A Canção da Esperança: A Arte de John Cassavetes

Atenção: a distribuidora Versátil acerta de novo!

Nunca escondi que um de meus maiores prazeres é correr atrás de filmes antigos, que nunca consegui assistir por uma razão ou outra. Muitos porque naturalmente não tinha idade para isso e nunca foram reprisados. E vários porque simplesmente desapareceram. A distribuidora de DVDs Versátil é praticamente a única que sobreviveu, ainda que às duras penas e, a cada semana, se supera lançando títulos formidáveis a preços razoáveis, até porque inventaram um Digipack que traz seis filmes no mesmo pacote (e ainda por cima com entrevistas e extras). Podem de ser de raros e excelentes filmes japoneses, mas também de clássicos filmes Noir ou de cineastas Cult.

Como é caso agora do pacote “A Arte de John Cassavetes” (já havia saído sozinho “Gloria”, com o qual ele ganhou Leão de Ouro do Festival de Veneza e, sua mulher, Gena Rowlands, foi indicada ao Oscar). Mas este novo com dois discos, traz uma raríssima entrevista longa com Cassavetes – na época em que estava terminando para a Cannon seu último filme pessoal, “Amantes”. Chama-se “I´m Almost No Crazy”, 84, e é muito reveladora. Além do pioneiro “Sombras” (Shadows) e “Assim Falou o Amor”, com o qual a Universal tentou vender para um público mais amplo (em vão). Mas para mim o sonho concretizado é finalmente conseguir assistir seu segundo filme, nunca reprisado ou editado no Brasil, depois de uma discretíssima estreia pela Paramount em 1961.

O filme se chama “A Canção da Esperança” (Too Late Blues, 61) e foi o primeiro trabalho dele para estúdios, logo depois de ter feito o quase experimental “Sombras”. A repercussão foi tão grande que resolveram se arriscar dando-lhe um orçamento pequeno, mas a liberdade de contar uma história quase toda feita em sets do estúdio. Era meio lógico que não se desse bem, já que estava acostumado a tratar sempre improvisando e tentando o original, a verdade principalmente nos atores. A Paramount escondeu o filme até agora e Cassavetes chegou a fazer um filme para o produtor Stanley Kramer sobre Síndrome de Down, “Minha Esperança é Você”, com Judy Garland e Burt Lancaster, que foi mais bem recebido mas por causa de sua temática circulou pouco.

toolatebluesAgora o choque: o filme “A Canção” é muito bom, muito interessante e os críticos mais uma vez se enganaram. Eu mesmo não percebi, por exemplo, que Stella Stevens, era uma mistura de Marilyn Monroe e Kim Novak, era muito talentosa e tem aqui um trabalho excepcional, ao mesmo tempo sincero e misterioso, vamp e inocente (para minha desculpa, eu era na época garoto) e a Stella fez depois muitos filmes, tem 141 créditos e hoje ainda viva aos 80 anos.

Como o filho é bem sucedido produtor, Andrew Stevens, ela chegou mesmo a dirigir dois filmes, um deles um documentário. Mas poucos filmes lhe deram chance: o musical “As Aventuras de Ferdinando”, “O Professor Aloprado” com Jerry Lewis, “A Morte Não Manda Recado”, de Peckinpah, “O Destino de Poseidon”, o primeiro “Matt Helm” com Dean Martin e “Papai Precisa Casar”, com Glenn Ford. O filme marcou também a estreia de um futuro cantor de sucesso Bobby Darin, marido de Sandra Dee, que funciona muito bem como uma figura passiva e covarde. Na vida real, ele era um corajoso que sabia que iria morrer cedo por causa de doença no coração, o que sucedeu em 1973 aos 37 anos.

A história conta os bastidores de um grupo de jazz, formado só por brancos (será que por isso que foi criticado?) e liderados por Darin (como John Ghost, João Fantasma). Ele conhece numa festa uma loira que está sendo explorada justamente pelo agente do grupo (um certo Everett Chambers, que não foi adiante, mas bem que poderia ser um grande vilão! Um desperdício não o terem aproveitado mais). Então Stella, chamada de Jess Polanski, tem uma voz muito diferente, misteriosa, e Darin a força a fazer parte do grupo porque também está apaixonado por ela. A moça que andava com todos antes tenta gostar apenas dele, mas tudo se agrava quando Darin covardemente foge de uma briga no bar. Jess o rejeita e na mesma noite já fica com outro, que era colega da banda. Vem aí um terceiro ato, meio irregular novamente com interferência do empresário. Mas ao menos a cena final é bonita assim como toda a trilha musical de David Raksin que teve intervenções de bambas da época: Uan Rasey, Larry Bunker, Red Mitchell, Shelley Manne, Tommy Tedesco, Benny Carter, Jimmy Rowles.

Em geral quando se espera demais, a expectativa provoca decepções. Não foi este o caso, ao contrário, o filme tem sempre uma câmera solta (um jogo de beisebol improvisado feito de maneira original), efeitos Noir e, embora evite o uso de drogas de qualquer espécie (o estúdio deve ter cortado), pinta um retrato convincente do ambiente de jazz. É claro que dali em diante Cassavetes encontraria sua voz e se tornaria um brilhante criador de uma maneira nova de fazer cinema. Mas o talento está aqui presente, diferente de tudo que fez antes e depois. Que eu achei fascinante. E não fica por aí, a Versátil tem mais…

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977. Recebeu uma estrela na Calçada da Fama do Cine Roxy, em Santos, em 2013 e participou como convidado de eventos promovidos pelo CineZen.

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