Mais do que um goleiro

Caro Aranha,

Não sou santista, mas sempre acompanhei sua trajetória, desde a Ponte Preta. Uso este argumento porque suas posições estão acima de qualquer paixão por clubes, ao contrário do que pensam muitos torcedores gremistas e suas vaias, estúpidos por conivência, selvagens por espírito de corpo.

Suas posições estão acima do esporte que você pratica porque demonstram com clareza que o futebol não deve estar alheio às leis. Muitos costumam achar que, dentro do estádio, tudo é perdoável. O jogo seria, neste caso, um purgatório onde pecados perdem efeito, onde a violência é reles artimanha inerente aos acontecimentos.

Suas palavras indicam, num país onde impunidade é regra e Justiça é coisa de gente chata, que um goleiro é – acima de tudo – um cidadão. E, como cidadão, ele deve ter consciência de seu papel social e de sua posição dentro da história. O racismo persiste até hoje porque muitos se calaram – concordando ou não – com a discriminação.

A discriminação racial perdura nos intestinos da cultura brasileira porque a turma do deixa disso – travestida de turma do bem e outras bobagens politicamente corretas – se agita para assegurar a invisibilidade do racismo. A negação é o sintoma mais antigo de um câncer que insiste em dissolver as células presentes nas raízes da formação do Brasil.

É vergonhoso ouvir o técnico do Grêmio, até ontem comandante da seleção brasileira, falar em esparrela para te desqualificar. Em outras palavras, diminuir – como branco – o relato que um jogador negro fez a um juiz de futebol. Um relato nada mágico, somente obrigatório.

É triste ouvir o testemunho do maior jogador de todos os tempos, também negro e vítima constante de racismo, que ameniza o problema quando confunde esferas pública e privada. Pelé disse que, se tivesse paralisado cada jogo em que foi chamado de crioulo ou macaco, muitas partidas não teriam sido encerradas. Por que não parou? Por que se calou?

https://www.youtube.com/watch?v=nuQBdlZhJew

Vídeo: retrato do jornalismo preguiçoso, racista e a postura de um homem.

Pelé, infelizmente, se encaixou no mito do embranquecimento social, conceito da Psicologia que – resumidamente – explica como um sujeito deixa de ser vítima de discriminação conforme escala a pirâmide socioeconômica.

O Grêmio mereceu ser punido. Você salientou, com propriedade, como pedimos Justiça e nos assustamos com a pena. É o exercício do cinismo, que expõe a omissão do clube gaúcho.

O Grêmio não fez o mínimo esforço para punir os torcedores que provocaram a exclusão do clube da Copa do Brasil. Não foi você, Aranha, que causou a eliminação do time gaúcho. Foi a selvageria de torcedores, simbolizados pela moça, azarada em ser flagrada por câmeras de TV.

A imprensa também colabora com a perpetuação do crime racial quando transforma uma chaga em entretenimento. Repórteres se confundem entre a hipocrisia e a (falsa) imparcialidade. A imprensa é cínica quando leva a garota à TV para fazê-la chorar diante dos holofotes. A garota deve responder pelos atos cometidos, e não ser crucificada em redes sociais. Aranha, foi admirável vê-lo se negar a entrar no picadeiro e compartilhar da farsa circense.

Outro incômodo nesta tragédia de ilusões é saber que os jogadores de futebol não te apoiarão, de fato, no combate ao racismo. Veremos faixas no centro do gramado, declarações protocolares, mas nada mais contundente. É a sociedade que crê – de forma carnavalesca – na mestiçagem festiva das raças.

Aranha, você é o herói nacional do último mês. Até porque você já disse, quando o assunto é racismo, não existem mártires. Somente vítimas e selvagens.

Marcus Vinicius Batista é jornalista e professor universitário. Adora escrever sobre histórias cotidianas e personagens anônimos. Escreve também sobre educação, política e futebol. É um goleiro mediano, leitor voraz e, paradoxalmente, sereno. Gosta de um bom cinema, que pode também ser um filme ruim. Apaixonado pela praia, pelo mar e por seus dois filhos, Mariana e Vinicius.

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