A Noviça Rebelde completa 50 anos

Quando Julie Andrews surgiu majestosa na cerimônia do Oscar 2015, recebida com reverência por Lady Gaga, que havia acabado de surpreender a todos cantando um  medley com as lindas e famosas canções de “A Noviça Rebelde”, o público no Dolby Theatre foi ao delírio, ovacionando de pé a lendária intérprete de Maria Von Trapp. Imediatamente Andrews e Lady Gaga tornaram-se top trends das redes sociais, e a homenagem da Academia ao cinquentenário do clássico musical foi considerado um dos pontos altos da noite.

Minutos antes, Scarlett Johansson havia saudado o filme com lindas palavras – ”50 anos atrás a Beatlemania varria a nação, expandiam-se as operações no Vietnã e Martin Luther King conduzia a marcha de Selma à Montgomery e em 2 de março, no Rivoly Theatre em New York, perguntou-se ao mundo pela primeira vez ‘como resolver um problema como Maria’, a adorável noviça que cantava nas montanhas com a bela voz de quatro oitavas. O filme, claro, era ‘A Noviça Rebelde’, e não havia outra solução para Maria a não ser amá-la. Dos estúdios da Fox, com produção e direção de Robert Wise e roteiro de Ernest Lehman, estrelando Julie Andrews e Christopher Plummer, o musical foi vencedor de 5 Oscars, como melhor filme. Foi um enorme sucesso na época, e desde então, tornou-se um clássico”.

"A Noviça Rebelde"

Seguiu-se então um vídeo com alguns dos mais memoráveis momentos do musical, a supercomentada apresentação de Gaga e a presença da diva dos musicais, guardada em segredo a sete chaves. ”Senhoras e senhores, a incomparável Julie Andrews”, disse Lady Gaga, em lágrimas. Julie não havia passado pelo tapete vermelho e entrou pela lateral, causando “ohhs” por onde passava até chegar ao palco. Após a ovação, muito emocionada agradeceu pela linda homenagem, abraçou e beijou Lady Gaga  e disse que ela havia realmente tocado seu coração. “É difícil acreditar que 50 anos se passaram desde que esse filme cheio de alegria foi lançado! Eu pisquei – e de repente aqui estou! Posso falar por todos ligados a  essa produção sobre como nos sentimos abençoados e, quanto a mim, que maior sorte pode uma garota ter?”

Sorte? A humildade da grande Julie Andrews é uma de suas inúmeras qualidades – extraordinária atriz, cantora e dançarina, também escritora e diretora. O ano de 2015 está dando a ela um ”revival” do superestrelato que teve nos meados dos anos 60, quando foi rainha das bilheterias, vencedora de todos os prêmios e a atriz favorita do mundo. Após a badalada participação no Oscar, Julie está com a agenda bombando: no dia 18 de fevereiro, foi a estrela do especial da rede ABC comandado por Diane Sawyer em homenagem aos 50 anos da “Noviça”. Andrews voltou a Salzburg, Áustria, para falar das filmagens, contar novas histórias e revisitar as locações esplendorosas.

Haja emoção! Todos os talk shows a querem, e em todos, a ainda bonita, elegante, classuda e eternamente jovial Julie atende a todos com sua simpatia e bom humor de sempre: “50 anos? Devo ter perdido uns 20 em algum lugar! Alguém deve ter apertado o ‘fast forward’ em mim. Se tivessem me dito que estaria falando sobre o fabuloso sucesso de ‘A Noviça Rebelde’ cinquenta anos mais tarde, jamais acreditaria. Mas aqui estou, e adorando cada instante!” Ao ser perguntada sobre a chegada dos incríveis 80 anos que não aparenta, Julie dispara, rindo: “você tinha que me lembrar disso, não é?” No dia 26 de março, ela vai abrir o TCM Classic Festival ao lado do amigo Christopher Plummer, o intérprete do capitão Von Trapp, com a exibição de cópia restaurada, em HD, do cultuado clássico, e em abril, encerra o Dublin Festival.

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As comemorações dos ilustres 50 aninhos do musical prosseguem com a exibição do longa em 500 cidades americanas, eventos com ”sing along”, lançamento de livros, revistas, DVD, Blu-ray, CD com a trilha sonora completa e boxes luxuosos com todos esses itens. Muitos me perguntam por que celebra-se tanto o aniversário deste clássico, enquanto outros passam em branco. Boa pergunta. Qual será a razão?

