Magia ao Luar: Doce ou travessura?

“Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil”. Li essa frase no livro “Extraordinário” de R.J. Palacio e de imediato puxei mais um traço no mapa conceitual do filme “Magia ao Luar”, de Woody Allen.

SMSS J031300.36-670839.3 é o nome da estrela mais antiga do universo com 13, 6 bilhões de anos.

A sensação de que elas são anteriores a nós se confirma em parte, no sentido que o muito do que observamos no céu já não existe mais.

É ilusão.

Wei Ling Soo é também uma estrela que já está morta no firmamento. Uma espécie de holograma ou uma farsa. Interpretado por Colin Firth é o cético e absolutamente racional ilusionista que apesar de fazer desaparecer elefantes e se fantasiar de chinês trava uma cruzada contra toda a sorte de charlatões e sensitivos.

Ou seria contra a cor das coisas?

Empolado e egocêntrico, Wei ou se preferirem Stanley, é convocado por seu amigo de infância Howard – também ele um ilusionista – para desmascarar a jovem “vendedora de ilusões”, Sophie.

De imediato, os olhos intensos e gigantes – maiores do que o universo e capazes de acolher todas as estrelas, abrem um buraco negro no coração de Stanley – ainda que ele não perceba.

“Magia ao Luar” é um filme sobre mística. Ou sobre a dúvida sobre ela.

Na definição regular da palavra, há algo que gosto muito: mística é algo que faz parte de uma miscelânea.

Puxo mais um traço, e de miscelânea fico com: “obra composta de vários assuntos”.

Em suma, o universo.

Sophie é uma fraude, mas também não.

Ela conversa com a ancestralidade, no sentido em que busca nas raízes o entendimento das coisas que são simples.

Ao contrário de Stanley, ele também um pedaço de asteroide caído, ela tem os ouvidos e olhos bem abertos para os sons do mundo.

É dela a percepção sensorial de que há um fluxo de energia entre eles: latente, pulsante que brilha assim como as estrelas no céu.

Homem de convicções endurecidas, Stanley no contato com “o mundo invisível” embandeirado por Sophie, recupera a ilusão pela vida.

magiaposter“Doce ou travessura?”, em forma de hipótese visualizo Sophie olhando bem no fundo dos olhos de Stanley, inquirindo-o, enquanto dançam no baile.

É amargo o sabor que carrega na boca. Desilusões múltiplas, inadequações que de forma imperceptível vão sendo degeladas pela presença doce das correntes do imaginário.

Ele também acreditava em estrelas. No observatório, abrigando-se de uma tempestade, conversam sobre elas e talvez no íntimo sobre o mistério.

“Acha ameaçador? Eu acho muito romântico”- sintetiza Sophie o abismo entre a intimidade de ambos com o universo.

Estamos aqui para tudo e Woody Allen em um jogo em que ganhamos todos reflete sobre a fronteira traçada a lápis entre a ilusão e a realidade.

Estreia no Brasil: 28/08/2014.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *