Relatos Selvagens, de Damián Szifron

“Tolinho” – diz a “ingênua” Chapeuzinho Vermelho ao ver o lobo morrer envenenado depois de comer uma balinha. Em “Uma chapeuzinho Vermelho”, livro de  Marjolaine Leroy,  há uma inversão de papéis: o malvado lobo torna-se cada vez mais frágil, desconstruído,  por uma segura chapeuzinho. A fragilidade dele, e o desejo de vingança dela o conduzem  à morte.

Ou melhor, o suposto mau hálito dele (ou a auto estima balançada) é o que faz comer a balinha gentilmente ofertada pela Chapeuzinho Vermelho.

Vingança das mais puras. Ou das mais doces se preferirem.

Vingança é um prato que se come frio, diz-se na rua, mas se olhada bem de perto ela é como um fósforo na caixa – inerte, mas pronto a acender.

Basta um risco… ou cruzá-lo.

Vingança é uma palavra que começa com a mesma letra de vida –  e é sua constitutiva.

Vingamo-nos em proporções e intensidade distintas.

Vingar é próxima de vigiar – com o olho bem aberto esperamos pela hora certa de dar o bote.

Boa expressão, mas que abre um espaço para refletir – damos o bote para ainda permitir a fuga, aquele ínfimo lapso de tempo que permite o voltar atrás? Ou é a corda mesmo para enforcar?

“Relatos Selvagens” é um filme sobre vingança – aparentemente. Mas é mais do que isso, porque nada é só uma coisa.

São histórias curtas, tensas e tenazes – como aquele bife solado que fica difícil de mastigar.

É selvagem porque mostra a natureza humana, não no seu estado primeiro de quando havia uma maça que se transformava em cobra.

Não, ali não há metáforas. É uma realidade dura, crua e extremamente atual.

Algumas chocam mais, mas todas incomodam.

E há um riso nervoso de quem é apanhado de surpresa e não sabe como reagir.

Como quando se descobre a pouco e pouco junto com os passageiros de um avião, que ele havia sido fretado por um homem com sede de vingança.

Engraçado porque não associamos a palavra fome ao sentimento, apesar de ele ter uma apetência pelo canibalismo.

Queremos comer o outro vivo.

Ou talvez porque o liquido seja mais sutil – condição necessária para que a vingança aconteça em sua premeditação.

Como na história protagonizada por Ricardo Darín – uma vingança pessoal, mas que atinge com estilhaços (literalmente) o bem comum.

E quando nos vingamos, o que está em causa?

A pergunta é feita e respondida de diversas formas.

A reputação de uma família que se percebe no direito de comprar a liberdade do jovem filho em troca da suposta segurança material da família do jardineiro que se dispõe a assumir o crime.

Na cozinheira, que aproveitando a oportunidade de vingança da amiga, mata “como um porco” o político corrupto.

Será que foi por compaixão pela dor da colega de trabalho em ter perdido sua família por causa do agiota, ou foi instinto?

A barbárie é um dos fios que o diretor Damián Szifrón manipula nesse teatro de bonecos e Pedro Almodóvar puxa como produtor e dá um laço para presente.

Para mim, ela fica mais explícita na história em que dois homens disputam até a morte a razão. Um, símbolo do sucesso capitalista e contemporâneo, conduz seu carro importado, pelas estradas como um desbravador. O outro, derrota em pessoa – e aqui o maniqueísmo é importante – dirige uma camionete esquecida pelo tempo.

relatosposterO encontro entre os dois acontece e a soberba toma conta do capitalista que desdenha do representante do proletariado – em alguma medida.

Com avanços e recuos na história, encontros e encontrões (a luta corporal é forte), vejo na tela, não dois homens do meu tempo, mas sim dois homens das cavernas com pedaços de ossos corpulentos batendo na cabeça um do outro e mordendo-se.

Impressionante.

Quando penso em vingança, a palavra semente me ocorre.

Há um momento em que ela levada pelo vento ou por um pássaro de ocasião cai na terra e pode germinar.

Mas também pode se transformar em um germe, um micróbio, uma larva que se alastra pela pele trilhando um caminho.

No último relato, a vingança assume contornos imprevisíveis em uma festa de casamento, mas com direito a um final feliz.

Não sei se muito direito, talvez tão torto como o aplique de cabeça da noiva.

Estreia no Brasil: 23/10/2014. 

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

2 thoughts on “Relatos Selvagens, de Damián Szifron

  1. Adorei esse filme! Um dos melhores que já vi. Terminei de vê-lo com sorriso no rosto estupefata pela genialidade do autor. Seus comentários, Vivi, são precisos como as mãos de um cirurgião. Magnific!
    Ao sair sorrindo de alegria por ter presenciado aquela obra-prima em desfile, deparei-me com uma senhora dizendo ao gerente do cinema que detestou o filme por abordar todas as piores atitudes humanas.
    Eu penso exatamente o oposto, todos os piores instintos humanos são ativados quando nos vemos com raiva ou ódio e esses sentimentos são bem humanos. A selvageria é disparada quando permitimos que esses sentimentos nos invadam, quando abrimos espaço para que dialogue com as provocações do outro e aí sim, perdemos o controle.
    A virada final do casamento para mim não pareceu um final feliz, mas sim o final possível de um personagem fraco, o príncipe da rainha mãe que pensa que tudo pode e se vê seduzido por aquela diva louca que ataca a todos em golpes físicos ou simplesmente ao assistir suas atitudes desmedidas, mas extremamente pertinentes ao enquadrar a hipocrisia e as convenções sociais.
    ESTUPENDO, SENSACIONAL! Quero ver de novo!

    1. Comentário tão perfeito quanto o próprio texto. O filme é realmente genial! Ao desnudar as entranhas dos seres humanos nos faz reconhecer o pior de nós mesmos e, mesmo assim, cravar os olhos arregalados na tela e abrir um patético sorriso amarelo.
      Praticamente como olhar-se no espelho depois de um dia em que tudo deu errado.

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