O Doador de Memórias: Trama futurista adolescente repete ideias, mas diverte

O sucesso de “Jogos Vorazes” rendeu outra franquia adolescente futurística baseada em livro best-seller, “Divergente”. E depois este que tem assinatura dos irmãos Weinstein e produção de Jeff Bridges, que também atua. Dirigido por Phillip Noyce (“Salt”), repete o formato das demais: coloca atores jovens em meio a veteranos, garantindo certa qualidade na atuação – exceto Katie Holmes, sempre insossa, e Meryl Streep, que aderiu à persona megera e parece não fazer esforço para tanto.

Futuro. Após algum evento que devastou a humanidade, e que não é explicado, pequena comunidade vive de maneira aparentemente ideal: sem doenças, conflitos, inveja.  Também sem sentimentos. Diariamente as pessoas precisam ingerir uma substância que inibe qualquer tipo de emoção.  Após atingirem a idade-limite, têm suas funções definidas para a vida adulta: quem será médico, piloto de drones, etc. Mais ou menos ao estilo de “Divergente” e até o Krypton de “O Homem de Aço”. Entre esses “cargos” está o receptor de memórias, papel que caberá a Jonas (Brenton Thwaites), cujo tutor é o Doador (o The Giver do título) vivido por Bridges. O doloroso treinamento levará o protagonista a receber as memórias de eras anteriores, quando os seres humanos se apaixonavam, se alegravam, sofriam. O objetivo é, em caso de crise, utilizar essas lembranças de quando o planeta era diversificado para resolver os problemas.

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A concepção futurística da vila é interessante: como se fosse uma ilha flutuante cercada por nuvens, que escondem o que sobrou da Terra. Não há carros, mas bicicletas. Tudo é muito belo, organizado. A líder interpretada por Streep comanda a sociedade com mão de ferro. Sempre sorridente, porém atenta a não deixar a ordem dar espaço ao caos. Bebês que não possuem certo grau de peso e altura são desprezados como na antiga Esparta. Há anciãos que definem e controlam o rumo das coisas.

odoadorSão várias as metáforas com sociedades totalitárias. Discussão necessária, já que, de tempos em tempos, aparecem ditadores e lunáticos que pretendem “curar” a humanidade. A fotografia começa completamente dessaturada e vai ganhando novas cores conforme Jonas descobre os sentimentos. Artifício interessante, usado de forma parecida no divertido filme espanhol “Sexo por Compaixão” (2000). O ato final pode não agradar, pois jamais é detalhado como funciona a tal fronteira e justamente um objeto abordado em determinado momento da trama ressurge do nada para ajudar o herói. Não que isso derrube o filme.

Ainda que evoque as séries citadas acima, e outros filmes essenciais a exemplos de “1984” e “Admirável Mundo Novo” – ou seja, não traz ideias novas -, mantém o interesse e diverte.  Para quem foi ver sem expectativa alguma, eis uma grata surpresa e que pode ser lapidada em continuações.

Estreia no Brasil: 11/09/2014.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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