O cinema como arte de refazer o olhar

“Todo preconceito é fruto da burrice, da ignorância e qualquer atividade cultural contra preconceitos é válida.” Paulo Autran

E quem quer mesmo perder tempo com ficções? Eu! Assumo a total e leviana irresponsabilidade de querer manter-me debruçada sobre um filme para assisti-lo no meio da tarde ou depois de um dia cansativo no trabalho. Preciso loucamente disto, pois conheço o valor de uma boa conversa íntima entre espectador e tela. O que não digeri no dia, desdobro-me ali, refazendo o olhar, questionando, pontuando. Ou seja, duvidando das minhas certezas.

Nós temos pressa, a arte não. A câmera também não. Nas mãos de um diretor, ela capta detalhes que vão tecendo o enredo e mexendo aqui dentro. Queremos, quase sempre, respostas prontas, rápidas e certeiras. Mas a verdade tem tantas faces, caro amigo.

Faz um tempo, escrevi para esta coluna sobre um filme de Woody Allen em que a personagem principal prescrevia filmes para os frequentadores de sua farmácia. Para quem tiver curiosidade, o nome da película é “Manhattan”.

E caramba! Confesso que passo pela mesma tentação de sair por aí sugerindo filmes para os mais variados casos e pessoas. Por vezes, deparo-me com alguém extremado, rígido em suas crenças limitantes e fico pensando: o mundo está tão feio, não precisa de tipos assim.

Parece-me que há muita gente por aí precisando mesmo ver bons filmes, abrir a mente, sabe?

Sinceramente ando assustada com a rigidez de pensamento e a falta de disposição da maioria em buscar outros olhares. Sem contar a prática do próprio preconceito para combater outro preconceito.

Mas não adianta, porque o ser humano é sempre tranformado pelos sistemas culturais que o rodeiam, por suas trocas sociais. Mas também possui potencial transformador. Por isso, e urgentemente, precisa de remédios pedagógicos e propulsores de reflexão.

O livro, em toda sua intenção de ensinar e libertar, cumpre este papel com maestria, mas são poucos os que se submetem a “ouvir” sua sinfonia.

O que tristemente constato é que o mundo está habitado, quase em sua maioria, por gente cheia de opinião e que nada lê.

Daí, penso: Quem sabe um filminho não abra a mente do camarada?

Porque cinema também é linguagem, também é leitura e escrita, porém, em movimento. E isso é mágico!

Assistir a um filme requer uma leitura prévia de mundo e de si mesmo. Contrapor nossas crenças com outra proposta de pensar é enriquecedor. Desde mui pequenos, nosso imaginário foi sendo cuidadosamente formado por dezenas de histórias contadas por nossos antepassados com um propósito de perpetuar um modo de vida confortável para os dominadores, os mandões do pedaço. A mairoria dessas histórias chegaram até nós carregadas de lições de moral e conclusões já prontas, devidamente embrulhadas para presente, sem o nosso questionamento.

Por isso, insisto no papel da arte como elemento cognoscível para a mudança de paradigmas, como elemento revelador de contrastes. Insisto ainda no papel crucial do cinema, arte detentora em sua forma dinâmica de imagem, som, palavra e música para a ampliação de leitura de mundo, tão necessária para o convívio amistoso entre os povos.

Um beijo e até a próxima, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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