Mapas Para as Estrelas, de David Cronenberg, e o mundo das celebridades como uma potência da morte

Depois de um hiato de alguns meses, retorno com minha coluna Cosmograma Geral, agora bimestral. Desta vez vamos tratar do mais recente filme do cineasta e romancista canadense David Cronemberg “Mapas Para as Estrelas”, sequência natural de “Cosmópolis”, que transfere a hecatombe interna do mundo do consumo do campo das megaempresas para sua maior irradiação, o Opus Ego do mundo contemporâneo, o mundo das celebridades do cinema americano.

Woody Allen havia feito sua irônica incursão por este terreno em “Celebridades”, seu filme mais estranho e talvez mais ácido, mas Cronemberg vai mais longe e faz a autópsia de um tipo de formatação e mutação psíquica que é engendrada dentro do mítico mundo das celebridades.

Nunca o cinema foi tão fundo no estudo da paranoia maníaca criada pelo desejo de poder no mundo do cinema. Cronenberg materializa essa paranoia na figura da personagem vivida por Julianne Moore  que conseguiu vencer a Palma de Ouro de melhor atriz pelo papel no Festival de Cannes, num papel mais difícil do que o de uma vitima do Alzheimer, em “Para Sempre Alice”, que deu a ela outro prêmio de melhor atriz desta vez no Oscar deste ano.

mapascapaConsidero este papel em “Mapas Para as Estrelas” mais difícil. É infinitamente mais difícil personificar os limites da hediondez que respiram como um dragão dentro do cotidiano do sistema de produção dos filmes. Mortos, atores e o negócio, o alto negócio dos filmes onde vive um tipo novo de ciborgue humano.

Cronenberg em seus filmes tem realizado, com  sucesso, um estudo profundo e cartográfico sobre a mutação do ser humano em um tipo de ciborgue orgânico do consumo. Imagino que ele é o cineasta ideal para dirigir “A Metamorfose” de Kafka. Os personagens de “Mapas Para as Estrelas” são como monstros transmorfos  que possuem a forma humana mas por dento. São insetos gigantes clamando por amor e derrisão.

No filme D.C. usa de modo magistral um incêndio e suas metáforas  para nos mostrar os efeitos desse incêndio dentro da psique do homem e mulher contemporâneos, que vivem siderados pelo desejo de serem celebridades. A vida para o consumo, ou seja, viver apenas para comprar coisas, produz o esvaziamento do ser que é o centro fundador da depressão, da ansiedade e da ilusão que produz a perda da percepção do tempo presente.

No filme de Cronenberg, a poesia existe para promover a única ligação real entre pessoas  fraturadas, distorcidas e destroçadas psiquicamente, no filme e fora do filme o poema parece ser nossa única redenção, unindo os vivos e os mortos.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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