Não há um só motivo que explique o fenômeno que é “A Noviça Rebelde”. A própria Julie Andrews se maravilha ao constatar que provavelmente a combinação de uma história verídica, com música gloriosa, locações belíssimas, freiras, crianças e família seja a explicação. “A cada sete anos, pais e avós querem exibir o filme para seus filhos e netos, o que forma uma legião de novos fãs através das gerações”. Certíssimo, mas eu vou além: existe o fator Julie Andrews, a intérprete perfeita que, com seu enorme talento, beleza, energia e carisma consegue cativar o público e ficar em sua mente e coração pelo resto da vida. Os críticos da revista Entertainment Weekly chamam-na de magnífica e incandescente. Na época, a respeitada crítica Judith Crist decretou: “Não há tela grande o suficiente para conter o talento e energia de Julie Andrews!”

“A Noviça Rebelde” também prova que, para ser um clássico, um filme não precisa ser cínico, sombrio, violento, sarcástico, amargo, cáustico. O brilhante roteiro de Ernest Lehman equilibrou a doçura da história com a sombra da Segunda Guerra Mundial pairando sobre os personagens, sem perder o humor e a autocrítica. A direção inspiradíssima do grande Robert Wise (Oscar de direção por “West Side Story”) imprimiu austeridade na concepção da obra, resultando em incontáveis momentos icônicos, começando pela abertura – sem dúvida, a mais bonita da história do cinema. A câmera paira sobre um cenário de conto de fadas, em silêncio profundo, até vir de encontro à Julie Andrews numa explosão de música arrebatadora, criando o clima do filme e ficando impressa em nossa memória afetiva.

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A fotografia é de tirar o fôlego, um primor. Foi eleita uma das melhores pelos fotógrafos da sétima arte, inclusive pela iluminação excepcional, criando contraste do negro dos hábitos das freiras com o branco do vestido de Julie. A coreografias de Dee Dee Wood e Marc Breaux (sugeridos por Julie) são super originais e passam uma espontaneidade e naturalidade raramente vistas em musicais, como observou o diretor Tom Hooper (“Os Miseráveis”), usando bicicletas,  correrias, travesseiros e marionetes.

Outros momentos fantásticos incluem os números musicais, principalmente “My Favorite Things” – canção favorita de Michael Jackson na voz de Julie, e também gravada em jazz insuperável por Charlie Parker. Em “Do Re Mi”, Maria ensina as crianças a cantar, sendo que Wise a utiliza para mostrar espetacularmente a passagem de tempo. Foi ideia de Julie ela e as crianças subirem as escadas, com os degraus representando as notas musicais, culminando com a  chegada de Maria ao topo e alcançando suas lendárias e impressionantes quatro oitavas de sua voz perfeitamente cristalina. “The Lonely Gotherd” foi gravada por Christina Aguilera, já Caetano Veloso gravou a romântica e tocante “Something Good”, no filme cantada por Julie e Christopher (dublado) em silhueta nas sombras de um gazebo, uma outra ousadia do cineasta, da qual  também faz uso para a celestial “Climb Every Mountain”.

O clássico tem o mais lindamente filmado casamento, numa sequência de emocionar. Ao lado de Julie estão grandes nomes como Christopher Plummer como um rígido oficial da marinha, Eleanor Parker como a sofisticada,  interesseira baronesa. Peggy Wood (indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) como a suave, porém firme madre superiora. E o elenco infantil é encantador – Angela Cartwright posteriormente fez “Perdidos no Espaço”. É uma alegria e uma benção constatar que,  na comemoração dos 50 anos do longa, a família Von Trapp está toda aí, unida, e inspirando as pessoas do mundo inteiro.

