Cicatriz – até onde pode uma paixão?

Triângulos me sufocam. Não gosto da forma. Em “Duas irmãs e uma paixão”, Caroline e Charlotte apaixonam-se pelo escritor Friedrich Schiller.

Ele por elas e determina-se uma relação tripartida. Mas os sangues são diferentes.

As irmãs estão ligadas pela hegemonia genética e ele é um corpo estranho.

Sedutor, por certo. Mas estranho.

Embaixo da força das águas que caem em cascata, Caroline e Charlotte prometem ficarem sempre unidas.

Em “Boa Sorte”, João ama só Judite.

Judite já se relacionou com muitos – agora está doente.

João nunca se relacionou e encontra-se em uma clínica de dependentes químicos.

“Me conta uma coisa que você nunca disse para ninguém” – diz Judite quando a bola está do seu lado na mesa de pingue-pongue.

“Um segredo” – responde João

“É … dá boa sorte” – bate na bola Judite.

Em “Duas irmãs e uma paixão”, o projeto de união entre três parecia perfeito – e foi – durante algum tempo.

Judite escreve em um diário uma cosmogonia própria associando João à um cachorro.

PosterCinema Boa Sorte1.inddAs irmãs e o poeta também – à semelhança de Judite – inventam um novo modo de estarem juntos.

Mas onde fica a cicatriz?

Em “Boa sorte”, de Carolina Jabor, o terceiro vértice do triângulo é a morte.

Assombra e apodera-se do desejo de Judite de viver com João.

João é ingênuo o suficiente para não entender a profundidade da cicatriz de que ela tenta poupá-lo.

Gosto da cena em que a invisibilidade provocada pela mistura do refrigerante com medicamento leva-os para caminhar pela cidade, entrar no cotidiano da casa dos pais do João onde impera o descaso, o fio gasto das relações.

A normalidade aparente dos que não estão internados é posta em causa pela visibilidade do isolamento.

Charlotte, Caroline e Schiller se enredam na utopia de que a paixão poderá ser fracionada em porções iguais.

Como se fosse possível, com uma regra e esquadro, milimetricamente falando dominar os fluxos que deveriam – como na teoria – serem de mesma intensidade.

Caroline e Schiller são um. Charlotte e Schiller são outro.

Caroline, Charlotte e Schiller formam um triângulo.

No decorrer da narrativa, Charlotte vai sendo tomada por um ciúme – discreto de início, mas de temperamento forte.

Aos poucos, ele cresce e toma o caminho sem volta da turbulência de uma mente fragilizada.

Caroline, com maior entendimento e flexibilidade perante os fatos da vida, segue seu rumo sem se ater ao vermelho que ruboriza o coração da irmã.

Ambas engravidam e Caroline casa-se com o melhor amigo de Schiller.

A dúvida sobre a paternidade paira e embolora a relação entre as irmãs – como toalha molhada junto à maresia.

Mofado também e o lugar onde Judite e João tecem os fios de uma paixão.

Mas há também o tempo do descontrole em que se dança nos corredores em uma instituição que se pretende de introspecção.

João não quer voltar para casa e fica nu.

Tenho a sensação de que é isso o que acontece quando nos apaixonamos.

É um desapegar tão forte de nosso corpo que tudo o resto ainda está por descobrir.

Judite quer proteger João e simula uma traição, mas o que ela não conseguiu perceber é que a maior traição foi dela, em não permitir que ele vivesse na intensidade o que sentia.

A paixão também tem um toque de limão – é cítrico.

Assim, como o suco espremido misturado com água que Judite usa para escrever criptografado em seu diário – como quando queremos esquecer algo de nós mesmos.

Schiller morre, mas o laço selado no frio das águas entre as irmãs fica para ser reconstruído.

Judite morre e o fio da memória de João é reconstruído com a leitura do diário em que ele se vê como cachorro.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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