Abstinência e insubordinação

Pelos tempos que a vida impõe, comecei a sentir a falta de algo. No começo, era um pensamento não estruturado. Era uma ausência física, uma espécie de abstinência. Mas o que seria? O café estava lá, diário, constante, o batom de várias tonalidades na bolsa, e os vícios se encerram por aqui – pelo bem e pelo mal.

De repente, identifiquei.

Descobri que tinha falta de cinema.

Talvez fosse a falta da ficção para aplacar com gosto o cotidiano avassalador – não por suas surpresas, mas sim por suas permanências.

Sei que senti falta do cinema.

“Fazes-me falta” é o título de um livro da escritora portuguesa Inês Pedrosa, em que ela não se referia ao cinema, mas sim a uma relação. E como eu tenho uma relação com o cinema, penso que esse título serve em sua plenitude aos sintomas de abstinência que sofri.

Um pouco como a Janete de “Insubordinados”, que aos 32 anos está “internada” junto com o pai, um coronel da Polícia Militar aposentado em estado terminal.

A assepsia do ambiente hospitalar é retratado no filme de Edu Felistoque com matizes de preto e branco. Um recurso interessante, mas que não me comove.Por outro lado, há nessa escolha cromática, uma intencionalidade rumo ao esgotamento físico para talvez nos aproximarmos do interior de Janete.

Ao imobilismo do pai, ela tenta resistir desenhando estratégias em que a ação é o fio condutor.

Para viver, inventa.

Escreve, entrevista, investiga.

Gosto da cena que abre o filme em que uma mulher expõe à Janete o seu gosto especial pelas narrativas de terror. Ela também explica a preferência pelos filmes em vez de novelas. A sensação de conforto que o filme traz é possível pelo ambiente controlado da cena que conclui a narrativa.

Há os que deixam em aberto, mas entendo o que ela quer dizer: a novela vai protelando no tempo uma angústia que se quer resolvida.

Talvez um pouco como Janete, que pela escrita, suspende no tempo a inevitabilidade da morte do pai.

Paralelamente, cria uma narrativa em que os personagens do cotidiano se transformam em uma história policial.

Para si, o papel de uma delegada que tem o poder de decidir quem vive, quem morre – um contraponto com a situação na vida real em que é mera espectadora.

É no hospital que seus demais personagens são recrutados: o faxineiro é no romance policial de Janete, um perigoso bandido preso na mesma cela com o atendente da lanchonete do hospital, que na trama é um dos policiais que junto com o médico e a enfermeira, se transformam na equipe do departamento de polícia a partir de onde a ação se desenrola.

Curioso, ou talvez refratário da sua condição de refém de uma realidade que não se escolheu, os personagens são caricaturas tristes, com uma inabilidade para cuidar de suas vidas.

Personagens tortos que também se contrapõe a limpeza do ambiente hospitalar – apesar da decomposição que ali existe e se pretende esconder.

Ficção e cotidiano em um ponto se entrecruzam caminhando em sentido oposto – enquanto o pai avança para o fim, os personagens do projeto de livro tentam reestruturar suas vidas.

Diana, a Janete da ficção, conduz a narrativa tratando de assuntos e feridas que são do cotidiano. Fala sobre aquela solidão que também é boa, mas que ás vezes pega pelo pé como o fantasma das histórias que as mães contam quando somos criança.

Fala da necessidade do sonho que nos coloca em pé, apesar da sua condição de acontecimento quando se está deitado.

E talvez mais importante: reflete sobre a importância da ficção na vida de todos e qualquer um.

Inclusive na minha, que já me sinto melhor da minha abstinência.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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