noviçaNa época do lançamento de “Noviça”, algumas críticas não foram favoráveis ao musical, sendo a mais notória dessas a da ferina e azeda Pauline Kael –  imaginem, algumas de suas vítimas incluem Stanley Kubrick, Fellini, Ingmar Bergman e Antonioni, mas com a “Noviça”, a história foi diferente: ela acabou sendo demitida da revista McCall’s por pressão do público, que tinha se apaixonado pelo filme, e não a perdoou. O mesmo público via e revia o delicioso e terno musical, permitindo-lhe que derrubasse o eterno campeão de bilheteria “…E o Vento Levou” em 1965. Permaneceu número um até 1972, com a chegada de “O Poderoso Chefão”, outra obra-prima. Todavia, considerando-se a inflação, nos dias de hoje “A Noviça Rebelde” ocuparia o terceiro lugar das maiores bilheterias de todos os tempos, muito à frente de sucessos como “Titanic”, “Avatar” e  “X-Men”. Na corrida do Oscar 1965, recebeu dez indicações: atriz para Julie Andrews (a favorita, mas não ganhou porque já havia vencido no ano anterior por “Poppins”), atriz coadjuvante para Peggy Wood, fotografia, figurinos, direção de arte, e venceu os importantes prêmios de som, trilha sonora, edição, direção para Robert Wise e melhor filme. Foi premiado com o Globo de Ouro de melhor filme e Andrews foi a melhor atriz. Wise e Lehman foram os premiados do Directors Guild e Writers Guild of America, os sindicados dos diretores e roteiristas, respectivamente.

Adaptado do musical da Broadway, por sua vez baseado em fato real, o adorado musical é centrado na trajetória de sua heroína, a noviça Maria, doce mas um tanto rebelde, que em Salzburg (na Áustria), no final da década de 30, é enviada temporariamente para a casa do capitão Georg Von Trapp para cuidar de seus sete filhos, órfãos de mãe. Chegando lá, ela vai revolucionar a vida daquela família, que nunca mais seria a mesma.

O encanto do filme faz com que seja um dos favoritos, ou o favorito, de gerações e celebridades como Michael Jackson, Tom Hanks, Martin Scorsese, Christina Aguilera, Lady Gaga, Oprah Winfrey,Colin Farrell, Julia Roberts, Kerry Washington, Hugh Jackman, Alec Baldwin, Tom Hooper, Hugh Jackman, Patricio Bisso, Miguel Falabella, Glória Pires, Lília Cabral, Maria Padilha, Ciça Guimarães, Rubens Ewald Filho e o severo, polêmico Paulo Francis, do Manhattan Connection, que chegou a entrevistar Julie, visivelmente fascinado.

Vários filmes e séries citaram ou homenagearam a adorada noviça – “O Sexto Sentido”, “Shame” (com a canção “My Favorite Things”), “Operação Babá”, “Glee”, “Will & Grace” e “Friends”, para citar alguns.

“A Noviça Rebelde” é um fenômeno que decididamente passou no teste do tempo e, comemorando seus joviais cinquenta aninhos, é saudado com carinho e respeito onde quer que seja exibido, como no Cine Roxy – gratuitamente –  em Santos, e por enquanto o único no Brasil que celebrará a data histórica com a benção da Fox Filmes – um verdadeiro presente para todos. Ver e rever o alegre e inspirador musical  é como encontrar um velho e querido amigo da família, sentir a felicidade e singeleza de vestir roupas feitas de uma velha cortina e sair cantando por aí,  livre, na paisagem, escalando cada montanha, superando cada obstáculo em busca do nosso sonho.. Julie e este filme são realmente duas de nossas coisas favoritas da vida…

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Na terça-feira, 31 de março, 21h, o Cine Roxy 4 do Shopping Pátio Iporanga, em Santos, faz uma sessão especial do filme para celebrar os 50 anos de seu lançamento. Waldemar Lopes fará a introdução do evento. A entrada é franca, mas pede-se a gentileza de um quilo de alimento não perecível em prol da ACAUSA.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

https://www.youtube.com/watch?v=KuWsQSntFf0

https://www.youtube.com/watch?v=joDNMW6pDl8

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

One thought on “A Noviça Rebelde completa 50 anos

  1. SEMPRE MUITO BOM LER O CRITICO DE CINEMA WALDEMAR LOPES!!!!SABE COMO NINGUEM TRANSMITIR OS SEUS COMENTARIOS COM CONTEUDO!!!SABER DETALHES E ACONTECIMENTOS DO EXCELENTE FILME COMENTADO ACIMA,É MUITO GRATIFICANTE PRA QUEM GOSTA DO CINEMA E SUAS HISTORIAS!!!!BOM DEMAIS!!!!PARABENS AO ANDRE AZENHA!!!!QUE COMANDA OS BASTIDORES!!!

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