Selma: Uma Luta Pela Liberdade, de Ava DuVernay

Foram dentre outros, Brad Pitt e Oprah Wimphrey (esta nem queria fazer uma pequena participação em cena mas que resultou bem) os produtores deste filme que me parece o melhor já feito até hoje sobre a luta dos direitos civis do negro americano. Até porque é um assunto raro de se ver na tela apesar de que a maior parte de seus problemas e dificuldades continuem a existir até hoje. Estão ouso dizer até piores problemas, a beira de um conflito provocado também pela crise econômica e o orgulho ferido (vide o êxito inesperado mas facilmente explicado de “Sniper Americano”!).

Acontece para dificultar que a jovem e talentosa diretora Ava (nasceu em 1973, dirigiu curtas, documentários, episódios de serie e dois longas desconhecidos por aqui, “I Will Follow”, 2010, sobre uma mulher e os 12 visitantes que encontra num dia que a ajudam a ficar melhor e “Middle of Nowhere”, 12, também com o britânico Oweloyo, quando estudante de medicina larga o curso para cuidar do marido que foi preso. Ganhou prêmios no Independent Spirit e Gotham, mas o mais importante foi de direção no Festival de Sundance, mesmo sendo injustiçada na Oscar®, agora ao deixarem de indicar alguém do excelente elenco (a outra indicação foi para canção, Glory, de John Legend, que tem chance de ganhar e foi produzida pelo rapper Common). Ainda assim é apenas a primeira mulher negra a ter um filme na lista dos melhores do ano! O que demonstra o tamanho do preconceito contra mulheres em geral!

selmaEm parte o caso de Selma nunca foi retratado por filme de ficção por dois motivos. Como sucede em muitas famílias no Brasil de escritores famosos. os filhos herdeiros ficam brigando entre si esperando ganhar fortunas e por causa disso os projetos morrem. Essa é a razão porque vemos tão poucos projetos sobre o doutor Martin Luther King. Confesso que nunca tinha observado num filme uma visão tão profunda de sua personalidade, de grande político, líder e inspirado pregador. Todos os diálogos do filme foram reescritos, até mesmo porque os discursos oficiais, registrados pela história oficial, também só podem ser usados se forem pagos!

Acho que pouca gente na verdade ouviu falar na cidadezinha de Selma, no estado do Alabama, quando em 7 de março de 65, um grupo manifestantes, liderados por Luther King, atravessou a ponte Edmund Pettus em protesto porque aos negros não era permitido votar (embora um benefício garantido por lei, eram tantos os artifícios que na prática era impossível). Eles apanharam muito, mas também tiveram a sorte de ter uma TV que gravou tudo e passou no resto do país.

É aí que a luta se espalha pelo todo o país, chamando a atenção de brancos, estudantes, judeus, sacerdotes. Enquanto o pregador tentava convencer o presidente Lyndon Johnson, que só três meses depois do assassinato de Kennedy, não tinha coragem de enfrentar os racistas. O filme nos conta de forma comovedora a luta que vai seguir até a vitória, com muitas mortes marchando de Selma até a capital do estado Montgomery. E um momento raro e estranho, quando ele interrompe uma passeata porque sua intuição pede isso…

Francamente nunca vi um filme sobre o tema tão franco, tão aberto, tão emocionante e atual. Dá vontade de pular na tela e se unir aquela toda gente.

Mesmo escrevendo agora sobre o filme fico comovido e espantado como a Academia conseguiu ser tão cega (e olhem que a presidente atual é uma mulher negra). Sem ser demagógico, populista, ou simplista. Inclusive evita ficar indignado. De qualquer forma tudo disso demonstra de forma clara que os problemas raciais estão longe de estarem resolvidos.

EUA, 14. Direção de Ava DuVernay. Roteiro de Paul Webb. Disney. Com David Oyelowo, Tim Roth, Carmen Ejogo, Oprah Winfrey, Tom Wilkinson, Giovanni Ribisi, Andre Holland, Common, Lourraine Toussaint, Dyland Baker, Wendell Pierce, Nigel Thatch. Cuba Gooding Jr, Alessandro Nivola, Martin Sheen (sem crédito).

Estreia no Brasil: 05/02/2015.

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977. Recebeu uma estrela na Calçada da Fama do Cine Roxy, em Santos, em 2013 e participou como convidado de eventos promovidos pelo CineZen.

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