Entre Abelhas dá visibilidade ao invisível da vida

A velocidade com que o mundo evolui e a sensação de que o futuro já é passado, somados a um sentimento de pós-modernidade, afastam o homem de si e das pessoas ao seu redor.

A trama de “Entre Abelhas”, estrelado por Fábio Porchat, coloca em discussão o isolamento das pessoas, a depressão, a sensação de vazio e a falta de sentido na vida. Narra a história de Bruno (Porchat), um jovem editor de imagens de uma produtora, que depois de se separar da mulher Regina (Giovanna Lancellotti), em conflito por não compreender a vida que construiu, começa a desconectar-se do mundo, a tal ponto que as pessoas começam a sumir, gradativamente, de suas retinas. Bruno deixa de enxergar as pessoas nas ruas, no trabalho e também nas fotografias e nas redes sociais. O mundo começa a se diluir.

Essa busca de sentido, em meio a um mundo que já não mais o faz, é reforçada pelo roteiro alicerçado numa trama non sense, em que o improvável parece se torna real. Situação que remete ao realismo fantástico como o caso da “doença da insônia”, descrita no livro “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, quando o esquecimento atinge as pessoas da cidade a ponto delas criarem uma realidade imaginária.

Nesse espiral que se desmaterializa, quanto mais o jovem tenta manter o contato com a realidade, mais emerge no vazio de si e aprofunda-se nas ausências do mundo. O confronto entre sua vida e a sua realidade, agora beirando o imaginário, criam um novo universo oco, em que cada vez mais o personagem se ensimesma.

PDistante de si e sem encontrar respostas, Bruno muitas vezes atribui o invisível a objetos inanimados ou acontecimentos superficiais. A culpa parece estar nas coisas ou nos outros, o que mostra os conflitos dos homens em compreender e encarar os seus problemas.

Bruno tenta, desesperadamente, submergir dessa realidade imaginária – e real ao mesmo tempo – com a ajuda de uma mãe superprotetora, interpretada de forma magistral por Irene Ravache. Em suas aparições pontuais, Ravache domina completamente a cena e extrai gargalhadas a partir das situações absurdas frente a um filho que deixa de enxergar as pessoas. A grande atriz é o contraponto entre a realidade e o surreal da vida, do simples cotidiano, repetitivo, tacanho e os conflitos internos do ser humano.

Outro contraponto ao personagem Bruno é a relação que tem com o amigo de trabalho Davi (Marcos Veras), envolto numa vida fútil, conflituosa, egoísta e egocêntrica, pouco se importando com as pessoas com que se relaciona e suas consequências. Para Davi, viver é não ter consciência, apenas a busca pelo prazer, mesmo que isto promova o sofrimento no próximo. Davi é a síntese de uma sociedade cada vez mais alienada, e sozinha.

O título “Entre Abelhas” faz referência à notícia de que muitas espécies estão desaparecendo da terra e de como as abelhas se organizam socialmente. Seria um grande erro classificá-lo como simplesmente uma comédia, uma vez que nos coloca a pensar sobre o sentido da vida, mas sob uma linguagem que transita entre o riso e o drama, o que extrapola a simples análise, ainda mais de artistas com fortes raízes no humor. Se cabe um rótulo, a contragosto, poderíamos dizer que é uma comédia-existencialista.

Do plano individual para o coletivo, o filme também coloca em discussão os milhões de “invisíveis”, que formam as estruturas da sociedade, os milhões de anônimos, todas as pessoas que passam por nossas vidas, sem que percebamos, ou mesmo aquelas que um dia fizeram parte num ciclo da vida, mas que foram se tornando invisíveis com o deslocar do tempo.

Em “Entre Abelhas”, Fábio Porchat demonstra versatilidade, tornando visível que está para além do universo do bom “Porta dos Fundos”.

“Entre Abelhas”, com estreia marcada para 30 de abril, em mais de 300 salas de cinema no Brasil, mostra que é possível abordar temas complexos com humor, que é possível rir sem perder a força do questionamento. O riso, afinal, muitas vezes, vem da calamidade.

Título: Entre Abelhas

Direção: Ian SBF

Produção: Eliane Ferreira, Hugo Janeba e João Daniel Tikhomiroff, Michel Daniel Tikhomiroff

Roteiro: Ian SBF e Fábio Porchat

Elenco: Fábio Porchat, Irene Ravache, Marcos Veras, Giovanna Lancellotti, Leticia Lima, Luis Lobianco, Marcelo Valle.

Estreia no Brasil: 30 de abril de 2015

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

One thought on “Entre Abelhas dá visibilidade ao invisível da vida

  1. A forma com que Ricardo Flaitt escreveu esta crítica, e também vendo o trailler, fez com que aguçasse o interesse em aguardar a estreia nos cinemas com uma certa ansiedade. Muito bem escrito o texto, e passa muito bem os conflitos dos homens em encarar seus próprios problemas. Parabéns e continue assim Flaitt.

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