Um Grito de Liberdade, de Richard Attenborough

A força bruta escreve a história com as pontas das espadas e a armas de fogo. Além do poderio bélico, os conceitos criados, implantados e difundidos pelos dominantes na sociedade ocupada também exercem relevantes funções dentro do processo de dominação, com objetivo de aniquilar moralmente os adversários, inferiorizando-os e tornando-os incapazes de \enxergar sua própria força.

O filme “Um Grito de Liberdade”, do premiado diretor Richard Attenborough (Ghandi/1982) mostra a hedionda história de segregação na África do Sul, onde o império britânico dominou os territórios dos nativos e relegou o povo de origem a viver em assentamentos, tornando-os estrangeiros dentro do seu próprio país.

Expropriados de suas terras, reprimidos, vivendo à margem e proibidos de realizarem qualquer manifestação contrária ao sistema, os sul-africanos foram submetidos à brutal discriminação racial, denominada apartheid, determinando que brancos e negros não poderiam conviver nos mesmos espaços sociais.

O conflito racial na África do Sul foi revelado e discutido pelo diretor Attenborough a partir da relação que se estabeleceu entre Donald Woods (Kevin Kline), branco, editor-chefe no jornal liberal sul-africano Daily Dispatch e Steve Biko (Denzel Washington), negro, militante, articulado, que lutava contra o apartheid.

O primeiro diálogo entre Woods e Biko parecia caminhar para o estranhamento, porém, naquele momento, nascia uma grande amizade, quebrando as barreiras de cores, raças e crenças, fortalecendo os laços humanos. Confira, abaixo, um trecho:

Biko | Acho apenas que um liberal branco, que usufrui de todas as vantagens de seu mundo branco, com emprego, moradia, educação e Mercedes, talvez não seja a pessoa ideal para dizer aos negros como reagirem ao apartheid.

Woods | Me pergunto, que tipo de liberal você seria, Sr. Biko, caso fosse aquele com emprego, casa, moradia e Mercedes e os brancos vivessem em assentamentos.

Biko | É uma ideia interessante… Que bom que veio, Sr. Woods. Há tempo que queria conhecê-lo.

Woods não compactuava com o apartheid, no entanto, também não concordava quanto à posição dos militantes negros, que pregavam ódio à raça branca. A fúria, em sentido contrário, igualava negativamente o horror criado pelo ser humano. Com a evolução das conversas, Biko e Woods, em consenso, direcionaram os pensamentos de que era preciso, além do fim da segregação, estabelecer uma convivência pacífica entre brancos e negros.

Woods e Biko transitaram entre os seus mundos, tão distantes sob um contexto político inventado e imposto por uma minoria branca com interesses econômicos, mas ao mesmo tempo, tão iguais como seres humanos. Essa confluência de visões fez com que Woods, indignado com tanta barbárie, relatasse os atos do governo em um livro, que precisava ultrapassar as fronteiras para ser impresso (uma vez que sob o apartheid seria censurado) e suas palavras chegassem às autoridades mundiais.

Na dialética humana, a convivência entre Woods e Biko ampliou para ambos os lados a percepção sobre o contexto social e político da África do Sul. A luta não se limitava mais à disputa entre brancos e negros e passou a ser por questões universais de igualdade e direitos humanos.

apartheid foi uma segregação explícita, polarizada entre brancos e negros, no entanto, ele ainda existe de forma velada, com milhões de pessoas no mundo à margem de uma vida digna.

FICHA TÉCNICA

cryfeedomdvdPaís de origem: Reino Unido

Ano: 1987

Direção: Richard Attenborough

Produção: Richard Attenborough

Roteiro: baseado nos livros “Biko” e “Asking for trouble”, de Donald Woods

Fotografia: Ronnie Taylor

Música: George Fenton e Jonas Gwangwa

Elenco: Kevin Kline, Penelope Wilton, Denzel Washington

Curiosidades:

– Segundo o diretor, Richard Attenborough, alguns dos integrantes do elenco são exilados da África do Sul.

– Este filme pertence a uma coletânea de imagens filmadas por um grupo de jornalistas que cobriu a guerra da África do Sul, nos anos 1980.

 

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

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