Livre: Ossos ou ressuscita-me mesmo se eu estiver viva

Cheryl está exilada da vida padronizada do que deve ser, das linhas perfeitas com que se costura o tempo. Ela tem a tesoura na mão e vai cortando quando bem entende.

E isso é libertador.

“Então, você vive ou sobrevive?”. Pergunta, provocação ou simplesmente um estado de observação inscrito – como mandamento em pedra – nas costas de um assento de um ônibus de uma linha qualquer, que movimenta as pessoas, rumo à sensação de saciedade de alguma coisa que deve ser cumprida.

Em nome de que? Em nome de quem? Talvez, em nome do tempo que não se quer perder (ou enfrentar), ganhar em soma zero onde o outro não é peça importante nem filosofal.

É isso.

A morte move – concluo.

E moveu Cheryl Strayed em uma caminhada solitária de 1.800 quilômetros pela Costa Oeste dos Estados Unidos.

Cheryl vivida por Reese Witherspoon em “Livre”, compacta em uma mochila azul e pesada o que ainda resta de uma crise existencial após a morte prematura da mãe.

Senti em sua decisão uma atitude de repugnância contra o bem, já que sua mãe sempre fora um exemplo de ingenuidade lúdica, de fé na vida, de crença nas coisas bonitas e que há sempre um por do sol no alinhamento para nascer.

Cheryl é casada com um homem bom, mas nem ele se salva deste périplo caótico e pessoal em busca das profundezas da alma em que múltiplas relações de sexo casual e heroína tentam aplacar a dor.

Imensa, gigantesca como um deserto.

O prenúncio de uma gravidez fora da curva, reacende a ligação com o divino, com a vida que ela – naquele momento – evita a todo custo.

Sem filho, corte feito com a réstia de clemência com um Deus que a todos acolhe, Cheryl parte em busca e afirma que “Quando nos colocamos fora de nossa zona de conforto, aprendemos sobre quem somos. Entendemos mais sobre a condição humana”.

O movimento pessoal se entrecruza com o coletivo, por isso quando se reduz a dimensão da jornada a um ato solitário, se aumenta a distância que nos alia ao outro ser humano e aí sim, sobrevivemos.

Cheryl foi estudante de Literatura e durante a caminhada, livros são carregados como símbolo de permanência entre redemoinhos internos.

Identifico-me em amplitude com o sentimento desta mulher que aceita – sem muita valoração das conseqüências – o que o deserto e o imponderável pode ofertar.

Heleno, personagem principal do romance “Nossos Ossos” de Marcelino Freire, também caminha em direção ao começo – é um retorno de raízes, terra batida e assim como ela, conduz um cadáver que precisa ser enterrado.

No caso dela, uma carcaça de um tempo antigo pessoal que não presta mais, é decomposição pura, no caso dele é metáfora e também não.

Heleno conduz Cícero, um antigo namorado brutalmente assassinado em uma das esquinas de São Paulo até Poço do Boi no interior de Pernambuco.

Ambos nordestinos, ambos no exílio.

Cheryl está exilada da vida padronizada do que deve ser, das linhas perfeitas com que se costura o tempo. Ela tem a tesoura na mão e vai cortando quando bem entende.

E isso é libertador.

Em contraste, o encontro com um viajante preparado com conselhos na ponta da língua a ofertar em tom professoral e que desiste no meio do caminho – por segurança – enquanto ela, vai seguindo, vivendo o que está aí, o que é possível.

É certo que a sorte favorece os audazes, mas há um algo mais – o não ter nada a perder.

Rigorosamente nada.

E o nada abre perspectivas, mais do que incertezas. Cheryl começa a sua caminhada anônima e no decorrer dos três meses vai sendo conhecida como a “Rainha do Deserto”.

Talvez por ser mulher? Talvez por estar sozinha? Reduções que se ampliam com o primeiro homem que cruza o seu caminho. Uma carona que aparentemente parece ser perigosa – mas para ela o que seria o perigo depois de violências auto-impostas?

