Birdman e A Mulher com Galhos

“Mulher com galhos” é uma das nove esculturas da exposição do artista inglês Ron Mueck exibida na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Em primeira pessoa, ele expõe uma possível chave da empatia por suas obras: “Eu nunca faço figuras em tamanho real, porque nunca me pareceu interessante. Nós conhecemos pessoas de tamanho real todos os dias”.

Discordo de Ron Mueck quando afirma que conhecemos pessoas todos os dias. Não. Talvez passamos por elas, no mínimo do contato possível, como o que acontecia com a peregrinação às suas obras.

Que tipo de envolvimento será possível estabelecer com figuras como “Mulher com as compras”, em que um bebê é massacrado junto ao colo da mãe em um sobretudo cinza desgastado, enquanto suas mãos estão ocupadas com compras ou “Natureza morta” em que um gigantesco frango morto oferta a visão da marca do corte que lhe tirou a vida?

Que tipo de envolvimento se cria com a figura de um jovem negro com uma ferida sangrando nas costelas que se localiza na mesma posição que a ferida de lança da figura de Jesus crucificado?

Total – se estivermos disponíveis para o encontro.

E isso implica estar aberto para a fabulação – postura de quem sabe que ficção e realidade são a mesma face da moeda – não as duas faces de uma.

Em “Mulher com galhos” há um convite ao desconforto com o corpo físico e simbólico. Ela está nua e carrega um “buquê” gigante de galhos que lhe faz pender com o peso.

Não se curva. Se bambeia e nos acompanha com o olhar como que nos desafiando com a provocação seguida da pergunta invisível: “Eu conheço os meus. Quais são os seus pesos?”

Ela é suporte para os galhos que também parecem ser uma gangorra – para cima e para baixo – num movimento de que a vida é feita.

“Você consegue suportar seus pesos?” – insiste.

Talvez os questionamentos tenham sido dessa ordem para Riggan Thomson – ator que encarnou por três vezes o super-herói Birdman.

Sucesso de bilheteria, bens acumulados, casamento arruinado, filha problemática.

Esse é o primeiro take.

O segundo: problemas financeiros, desintegração moral, ego faminto por alimentar.

Paradoxalmente, o homem que voa, sente-se preso em uma gaiola de conveniências, ao contrário da “Mulher com galhos” que se expõe e carrega seus pesos.

Riggan busca as suas raízes para tentar se livrar dos nós de uma existência devotada ao entretenimento.

Busca o tablado do teatro para discutir sobre o amor, sobre a vida, sobre o galho que está a ponto de cair.

O super-herói, nesse caso, é o vilão que precisa morrer.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *