Cavaleiros do Zodíaco – A Lenda do Santuário: Milhões em visual e esqueceram de chamar um roteirista

No aniversário de vinte anos da chegada dos personagens japoneses criados por Masami Kurumada ao Brasil, um filme que recria a mais famosa saga do anime: o Santuário. Antes da análise fílmica, é preciso ressaltar: o longa é um fenômeno. Estreou no país por que houve mobilização nas redes sociais. Até abaixo-assinado fizeram.

A Diamond Films, distribuidora atenta e competente, que trouxe “Dragon Ball Z: A Batalha dos Deuses” em 2013, não só atendeu ao chamado, como utilizou os dubladores originais da série. Em anime, dublador é popstar: dá autógrafo, é venerado. Foi a vitória dos fãs. E aí mora o perigo ao se escrever sobre um filme assim. Que se entenda errado o que a crítica quer dizer. Que uma análise seja encarada como mero manifesto contrário. Não é.

Confesso: sou fã da série. Daqueles que sabem as músicas, algumas em japonês. Tinha grande expectativa. Infelizmente: veio a frustração. De quem esperava mais. E, no papel de crítico, perceber um trabalho visual tão bem feito cair por terra graças ao roteiro apressado. Ou pior: à falta de roteiro. A impressão que dá é que gastaram milhões contratando grandes profissionais da computação gráfica e esqueceram de chamar um roteirista.

Com orçamento milionário, “Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário” começa em meio à ação. Saori Kido é a encarnação de Atena. Não sabe disso. É quase sequestrada por que o Mestre do Santuário pretende evitar que a verdade venha à tona e seu poder seja questionado. Surgem Seiya, Hyoga, Shiryu e Shun, os Cavaleiros de Bronze, que irão protegê-la. Para resolver a situação, precisam ir ao Santuário e enfrentar os poderosíssimos Cavaleiros de Ouro.

cavaleirosposterA computação gráfica é bonita, ainda que traga um velho problema do gênero: a falta de vida nos olhos. Para os fãs – e a palavra, nesse caso, beira o fanatismo religioso – estão lá a já citada dublagem original (excelente, diga-se), algum humor, poucas homenagens ao antigo seriado, como o chifre cortado do cavaleiro de ouro Aldebaran, de Touro. Porém, falta desenvolvimento ou motivação aos heróis, vilões, etc. Outro dourado, o Máscara da Morte, de Câncer, parece uma drag raivosa e surtada, dando piti. Talvez algum tipo de humor que funcione em outro lugar e aqui ficou a mercê da boa vontade do espectador. Não há momento de êxtase. Aquele golpe, ou instante de superação, que eram característicos nos episódios exibidos na Rede Manchete e hoje disponíveis em DVD.

Enquanto cinema, para quem pegar o bonde andando, fica difícil entender o contexto, quem luta contra quem, e o que cada personagem significa. Os cavaleiros são arremessados de casa em casa e, quando percebemos, o filme está no fim. Ikki, o Fênix, irmão de Shun, entra e sai da trama sem o menor sentido. Fato alertado bem antes do lançamento, pois como adaptariam uma saga de 73 episódios em uma hora e meia de projeção?

Sobra visual, faltam ideias. Será sucesso de público no Brasil? Não duvido. A ansiedade de jovens e os marmanjos que viram o programa estrear lá em 1994 na emissora carioca era imensa. É o tipo de público que vê e revê o filme, no cinema, ainda que a sensação de “podia ser melhor” se perpetue. Voltado única e exclusivamente ao seu púbico de consumo.

Estreia no Brasil: 11/09/2014. 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

One thought on “Cavaleiros do Zodíaco – A Lenda do Santuário: Milhões em visual e esqueceram de chamar um roteirista

  1. Nossa concordo totalmente com sua crítica. Faltou um roterista sim e minha maior decepção foi o O Cavaleiro de Ouro de Cancer, o Afrodite e a ausência de um dos Cavaleiros (não vou citar para evitar o spoiler). Sobre o excesso no humor pode ser q talvez tenha mudado meu ponto de vista de 1994 rsrsrs… porém na epoca não era tão extremo, mas certeza q vou rever e rever e falar mal e falar bem rsrsrs…

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