Uma oferta de banho quente, roupa limpa, comida na mesa e ela aceita descobrindo que a casa era de paz, com um marido e uma mulher acomodados pelo tempo e inércia das escolhas.

Cheryl provoca uma admiração e um desconforto na esposa opaca, pesada, com quilos a mais de insatisfação. Sentada à mesa com a comida bem preparada, servindo ao marido, fica a sensação de que algo poderia ter sido vivido com maior intensidade e ela até arrisca em dizer que a acompanharia, mas rapidamente ou até por pavor daquele que começa como um medo miudinho, o marido a ridiculariza.

Aponta a falta de mobilidade, o andar em forma de caracol, ou até mesmo o abandono  dos lagartos estendidos na areia do deserto.

E em confissão num tom de bravata recolhida no sal da humilhação, no carro e longe do olhar fatigado da mulher, expõe-se a Cheryl – nunca esteve em uma bifurcação na vida. Puro acaso ou talvez não.

Na trilha do trem, só vai quem tem medo de não viver.

Há uma necessidade inicial de uma redenção pelo seu comportamento “inadequado” perante a sociedade que se apresenta como uma estrutura sufocante.

Como quando nos sentimos imundos, depois de um dia quente em que o suor se entranha, o que importa é tirar a roupa o mais depressa possível e em estado natural sentir que pela água que escorre em nosso corpo, somos abençoados.

Os pecados escoam pelo ralo do banheiro.

Mas com o desenrolar dos dias, noites e tardes e essencialmente dos silêncios, ela compreende que há muito estava redimida.

Impressiona-me a cena em que com os pés desfeitos em bolhas e sangue, despega com coragem a unha do dedo. Aflitivo e doloroso como a alma que vai se desapegando de escombros de pensamento mortos, comportamentos desajustados para estar aí, na vida.

Uma das botas cai no desfiladeiro e a outra – com um intervalo de segundos enfurecidos, mas também impetuosos – é atirada.

Acaso, decisão e conseqüência.

O que não pode ser apagado, são os hematomas em lugares do seu corpo – como pontos cardeais que norteiam, bússolas que apontam que o caminho é por ali.

Apesar dos cruzamentos diários na rua e das encruzilhadas internas.

Cheryl compartilhava a autoria de frases literárias como marcos, em cada estação para o descanso e há uma que dialogou em discurso direto comigo: “Nunca estamos preparados para o que esperamos”, porque o processo é que importa, as pedras é que fazem a diferença, os olhares caídos no chão por vergonha de serem admirados, gostados, desejados.

Mas ninguém nos ensina isso.

Apesar de ter sido a morte, a mola propulsora de Cheryl Strayed para as coisas serem sacudidas e jogadas para o alto, é a reserva intensa de vida, o manancial de fluxo sanguíneo que a faz permanecer até o último passo que conclui a trajetória.

Um caminhão parado descarregando na calçada de uma rua da minha cidade, chama atenção – na língua original de Cheryl Strayed está escrito: “Melhores coisas estão chegando”.

livreposterAnoto mentalmente, assim como o escrito de humanidade que estava no banco de um ônibus na cadeira da frente.

Fico com a sensação de que havia em Cheryl duas forças que não são antagônicas, mas complementares: vida e morte.

A intenção de desistir acompanhou-a como urubu que voa baixo perto da carniça, mas não houve pouso. Não houve carne comida.

Pés comidos, mas como conseqüência da decisão de ir.

E talvez a decisão de ir, um salto no escuro, um flerte com a morte, ou mesmo um jogo de xadrez em que se sentam os jogadores para a partida final.

“Cai o pano”, assim termina o romance “Nossos Ossos”.

Em “Livre”, há uma corda que pode ser feita também de pano e que se desenrola por 1.800 quilômetros como um fio de vida. Cheryl, dessa vez, não pegou na tesoura, não mutilou, mas sim costurou os pedaços abertos, os furos no tecido, para recompor a sua história.

Livre.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

One thought on “Livre: Ossos ou ressuscita-me mesmo se eu estiver viva

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *