Idris Elba e a intolerância à intolerância

Recentemente em um bate-papo sobre Jornalismo Cultural que tive com alunos dos primeiro e segundo anos da faculdade de Jornalismo da Unisanta, um dos jovens estudantes me perguntou se eu apoiava a escolha pelo ator Idris Elba para possível novo James Bond – o atual é Daniel Craig. A resposta saiu natural: “Sim”. Ele replicou dizendo que o tema havia despertado discussões pelo fato de Elba ser negro, o que contrariava alguns “puristas”.

Naquela mesma semana, o volante Elias, do Corinthians, foi chamado de macaco pelo uruguaio Cristian González no jogo entre a equipe brasileira e o Danúbio do Uruguai. Para a Conmebol, entidade que rege a competição pela qual a partida ocorreu, “não foi nada demais”.

Dias depois, o filósofo e professor Mario Sergio Cortella participava de um debate na televisão cujo tema era Intolerância. Em determinado momento, o entrevistado disse que o único tipo de intolerância aceitável é intolerar a própria.

Tal sequência de fatos, em tão pouco espaço de tempo, me fez refletir e voltar ao bate-papo com os universitários. Afinal, tínhamos a chance de aprofundar ainda mais a questão proposta pelo estudante. Num mundo livre de preconceito, decisões seriam tomadas levando em conta o talento do ator, seu profissionalismo, trajetória. Independente de sua cor, raça, gênero, classe social, crença. Em pleno 2015 esse tipo de discussão se faz necessária. Mesmo tendo se passado cinquenta anos da marcha liderada por Martin Luther King – que buscava igualdade nos direitos civis – mostrada no recente filme “Selma”. A força de “Selma” não está apenas na história bem contada, nas grandes atuações. Mas por mostrar ao espectador que, cinco décadas mais tarde, o preconceito vigora. Na arte e no esporte que, em teoria, deveriam agregar e não separar. Duas áreas em que grandes artistas e esportistas vindos de origens diversas marcaram seus nomes na história e inspiraram milhões.

Mudanças em personagens de longa data são naturais. O 007 de Daniel Craig, por exemplo, é mais truculento que os anteriores. Quando foi anunciado, houve quem questionasse o hoje astro por ele não ser tão alto quanto Pierce Brosnan ou Sean Connery. Tiveram que engolir. Dois dos filmes em que atuou são listados entre os melhores de toda a série, inclusive para os mais fanáticos pelo espião.

Elba, que é britânico igual a James Bond, passou por situação parecida quando interpretou Heimdall em “Thor”. Tudo por que a terra do personagem é Asgard, onde estão Odin e seus filhos. Os radicais de plantão diziam que a trama só poderia mostrar, nos papeis de deuses nórdicos, atores loiros e de olhos azuis, de acordo com a realidade. Asgard é muito real.

A escolha de Elba para James Bond seria algo importantíssimo: um ator negro como protagonista de uma franquia longeva e de sucesso. Algo que contribuiria bastante para o combate ao racismo, ao preconceito. Mais que tudo: o reconhecimento a um intérprete competente, de forte presença, talentoso e cuja carreira vem em ascensão.

No último filme do Superman, “O Homem de Aço”, Laurence Fishburne deu vida ao editor do Planeta Diário, Perry White. Legal. Mas é um personagem secundário. Nos quadrinhos, o Lanterna Verde original, Alan Scott, é gay. Legal. Mas é um universo paralelo às histórias publicadas mensalmente pela editora e que trazem seus heróis mais populares. Não a grande estrela, o foco principal… Ao se optar por pessoas vítimas de discriminação durante décadas, séculos, para encarnarem figuras reconhecidas mundialmente, os estúdios de cinema, as editoras de livros e quadrinhos, etc, atuam em prol da democratização, do respeito ao próximo. Talvez a motivação nem seja essa: nos anos 70, personagens como Luke Cage, da Marvel, o Lanterna Verde John Stewart, da DC, Samurai e Índio Apache, do desenho animado “Superamigos”, foram criados para atender a uma demanda de público. Os chefões dessas empresas perceberam que podiam perder dinheiro se fizessem apenas produtos voltados ao público branco e classe média. Os caras não eram burros. E não são agora. Por mais que às vezes possam parecer. O ideal será o dia em que qualquer tipo de escolha não se dê por rótulo. Um futuro distante?

Aí os que pregam a “pureza” para James Bond dirão que têm direito de se manifestar, vivemos em democracia. Claro que vivemos. Todo manifesto é justo e legítimo desde que não fira a liberdade do próximo. Liberdade de amar, trabalhar, viver. Deveria ser simples assim. Só que não.

Se eu pudesse voltar no tempo, diria ao aluno que me fez a pergunta, não um mero “sim”. Que também é nossa função buscar, enquanto jornalistas, no meu caso do ramo cultural, um mundo melhor para todos. Levar ao leitor, espectador, obras que nem sempre chegam forte ao público, tipo “O Grande Desafio”, um lindo e contundente filme dirigido por Denzel Washington que sequer passou nos cinemas brasileiros – saiu direto em home vídeo ao menos. Que nós, possuidores de veículos onde podemos nos expressar, devemos ser intolerantes à intolerância, como disse Cortella. Devemos ter responsabilidade social. Livrar-nos de preconceitos. Por mais difícil que seja. Uma declaração como a do ex-jogador Denílson poderia ser questionada, debatida. Segundo ele, certa vez em papo com a apresentadora Renata Fan, se “exagera” na repercussão de casos de racismo no futebol. Não há exagero. Fala-se pouco.

Obviamente tudo escrito acima é apenas minha visão de mundo, de quem está em eterno aprendizado. Também uma reflexão sobre o que dizer se houver um próximo convite, sempre prazeroso, para conversar com alunos.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

One thought on “Idris Elba e a intolerância à intolerância

  1. Belo texto, André. Parabéns!!!!
    Quem dera as pessoas fossem julgadas pelo que realmente importa: seu caráter, seus princípios e o respeito com o próximo. E no caso de artistas, de sua trajetória e talento no ofício (ao invés de cor de pele, religião, etc).
    Infelizmente, em pleno 2015, algumas pessoas verão Idris Elba (um dos atores mais talentosos a surgir nos últimos 10 anos no cinema) não como o novo James Bond (como deveria ser), mas como “o James Bond negro”.
    Parece que o ser humano não evoluiu desde 1967, por exemplo, quando o grande Sidney Poitier protagonizou o clássico”No Calor da Noite” ,em que o personagem de Rod Steiger (um policial racista) dava-lhe um tapa no rosto. Ao invés do público se chocar com a violência do ato praticado pelo personagem de Steiger com o de Poitier, ficaram chocados com a reação do protagonista, quando devolveu o tapa no personagem do policial . Como se, pelo fato de ser negro, não tivesse o direito de se defender como qualquer ser humano.
    Triste perceber que, passados mais de 40 anos depois desse filme, ao invés de algumas pessoas ficarem felizes em terem escolhido um dos melhores atores do cinema para interpretar um personagem icônico, ainda se julgue um ser humano (no caso de Elba, um artista) mais pela cor da pele do que por aquilo que realmente importa: talento para interpretar o personagem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *