O Castelo: Haneke adapta Kafka

O homem edificou a sociedade por meio de mecanismos burocráticos. Viver é perder-se entre títulos, nomenclaturas, símbolos, siglas, carimbos, legislações, normas, etc. Com isso, o ser humano afastou-se de si. Tantos “sentidos” e atribuições sociais parecem ter feito com que se perdessem também os sentidos humanos.

O aparelhamento estatal, como forma de organização das pessoas em comunidade, ao mesmo tempo em que propõe um padrão para se viver em sociedade, também oprime no instante em que o homem se perde de si, aliena-se, distancia-se de suas raízes.

“O Castelo” é baseado no livro homônimo e inacabado de Kafka, lançado postumamente em 1926. Retrata a trajetória de um homem que chega a uma aldeia para executar um serviço, mas que não consegue falar com o conde, supostamente contratante.

O personagem principal, com o nome reduzido a apenas uma letra, K., busca alternativas para se comunicar com os representantes locais, no entanto, para as pessoas da aldeia os poderes constituídos são quase que imaginários. Sabem da existência de um poder denominado O Castelo, mas que praticamente ninguém tem acesso. Assim é como se não existisse.

A obra de Kafka, muito bem convertida em imagens pelo diretor Haneke, utiliza-se da potencialização de situações absurdas para mostrar o distanciamento dos aldeães em relação ao sistema, o non sense da vida, dos mecanismos burocráticos, da alienação. Recurso que também fora utilizado pelos autores do “absurdo”, como Samuel Beckett, Albert Camus e com transições do existencialismo de Sartre.

Os aldeães resumem-se em viver, beber, dançar, sorrir e voltar para seus lares, como se todo sistema fosse algo natural e não algo inventado por outros homens.

K., que se diz agrimensor, começa sua busca pelo conde que supostamente o contratara. O máximo que chega é a um homem, ligado ao Castelo, que verifica numa pilha de documentos amontados num armário, de que realmente fora solicitado um agrimensor, mas há muito tempo…

Com a sensação de estar preso dentro daquele labirinto burocrático, K. de fato não consegue sair da aldeia. Envolve-se num enlace amoroso e, perdido o seu porquê de estar na aldeia, contrariado – mas necessitado – , aceita o emprego de supervisor numa escola.

O distanciamento de K. na aldeia é a distanciamento daqueles que estão à margem de uma sociedade que criou tantos mecanismos no sentido de aproximar, mas que acabou afastando os homens, onde as pessoas parecem viver de fato em um mundo real, mas sobretudo imaginário e sem sentido quando inseridos no labirintos do sistema. Perdido entre papéis, o homem perdeu o seu papel existencial.

Curiosidades – O título original do livro “Das Schloss” tem dois sentidos: castelo e, também, fechadura.

castelodvdO Castelo (Das Schloss, Alemanha/Áustria, 1997)

Elenco: Ulrich Mühe, Susanne Lothar, Frank Giering, Felix Eitner.

Roteiro: Michael Haneke

Fotografia: Jirí Stibr

Edição: Andreas Prochaska

Direção de Arte: Christoph Kanter

Diretor: Michael Haneke

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

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