Ricardo Darín: Cinzas embaixo do Bonsai

Errar. Um dos motores do templo humano. Assim define o ator e diretor argentino Ricardo Darín em “Sangue Latino”, programa do Canal Brasil.

Durante quase 25 minutos ele discorre sobre tudo, de tal forma que até parece um filme.

E é sobre isso que escrevo.

Darín afirma sem pudores que comete erros, às vezes leves e também contundentes e desfruta da possibilidade que se concedeu de pedir perdão.

Mas a questão principal é sobre a permanência do tempo e o que fazemos com ele enquanto estamos aqui.

O pai falava muito no destino, mas ele se nega a aceitar que não seja importante o que cada um faça como se tudo estivesse pré-determinado.

Como Darín, confio “infantilmente” que alguém possa nos ajudar a ter mais claridade até que você não aceita mais as regras pré-estabelecidas.

Talvez como no amor. “Amor que serena, termina?”, pergunta Eric Nepomuceno, o entrevistador.

“Não sei o que é exatamente o amor” – responde Darín e ressoa ainda em meu ouvido a força que emprega na palavra, principalmente no “equis”.

“Não gosto muito de fazer balanços, não me dou bem com contas”, diz enquanto tica a cinza no cinzeiro.

“Já tive muitas perdas, assim como os que tem cabelos grisalhos e atravessaram várias décadas”. E aí levo um susto! Penso com a ajuda de Darín e pela primeira vez no tempo dividido em pedaços – de dez em dez e ainda parece mais impactante. O meu por exemplo já é multiplicado por quatro.

“E a dor talvez não seja uma perda, mas sim um capital. As ausências físicas, atmosféricas, essas sim são perdas, as perdas de oportunidades também são”.

E mais uma tica de cigarro quando afirma que nesse aspecto não é um grande perdedor, porque a aproveitou as oportunidades que chegaram.

Muitos dizem que ele tem um ótimo olho para ver.

darín(1)“Acho isso engraçado porque não sigo nenhuma regra ou norma. Simplesmente minhas entranhas me dizem”.

Talvez os olhos sejam seu guia no sentido em que guardam os segredos de uma alma que segundo ele perde muita água, porque chora muito.

“Sou muito exagerado com as emoções” – assume.

Tenho aprendido a ser mais – um tom acima quando se trata de se expor o que se sente, o que se quer.

Darín também me ensina sobre a valoração dos seres, daqueles que se tem falta e os cataloga como valiosos. Assim como o escritor Gabriel Garcia Márquez que escolhe para ser lido durante a entrevista.

Gosto quando compara o teatro com a vida de uma forma tão lúcida que chega a emocionar.

Com um plano minimamente pré-determinado, no qual vamos fazer um jogo combinado em no qual representaremos outras pessoas. Imersos em uma história que não nos pertence.

O teatro é perigoso – conclui. E a vida não? – reforço.

“Do que você sente falta?” – pergunta Nepomuceno enquadrando o tempo como algo que já vem passando.

“Sinto falta de jogar futebol. Muita. Sinto muita falta de conversar com o meu pai. Ele jogava um jogo muito estranho comigo desde pequeno que consistia em me revolucionar em propor enigmas ou perguntas até as altas horas da noite para que juntos pudéssemos encontrar uma resposta”.

Esse jogo me inquietou, talvez por estar na categoria do revolucionar-se, talvez pelas décadas multiplicadas por quatro, talvez ainda pelos cabelos brancos que inundam a minha cabeça sinalizando que o tempo agora é de sonhar com o que tenho de melhor.

Como Darín, creio que a solidão conquistada é uma benção.

“Me encanta a solidão”.  E questiona essa ideia ocidental de que a solidão é um inimigo e se coloca como adorador desse momento de recolhimento pessoal em que há tempo para reconhecer e fazer das estranhas um aliado no entendimento do mistério da vida.

Lembra do pai ao dizer que temos que levar o menos de bagagem possível.

E não foi só Darín que puxou a linha do meu pensamento. Seu pai também, quando ilumina a ideia, de que a propriedade não existe e o que pensamos que é nosso, já foi de alguém e será de outro em breve. Desfrutamos do privilégio do empréstimo temporário.

“O máximo que podemos querer é ficar na alma dos seres com os quais tivemos contato” – sumariza Ricardo.

Assim como as cinzas da sua existência que pretende que sejam colocadas, um dia, embaixo de um vaso que é morada de um Bonsai.

Quanta delicadeza!

Veja o vídeo com a entrevista aqui

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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