo de falta de criatividade, censura e bagunça administrativa que culminaria no pedido de falência dos anos 90, transita por esses dois lados.

“Marvel Comics – A História Secreta” é daqueles livros que pode tranquilamente carregar o status de imprescindível. É um trabalho robusto gerado em anos de pesquisas e centenas de entrevistas e por mais que não dê tanta atenção aos anos mais recentes da empresa, ainda assim apresenta material para inacabáveis análises e discussões futuras. Há de se considerar também que é um livro de jornalista e não a história oficial da empresa. Essa história foi lançada ano passado lá fora (“75 years of Marvel Comics”), um calhamaço de 700 páginas escrita pelo ícone Roy Thomas, ainda sem edição nacional.

Contudo, uma coisa é certa, depois de acabar o livro de Sean Howe, você nunca mais lerá quadrinhos da mesma maneira. Não mesmo.

Adriano Mello Costa, apaixonado por Cultura Pop, mantêm o Coisa Pop há cinco anos, filho bastardo do antigo Cultura Direta, que hoje hiberna tranquilamente. Acha o R.E.M a melhor banda do mundo (depois dos Beatles, lógico). É viciado em cervejas escuras, pães e bandas de rock com mulheres no vocal. No mais, acredita que tudo pode sempre ser melhor do que já é...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *