Cinderela, de Kenneth Branagh

Já estreando com bilheteria local de 70 milhões de dólares e 132 milhões globais, este novo Cinderela com atores demonstra que a Disney estava certa em investir em sua mitologia de princesas, até então em desenho animado, mas que abriram o precedente ano passado com Malévola (que rendeu 758 milhões mas tinha a atração extra de Angelina Jolie). Aqui o elenco é quase todo desconhecido (com a agora habitual aproveitamento dos jovens da série de TV “Game of Thrones”), mas muito eficiente com uma aparição esperadamente magnífica de Cate Blanchett, como a madrasta má, que não só tem algumas justificativas (dois casamentos fracassados que a deixaram viúva e pobre, além de duas filhas burras). Mas é intrigante e ambiciosa sem nunca cair na caricatura ou exagero.

Os maiores elogios porém vão para a direção de arte, que é do fenomenal Dante Ferretti, sem dúvida o maior do mundo entre os vivos, veteranos do filmes de Scorsese, Fellini, Pasolini. Ele torna todo o filme muito bonito, mas é a figurinista super premiada Sandy Powell (3 Oscars, o mais recente por Hugo) que brilha mais nos vestidos obrigatoriamente exagerados mas também vestindo a madrasta Cate como se fosse uma estrela de Hollywood nos anos 40, technicolor, com cabelos ruivos e cores quentes. Sua entrada em cena irá se tornar clássica.

cinderela_2Deve ser este o melhor trabalho na direção de um filme comercial do shakespereano Kenneth Branagh (“Thor”, o injustiçado “Operação Sombra Jack Ryan”) que teve que enfrentar a concorrência de haver muitos outros filmes de Cinderela com atores (da minha infância veio o “Sapatinhos de Crista”l com Leslie Caron, Anna Kendrick recente agora em “Caminhos da Floresta”, Jerry Lewis em “Cinderelo sem Sapato”, “Para Sempre Cinderela” com Drew Barrymore, “Cinderella” de Rodgers e Hammerstein (vista apenas na TV americana com Lesley Ann Warren e em versão anterior Julie Andrews) e até Mary Pickford em 1914, num total de 208 filmes ou programas de TV com ela.

Não chega, porém a ser perfeita por algumas escolhas: talvez seja longo demais para crianças pequenas terem paciência, não há canções o para meu gosto, faz falta, ainda que no ponto chave, que a heroína entoe uma melodia discreta. Apesar do uso da magia ser discreto, conseguiram porém dois milagres com Helena Bonham Carter (que já foi antes mulher do diretor Branagh), que chega a estar bonita e não mergulha na caricatura e exagero dos tempos do ex-Tim Burton.

Na verdade, a coisa mais fraca de todas é justamente um complemento de programa, o novo animação que a Disney fez as pressas para acompanhar o longa, o “Frozen Fever” /”Febre Congelante”, de Chris Buck e Jennifer Lee, que mesmo trazendo o elenco original (Idina Menzel, Kristen Bell, Jonathan Groff) é uma história fraca e sem graça, em que Elsa tenta comemorar o aniversario da irmã Anna mas um resfriado vem impedir isso. Existe apenas uma canção muito fraquinha que ocupa quase todos 7 minutos de projeção, “Making Today a Perfect Day”, dos mesmos originais, Robert Lopez e Kristen Anderson Lopez. Ou seja, nada é perfeito mesmo.

EUA, 15. Direção de Kenneth Branagh. Roteiro de Chris Weitz. 112 min. Figurinos de Sandy Powell. Direção de arte de Dante Ferretti. Musica de Patrick Doyle. Fotografia de Haris Zambarloukos (grego de Thor, Mamma Mia). Com Lily James (Lady Rose em Downtown Abbey), Richard Madden (Robb Stark em Game of Thrones), Cate Blanchett (madastra), Helena Bonham Carter (fada madrinha/narradora), Stellan Skasgaard (primeiro ministro), Derek Jacobi (pai do príncipe), Sophie McShera, Holliday Granger (como as irmãs más), Hayley Atwell (Mãe de Cinderela).

Estreia no Brasil: 26/03/2015.

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977. Recebeu uma estrela na Calçada da Fama do Cine Roxy, em Santos, em 2013 e participou como convidado de eventos promovidos pelo CineZen.

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