Chef | Ah… a poeira da sola do sapato!

Há um tempo determinado para que se aceitem as coisas que nos acomodam. Vindas de outros. Do externo.

Se aceitam e justificam por uma infinidade de razões mais ou menos redigidas e postadas em uma rede social ou escritas a lápis em um caderno de anotações que se leva no bolso da camisa.

Junto ao peito.

Até que a bolha de sabão estoure, ainda há tempo para se viver, então, em uma sensação de bem estar controlada.

Mas, chega o dia, em que algo remexe com tanta força, que somos impelidos a sair da casca da normalidade e buscar a poeira da sola dos nossos sapatos.

Nem sempre é fácil, nem sempre o fazemos por nossa própria conta e risco.

Na maioria das vezes, é o outro que nos acomodou, que dá o ultimato… nos despede do emprego, nos descarta da relação.

Estamos no limbo.

“Chorando pitangas”, “comendo o pão que o diabo amassou”… expressões gastronómicas que emolduram um momento em que tudo parece ruir.

“Chef” de Jon Favreau é isso. Um homem arrojado, criativo em seu tempo, e que há dez anos está subjugado a interesses mercadológicos.

Por medo, por pressão, simplesmente por ser. Não importa o motivo.

Nesse lapso de tempo, casou, teve um filho, separou e engordou.

Ficou a “pão e água”.

“O caroço do angu” se forma quando um famoso crítico gastronômico da cidade visita o restaurante e ele, o chef, é “convidado” pelo proprietário do restaurante a cozinhar o que é rentável.

O trivial, o acomodado, o cotidiano das coisas pequenas. O que se come e não se saboreia.

O chef aceita o “convite” –  assim às vezes como nós, perante situações decisórias, entre o incerto e a linha que já conhece a casa do botão.

E o crítico ao provar a comida isenta de alma faz “cara de quem comeu e não gostou”.

A partir daí, é o tempo da poeira na sola dos sapatos.

cheffCom um trailer, viaja pelos Estados Unidos da América, vendendo comida cubana, recuperando a relação perdida com o filho, com sua barriga, com a vida.

Não adiantava mais “ chorar sobre o leite derramado”, apesar de “ ficar com a cabeça igual a uma gelatina”.

Com o filho, em movimento, experimenta a partilha de ensinamentos, de relacionamentos que se cozinham com temperos, especiarias e dedicação.

Faça o que seu chefe mandar: “Pular da frigideira pro fogo” e “Quem não arrisca, não petisca”.

“Chef” é um convite não só de sabores e aromas, mas essencialmente de ímpeto, em que a linha no chão que separa a vida de uma grande aventura fica piscando como um semáforo.

Estreia no Brasil: 14/08/2014. 

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *