Mesmo se nada der certo: Mais fio, do que pérolas (ainda bem)

Mais fio, do que pérolas. Está aí uma expressão que me fez pensar sobre a importância de um fio de nylon. Em “Mesmo se nada der certo”, tudo dá certo, e na verdade o título original merece um sim como resposta.

“Can a song save your life?”, pergunta o filme. Sim, uma música pode salvar uma vida corroída por dentro.

Sim, um fio de nylon encerra uma promessa de um dia acomodar pérolas enfileiradas que se fazem em colar.

Mas o fim é o princípio, assim como a essência é o que começa.

Em “Mesmo se nada der certo”, há um estereótipo de um produtor musical abalado por um casamento corrompido, uma filha adolescente que não se percebeu crescer, um saco cheio de lembranças ruins que merecem ser jogadas pela janela do carro como as demos de músicas sem emoção.

Ele procura a pérola.

Mas o clichê de personagem não desgasta a proposta. Gosto do detalhe do abandono, com as solas dos pés encardidas de um corpo jogado em uma cama em que o elástico do lençol para dois não está bem condicionado. Está laço, porque ele não sabe estar sozinho.

Ela, uma estudante inglesa de música, passa uma temporada com o namorado em Nova Iorque para cumprir uma agenda de compromissos de alguém que acabou de se tornar famoso.

Em paradoxo, pensa que o elástico da sua cama de casal está bem seguro.

Naturalmente, se perdem um do outro e ela encontra, então, o produtor musical.

Gosto dos vários pontos de vista desse encontro, como gosto de vê-los caminhando pela cidade ouvindo músicas de suas playlists. Ao mesmo tempo, como em um coro, em uma partilha de fones de ouvido.

Há nesse filme aquela doçura que embala e que faz com que a experiência do cinema seja como a “Anunciação”, de Alceu Valença.

“Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais!.

E há também a voz do anjo sussurrando no meu ouvido, a voz das paixões que vem de dentro.

E dos desencontros e tempos perdidos.

Um fio de nylon para ser quebrado precisa de um esforço concentrado e de uma intensidade. Experimente tentar cortar com a boca ou com a mão. Resistente, ele oferece uma renovação de interesse e uma tesoura acaba por resolver a questão.

Um fio que corta o outro.

Em “Mesmo se nada der certo”, há uma sugestão nesse sentido, em que um amor substitui outro, mas é tudo mais profundo.

“Os cupidos querem recolher suas flechas”, como na canção escrita por ela como presente de Natal para um namorado que por se perder no caminho da fama, deixa a barba crescer.

E isso me recorda uma das minhas músicas preferidas: “Só porque isso te faz sentir bem, não quer dizer que você esteja certo”. Assim é na letra de Skunk Anansie, assim o é em um relacionamento em que se perde o compasso e há a ilusão que tudo está bem.

Mas há sempre a união dos perdedores, a revanche de quem foi excluído do processo.

A música acaba por ser o fio de nylon que se prepara para receber as pérolas. E aí reúne-se todos os infelizes, desajustados para que a magia aconteça, como afirma o produtor musical, que passa um momento de desespero temporário.

mesmosenadadercertoClaro que há uma infinidade de clichés, de que tudo pode dar certo, mas na vida também há os lugares comuns e não tão comuns assim.

E o que há de errado com o que é comum, com sentimentos que são universais, aqui e na China, na esquina da minha casa, ou em uma noite que se transforma madrugada em que duas pessoas caminham pela cidade palmilhando com cuidado um relacionamento em potência.

Entre os dois, um projeto em comum, um álbum gravado na cidade viva, com crianças cantando em backing vocals improvisado em troca de pirulitos e um maço de cigarros, com o barulho da cidade em movimento. Com uma cabeça tomada por uma montanha russa de sentimentos e dúvidas.

Entre eles, fica a promessa suspensa por um olhar demorado (quem nunca passou por isso) em que não se avança por medo da recusa, do ridículo, em que se permite que o destino resolva por nós.

Se tudo está escrito e nos resta seguir o script, “Mesmo se nada der certo”, oferece a possibilidade de montar um quebra-cabeça em que nem todas as peças se encaixam.

Estreia no Brasil: 19/09/2014. 

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

3 thoughts on “Mesmo se nada der certo: Mais fio, do que pérolas (ainda bem)

  1. Belo texto, Vivi!… A partir dele, percebe-se que este é um filme que vale, efetivamente, ser assistido. Parabéns!

    Beijos

  2. Dessa vez, inverti: assisti ao filme para depois ler teus comentários. Ficaram mais saborosos e por que não dizer, musicais ? Parabéns pela sua síntese de observação da vida dos personagens. És pérola !!! Um abraço geral e musical.

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